O ritmo metálico do comboio embalava o vagão número sete, um microcosmo de vidas cruzadas sobre carris reluzentes.
Da minha janela, o crepúsculo pintava o horizonte de um roxo elétrico, mas o verdadeiro espetáculo decorria no meu campo de visão imediato. Eu observava-os, submergindo numa teia de suposições.
À minha frente, um velho que parecia ter a idade da própria Terra lutava contra os próprios pulmões. Tossia de forma cavernosa, um som que ecoava como pedras a rolar num poço vazio. A cada espasmo, usava um lenço de pano encardido para limpar a gosma espessa que lhe escapava da boca.
Fixei-me nos seus olhos vítreos. Será que aquela tosse monumental era apenas o peso dos anos, ou escondia algo mais? O halo ligeiramente esverdeado que parecia flutuar ao seu redor fazia-me pairar numa hipótese absurda: e se ele estivesse a expelir os restos de uma substância alquímica, o subproduto de uma imortalidade mal conseguida?
Duas filas ao lado, sentava-se uma mulher de meia-idade que exalava uma aura implacável de autoridade. Vestia um fato de corte impecável, azul-escuro, e óculos de armação fina. Ditava uma postura rígida, com as mãos cruzadas sobre uma pasta de cabedal misteriosa.
Pensei para comigo: deve ser advogada penalista, daquelas que defendem segredos de Estado, ou uma professora universitária de física quântica cujas teorias ninguém ousa contestar. Havia um brilho estranho no anel de opala que trazia no dedo; por momentos, jurei que a pedra mudava de tom conforme ela olhava fixamente para o velho tossidor, como se medisse a frequência da sua maleita.
Mesmo ao fundo do corredor, alheados do mundo e das convenções sociais, estava um casalinho de namorados. Miúdos de tenra idade, talvez a roçar os dezasseis anos. Estavam permanentemente envolvidos numa espiral de amassos, beijos famintos e sussurros febris. Pouco se importavam se os passageiros os observavam ou se o barulho incomodava.
Contudo, a fantasia dos meus pensamentos desenhou um cenário diferente: a urgência dos seus toques não parecia mera hormona adolescente. Havia um desespero quase místico na forma como colavam as testas. Pareciam duas metades de uma mesma alma condensada que, se se separassem por um segundo, evaporariam no ar do vagão.
Perto deles, o ruído de fundo era alimentado por duas velhas de xaile negro, sentadas frente a frente. As cabeças inclinavam-se uma para a outra, os lábios moviam-se numa velocidade frenética, destilando veneno sobre a vida alheia. Falavam do vizinho do terceiro esquerdo, da filha do padeiro, mas o tom era excessivamente ritualístico.
Na minha mente, elas não eram meras coscuvilheiras de província. Eram as Moiras modernas, as tecedeiras do destino humano. Cada coscuvilhice que partilhavam moldava, na verdade, a sorte ou o azar de quem estivesse na sua mira. O sussurro delas parecia ditar o compasso da própria viagem.
Foi então que o ambiente mudou. A porta hidráulica do vagão abriu-se com um silvo pneumático e entrou o revisor. Avançava devagar, picando os bilhetes com uma precisão cirúrgica. Quando se aproximou da minha fila, reparei nos detalhes invulgares da sua farda. Pregados no peito, lado a lado, ostentava dois pins: a águia altiva do Sport Lisboa e Benfica e a foice e o martelo dourados sobre o fundo vermelho do Partido Comunista Português. Uma combinação iconográfica poderosa, quase mítica na sua essência popular.
— Boa tarde. O seu bilhete, por favor — pediu ele, com uma voz surpreendentemente aveludada.
Entreguei-lhe o pedaço de cartão. Olhei para os pins e, levado por um impulso de pura cortesia e bom humor transborda-bairrismo, decidi quebrar o gelo com uma provocação simpática:
— É dos meus! — disse eu, exibindo um sorriso aberto. E logo acrescentei, para vincar o contraste e a ironia do momento: — Embora eu seja de Direita e ferrenho do Sporting Clube de Portugal!
O "pica" deteve o movimento do alicate. Olhou-me de soslaio, e por trás dos seus óculos escuros pareceu brilhar uma faísca de pura diversão cósmica. O vagão, de repente, pareceu mergulhar num silêncio absoluto. A tosse do velho parou. A advogada congelou o olhar. Os miúdos imobilizaram-se a meio de um beijo. As duas velhas calaram-se, os olhos fixos em nós.
O revisor inclinou-se ligeiramente para a frente, estendendo-me o bilhete já perfurado. O furo no papel tinha, bizarramente, a forma exata de uma estrela de cinco pontas.
— Meu caro senhor — sussurrou ele, num tom que parecia carregar o segredo de todas as linhas férreas do universo —, as cores que exibimos ao peito e as ideologias que defendemos à superfície são apenas o bilhete de identidade que mostramos ao mundo. Mas neste comboio... neste comboio viajamos todos na mesma carruagem, em direção ao mesmo invisível. Clubes e partidos são ilusões da nossa paragem atual. A verdadeira Direita ou Esquerda decide-se na próxima curva da Eternidade.
Fiquei mudo.
O homem piscou-me o olho, endireitou a farda e seguiu caminho, caminhando com uma leveza que desafiava a gravidade. À medida que avançava pelo corredor, o velho voltou a tossir — mas agora a gosma que limpava brilhava como prata derretida. A mulher de meia-idade sorriu-me com cumplicidade, guardando na pasta um maço de papéis que pareciam manuscritos medievais. Os namorados deram as mãos e, por um breve instante, as suas silhuetas tornaram-se translúcidas. As duas velhas voltaram a segredar, apontando discretamente para mim, como se tivessem acabado de reescrever o meu próprio capítulo.
Encostei a cabeça ao vidro friável da janela, sentindo o pulsar do motor nas têmporas. O comboio continuava a rasgar a noite, e eu percebi que aquela viagem estava longe de ser apenas um trajeto entre duas estações geográficas. Era um enigma em movimento, e eu era agora parte dele.
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