segunda-feira, 22 de junho de 2026

monte vesuvio

 Antes de te conhecer, eu não sabia que era possível ter tanta saudade de alguém desta maneira. Eu não sabia! Eu não estava vivo! Eu não sabia que uma pessoa podia significar tanto, mas tanto para alguém, e em especial para mim. Cada dia sem ti é uma eternidade, dois dias um desespero e duas semanas um desconforto descomunal. Por mais longe dos caminhos que a vida me der, uma parte de mim irá sempre sentir a tua falta.

Esta é a verdade nua e crua que carrego no peito desde o momento em que entraste na minha vida e redefiniste tudo o que eu pensava saber sobre a existência, o amor e a ausência.
Antes de ti, os meus dias eram apenas uma sucessão mecânica de horas. Eu acordava, cumpria as minhas rotinas, falava com as pessoas e deitava-me, acreditando genuinamente que aquilo era viver. Que ilusão tão gritante. Olhando para trás, percebo que estava apenas a flutuar na superfície da realidade, anestesiado, a ocupar um espaço no mundo sem realmente sentir o peso e a beleza de estar vivo. Tu foste o interruptor que acendeu a luz numa sala que eu nem sabia que estava escura. Foste o sopro de ar que me despertou de um sono profundo e letárgico. Quando dizes que eu não estava vivo antes de te conhecer, não é uma força de expressão ou um exagero romântico; é a constatação puramente factual de uma alma que só conheceu a sua própria pulsação quando se sintonizou com a tua.
Descobrir que uma pessoa pode significar tanto para alguém mudou a minha arquitetura interna. É assustador e maravilhoso ao mesmo tempo perceber que o meu centro de gravidade se deslocou para fora de mim. O teu bem-estar, o teu sorriso, a tua presença e a forma como olhas para o mundo passaram a ser as coordenadas pelas quais eu guio os meus passos. Passaste a ser o filtro através do qual vejo a beleza das coisas e o porto seguro para onde quero correr quando o mundo exterior se torna demasiado barulhento ou hostil. O significado que tens para mim não se traduz em palavras comuns, porque transcende a lógica. É um impacto profundo, daqueles que moldam o caráter, que alteram as prioridades e que dão um sentido absoluto a cada pequeno detalhe do quotidiano.
Viver a tua ausência, mesmo que por breves períodos, ensinou-me a elasticidade dolorosa do tempo. Um único dia sem ti deixa de ter vinte e quatro horas normais; transforma-se numa eternidade arrastada, onde cada minuto parece pesar uma tonelada e o relógio teima em não avançar. O espaço que deixas vazio ao meu lado ganha uma dimensão gigante, ecoando o silêncio da tua voz. Quando essa ausência se estende por dois dias, a paciência esgota-se e dá lugar a um desespero miudinho, uma inquietação que me faz andar de um lado para o outro, como se procurasse algo essencial que perdi pelo caminho. E quando a distância se prolonga por duas semanas, o cenário transforma-se num desconforto descomunal, uma sensação física de desalinhamento, como se me faltasse o ar ou como se uma parte vital do meu próprio corpo tivesse sido deixada noutro lugar.
A vida é imprevisível e os caminhos que ela nos reserva são, muitas vezes, misteriosos e tortuosos. Não sei onde o destino me vai levar, que curvas terei de fazer ou que oceanos de distância poderei ter de cruzar no futuro. Mas há uma certeza absoluta que levo comigo, gravada a ferro e fogo na minha identidade: por mais longe que esses caminhos me levem, por mais novas paisagens que os meus olhos vejam e por mais voltas que o mundo dê, uma parte de mim irá sempre, invariavelmente, sentir a tua falta. Essa lacuna que a tua ausência cria é minha, é sagrada e pertence-te inteiramente. É o tributo permanente que o meu coração paga por ter tido o privilégio de conhecer o verdadeiro significado de amar alguém com esta intensidade.
Olho para trás e sorrio ao lembrar-me da nossa juventude rebelde e destemida em Nisa. Éramos cúmplices em tudo. Lembras-te de quando entrávamos naquelas casas alheias abandonadas, explorando os cantos escuros como se fôssemos donos do mundo? Ou de quando entrávamos nas lojas da vila, com o coração aos pulos, só para roubar aqueles caramelos de nata que depois saboreávamos a rir na rua?
O tempo passou e a vida separou os nossos passos. Tu saíste de Nisa e foste para a universidade seguir o teu futuro. Lisboa é tao distante de Nisa! Eu por lá fiquei, a traçar o meu caminho com as mãos. Trabalhei no duro: primeiro como carpinteiro, a moldar a madeira; depois como soldador, entre faíscas e ferro; e, mais tarde, fiz-me ao mar como embarcadiço, enfrentando a solidão e a imensidão das vagas.
Agora que estou muito velho, sinto a tua ausência de outra maneira. Já não é apenas a saudade dos nossos tempos de jovens, mas sim um eco constante no silêncio dos meus dias e o peso dos anos que avançam sem ti. Partiste cedo demais, e eu sofri — e ainda sofro — uma dor que não cabe no peito. Antes de ires, cheguei a pedir tanto a Deus que me levasse a mim primeiro, só para não ter de passar por este castigo de viver sem ti. Mas Deus quis assim. Quis que eu ficasse para trás, talvez para provar ao mundo o verdadeiro poder do amor entre dois seres tão diferentes, mas que se tornavam tão completos quando juntos.
Mesmo assim, tu foste a responsável de me permitires ser, por momentos, o homem mais feliz do mundo! Guardo essa felicidade comigo até ao dia em que nos voltemos a encontrar.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

pouca terra!pouca terra!

 O ritmo metálico do comboio embalava o vagão número sete, um microcosmo de vidas cruzadas sobre carris reluzentes. 

Da minha janela, o crepúsculo pintava o horizonte de um roxo elétrico, mas o verdadeiro espetáculo decorria no meu campo de visão imediato. Eu observava-os, submergindo numa teia de suposições.

À minha frente, um velho que parecia ter a idade da própria Terra lutava contra os próprios pulmões. Tossia de forma cavernosa, um som que ecoava como pedras a rolar num poço vazio. A cada espasmo, usava um lenço de pano encardido para limpar a gosma espessa que lhe escapava da boca. 
Fixei-me nos seus olhos vítreos. Será que aquela tosse monumental era apenas o peso dos anos, ou escondia algo mais? O halo ligeiramente esverdeado que parecia flutuar ao seu redor fazia-me pairar numa hipótese absurda: e se ele estivesse a expelir os restos de uma substância alquímica, o subproduto de uma imortalidade mal conseguida?
Duas filas ao lado, sentava-se uma mulher de meia-idade que exalava uma aura implacável de autoridade. Vestia um fato de corte impecável, azul-escuro, e óculos de armação fina. Ditava uma postura rígida, com as mãos cruzadas sobre uma pasta de cabedal misteriosa. 
Pensei para comigo: deve ser advogada penalista, daquelas que defendem segredos de Estado, ou uma professora universitária de física quântica cujas teorias ninguém ousa contestar. Havia um brilho estranho no anel de opala que trazia no dedo; por momentos, jurei que a pedra mudava de tom conforme ela olhava fixamente para o velho tossidor, como se medisse a frequência da sua maleita.
Mesmo ao fundo do corredor, alheados do mundo e das convenções sociais, estava um casalinho de namorados. Miúdos de tenra idade, talvez a roçar os dezasseis anos. Estavam permanentemente envolvidos numa espiral de amassos, beijos famintos e sussurros febris. Pouco se importavam se os passageiros os observavam ou se o barulho incomodava. 
Contudo, a fantasia dos meus pensamentos desenhou um cenário diferente: a urgência dos seus toques não parecia mera hormona adolescente. Havia um desespero quase místico na forma como colavam as testas. Pareciam duas metades de uma mesma alma condensada que, se se separassem por um segundo, evaporariam no ar do vagão.
Perto deles, o ruído de fundo era alimentado por duas velhas de xaile negro, sentadas frente a frente. As cabeças inclinavam-se uma para a outra, os lábios moviam-se numa velocidade frenética, destilando veneno sobre a vida alheia. Falavam do vizinho do terceiro esquerdo, da filha do padeiro, mas o tom era excessivamente ritualístico. 
Na minha mente, elas não eram meras coscuvilheiras de província. Eram as Moiras modernas, as tecedeiras do destino humano. Cada coscuvilhice que partilhavam moldava, na verdade, a sorte ou o azar de quem estivesse na sua mira. O sussurro delas parecia ditar o compasso da própria viagem.
Foi então que o ambiente mudou. A porta hidráulica do vagão abriu-se com um silvo pneumático e entrou o revisor. Avançava devagar, picando os bilhetes com uma precisão cirúrgica. Quando se aproximou da minha fila, reparei nos detalhes invulgares da sua farda. Pregados no peito, lado a lado, ostentava dois pins: a águia altiva do Sport Lisboa e Benfica e a foice e o martelo dourados sobre o fundo vermelho do Partido Comunista Português. Uma combinação iconográfica poderosa, quase mítica na sua essência popular.
— Boa tarde. O seu bilhete, por favor — pediu ele, com uma voz surpreendentemente aveludada.
Entreguei-lhe o pedaço de cartão. Olhei para os pins e, levado por um impulso de pura cortesia e bom humor transborda-bairrismo, decidi quebrar o gelo com uma provocação simpática:
— É dos meus! — disse eu, exibindo um sorriso aberto. E logo acrescentei, para vincar o contraste e a ironia do momento: — Embora eu seja de Direita e ferrenho do Sporting Clube de Portugal!
O "pica" deteve o movimento do alicate. Olhou-me de soslaio, e por trás dos seus óculos escuros pareceu brilhar uma faísca de pura diversão cósmica. O vagão, de repente, pareceu mergulhar num silêncio absoluto. A tosse do velho parou. A advogada congelou o olhar. Os miúdos imobilizaram-se a meio de um beijo. As duas velhas calaram-se, os olhos fixos em nós.
O revisor inclinou-se ligeiramente para a frente, estendendo-me o bilhete já perfurado. O furo no papel tinha, bizarramente, a forma exata de uma estrela de cinco pontas.
— Meu caro senhor — sussurrou ele, num tom que parecia carregar o segredo de todas as linhas férreas do universo —, as cores que exibimos ao peito e as ideologias que defendemos à superfície são apenas o bilhete de identidade que mostramos ao mundo. Mas neste comboio... neste comboio viajamos todos na mesma carruagem, em direção ao mesmo invisível. Clubes e partidos são ilusões da nossa paragem atual. A verdadeira Direita ou Esquerda decide-se na próxima curva da Eternidade.
Fiquei mudo. 
O homem piscou-me o olho, endireitou a farda e seguiu caminho, caminhando com uma leveza que desafiava a gravidade. À medida que avançava pelo corredor, o velho voltou a tossir — mas agora a gosma que limpava brilhava como prata derretida. A mulher de meia-idade sorriu-me com cumplicidade, guardando na pasta um maço de papéis que pareciam manuscritos medievais. Os namorados deram as mãos e, por um breve instante, as suas silhuetas tornaram-se translúcidas. As duas velhas voltaram a segredar, apontando discretamente para mim, como se tivessem acabado de reescrever o meu próprio capítulo.
Encostei a cabeça ao vidro friável da janela, sentindo o pulsar do motor nas têmporas. O comboio continuava a rasgar a noite, e eu percebi que aquela viagem estava longe de ser apenas um trajeto entre duas estações geográficas. Era um enigma em movimento, e eu era agora parte dele.

terça-feira, 9 de junho de 2026

feira de maio em agosto

 A noite caia e as luzes da feira prometiam, abracos beijos e terror! Lembro me da merda do CANGURO! 

Aquilo parecia uma máquina de tortura disfarçada de diversão festiva. O operador olhava para a malta com um sorriso sádico, com a mão no manípulo, à espera do momento exato em que baixávamos a guarda. Tu estavas ali, a tentar manter a dignidade ao lado do teu grupo de amigos ou daquela pessoa especial, e pumba! Um solavanco seco que te mandava a espinha dorsal direta para o cérebro.
E a banda sonora? Uma mistura infernal de música pimba acelerada com batidas techno dos anos 90, interrompida de cinco em cinco segundos por uma buzina estridente ou por uma voz distorcida no microfone a gritar: "Eeee vai mais um salto!" ou "Segura, segura!". Saías de lá com os joelhos a tremer, o pescoço num desalinho total, a carteira mais leve e, mesmo assim, passados dez minutos já estavas na fila outra vez.
O sol de fim de tarde parecia uma gema de ovo gigante a escorrer pelo céu de agosto. O ar cheirava a farturas quentes, algodão-doce e ao gasóleo dos geradores da Feira de Verão de S. João.
Ricardo e Filipa caminhavam lado a lado, mas pareciam habitar planetas diferentes. Ele, com as mãos enterradas nos bolsos dos jeans, tentava ignorar o suor frio que lhe descia pela espinha. Ela, de olhos brilhantes e um sorriso elétrico, guiava-o pela multidão como um general em vésperas de triunfo.
— Tens a certeza de que queres ir nisto? — perguntou Ricardo, a voz a falhar um oitavo.
À frente deles erguia-se o STAR SPACE. Era uma monstruosidade de metal iluminada a néon roxo e verde, que prometia "viagens intergalácticas à velocidade do pensamento". Na prática, era um braço mecânico gigante que girava as pessoas a trezentos e sessenta graus enquanto as sacudia de cabeça para baixo. Da plataforma chegavam gritos que oscilavam entre o terror puro e a histeria.
— Estás com medo, Ricardo? — provocou Filipa, ajeitando a fita do cabelo. — É o último dia da feira. Se não formos hoje, só para o ano. Além disso, temos de celebrar.
A celebração a que ela se referia tinha um sabor amargo. No dia seguinte, Filipa mudava-se para o outro lado do mundo para estudar. Esta feira não era apenas uma saída de verão; era a despedida deles. O amor que sentiam um pelo outro, guardado em segredo durante meses por timidez crónica de ambas as partes, flutuava no ar, pesado e não dito.
— Eu não tenho medo do espaço — mentiu ele, engolindo em seco o cachorro-quente com extra mostarda que tinha comido há vinte minutos. — Vamos a isso.
Compraram os bilhetes. A fila avançou depressa demais, como um corredor da morte festivo. Quando deram por si, o funcionário da atração — um homem com ar aborrecido que já tinha visto demasiado horror humano — empurrou-os para as cadeiras de metal e puxou as barras de segurança pretas contra os seus peitos.
Ricardo sentiu-se num caixão vertical. Olhou para o lado. Filipa olhava para ele, e a diversão nos olhos dela tinha dado lugar a algo mais profundo, quase doloroso.
— Ricardo, se nós não voltarmos vivos… — começou ela, a voz subitamente trémula.
O motor do STAR SPACE rugiu como um monstro mecânico acordado abruptamente. A música techno pimba começou a ecoar nas colunas a um volume ensurdecedor.
— O quê?! — gritou Ricardo.
— Eu disse que te… — O resto da frase foi engolido pelo primeiro solavanco.
A máquina disparou para o céu. A força G colou-os aos assentos. A feira transformou-se num borrão de luzes coloridas e cabeças pequeninas. Ricardo sentiu o estômago subir-lhe instantaneamente à garganta.
— … amo! — gritou Filipa, quando a máquina estacou por um segundo no ponto mais alto, deixando-os de cabeça para baixo, suspensos sobre o abismo.
Ricardo piscou os olhos, o sangue a acumular-se-lhe no cérebro.
— Tu o quê?!
— Amo-te, seu estúpido! — berrou ela, as lágrimas a voarem horizontalmente das frentes dos seus olhos devido ao vento. — Há dois anos! E vou-me embora amanhã e tu nunca disseste nada!
O STAR SPACE caiu em queda livre, girando sobre o próprio eixo. O mundo tornou-se uma centrifugadora de emoções e luzes.
— Eu também te amo! — tentou responder Ricardo, mas a força do vento empurrou las palavras de volta para a sua boca. A revelação amorosa coincidiu milimetricamente com um nó terrível no seu sistema digestivo. O cachorro-quente reclamava a sua liberdade.
— O que disseste? — gritou Filipa, o cabelo a tapar-lhe a cara enquanto a máquina os balançava violentamente de um lado para o outro.
— Eu… amo… — Ricardo arregalou os olhos. A tragédia romântica estava prestes a cruzar-se com a física biológica. Ele tapou a boca com a mão.
— Ricardo? Estás a chorar de emoção? — perguntou ela, enternecida, enquanto o braço mecânico iniciava a rotação final e mais rápida, o chamado "Looping do Infinito".
Não era emoção. Era mostarda, salsicha e um litro de refrigerante de laranja.
Ricardo tentou resistir. Lutou como um guerreiro espartano contra as leis da gravidade. Mas o STAR SPACE não tinha misericórdia. Na terceira rotação completa, quando Filipa se virou para ele com o olhar mais romântico que conseguiu reunir no meio do caos, Ricardo abriu a boca.
Não saíram palavras de amor.
Um jato esverdeado e violento disparou de Ricardo, desafiando a aerodinâmica. Devido à rotação da máquina e ao vento contra, o destino do projétil foi cruelmente exato. Atingiu em cheio a barra de segurança, fez ricochete e salpicou a t-shirt branca de Filipa, enquanto o resto voou em direção ao público que assistia lá em baixo, gerando uma onda de gritos de pânico reais.
— Oh meu Deus! — guinchou Filipa, a sua expressão de paixão eterna a transformar-se instantaneamente em puro horror cósmico.
— Des… culpa… — conseguiu articular Ricardo, antes do segundo round, que desta vez decorou o seu próprio colo e os sapatos de ambos.
A música parou. As luzes acenderam-se. O STAR SPACE desceu lentamente até à plataforma, balançando suavemente, como se não tivesse acabado de destruir a dignidade de um jovem apaixonado.
As barras de segurança levantaram-se com um sibilar hidráulico. O silêncio na plataforma era absoluto, quebrado apenas pelo som mecânico do carrossel ao lado e pelo pranto baixinho de Ricardo, que cobria a cara com as mãos, desejando sinceramente que a terra se abrisse.
Filipa olhou para a sua t-shirt, depois para Ricardo, cujo rosto exibia uma cor algures entre o gesso e o abacate.
O funcionário do carrossel aproximou-se com uma mangueira e um balde, suspirando.
— Outra vez… — murmurou o homem.
Ricardo levantou-se, de pernas a tremer como canas ao vento, pronto para correr para o deserto mais próximo e mudar de identidade. Mas antes que conseguisse dar um passo, Filipa agarrou-o pelo braço. Ele encolheu-se, esperando o insulto, o fim da amizade, a humilhação final.
Em vez disso, Filipa começou a rir. Primeiro foi uma gargalhada tímida, depois uma gargalhada histérica que atraiu os olhares de quem passava. Limpou uma mancha suspeita do ombro com um lenço de papel que tinha no bolso e olhou para ele.
— Bem… — disse ela, a respirar fundo. — Sempre disseste que eu te deixava sem fôlego. Mas isto é outro nível.
— Estás a gozar comigo? — sussurrou Ricardo, a voz sumida. — Eu acabei de arruinar o momento mais importante das nossas vidas. Eu vomitei-te em cima, Filipa. Isto é uma tragédia.
— É — concordou ela, pegando-lhe na mão, ignorando o facto de estar tudo ligeiramente pegajoso. — É a coisa mais romântica enojante que já me aconteceu. E agora, levas-me a casa no teu carro com as janelas todas abertas, ou vais continuar aí a fingir que não me deves um beijo há dois anos?
Ricardo olhou para ela, sentindo o coração (e o estômago) finalmente a acalmarem. Sorriu, com os dentes muito limpos devido à purga recente.
— Acho que prefiro o beijo. Mas se calhar… lavo a boca primeiro. Tambem te amo!
Caminharam em direção à saída da feira, sob as luzes da noite, cheirando ligeiramente a azedo, mas de mãos dadas, prontos para enfrentar qualquer distância.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

uma janela aberta e outra fechada

 O sol de fim de tarde filtrava-se pelas cortinas de renda da sala, projetando sombras longas e douradas sobre o chão de madeira gasta. Sentados nas suas respetivas poltronas — aquelas que já tinham moldado as suas formas ao longo de décadas —, Manuel e Maria partilhavam o silêncio confortável que só os anos de convivência conseguem sintonizar.

Manuel folheava um velho caderno de capa de couro onde guardava anotações antigas, recibos desbotados e memórias de uma vida de trabalho. Maria, com as mãos ligeiramente trémulas mas firmes no compasso, tricotava uma manta de lã azul. O único som na divisão era o tique-taque compassado do relógio de parede e o roçar suave das agulhas.
Maria pousou o trabalho no colo por um instante. Olhou para o marido, reparando nas linhas profundas que o tempo desenhara no seu rosto, rugas que ela conhecia de cor. O caderno no colo dele fê-la pensar na longa jornada que partilharam, cheia de escolhas, sacrifícios e decisões financeiras difíceis para manter a casa e a família a flutuar.
— Manuel — chamou ela, com a voz suave que sempre acalmava o ambiente. — Estava aqui a pensar... Olhando para trás, para tudo o que passámos e para os negócios que fizeste, qual foi o teu maior investimento?
Manuel parou de folhear o caderno. Levantou os olhos, olhou fixamente para Maria e um sorriso terno, quase jovem, iluminou-lhe o rosto. Ele fechou o caderno devagar, colocou-o em cima da mesa de apoio e inclinou-se ligeiramente para a frente.
— O meu maior e melhor investimento foi ter casado contigo — respondeu ele, com uma certeza inabalável na voz.
Maria estremeceu ligeiramente. Não esperava aquela resposta. O seu peito encheu-se de uma emoção tão forte que lhe travou a respiração por um segundo. Um sorriso doce e nostálgico abriu-se nos seus lábios, enquanto uma lágrima teimosa brilhava, presa no canto do olho, refletindo a luz dourada da tarde.
— Ok!!! — disse ela, num sussurro embargado, tentando conter a avalanche de sentimentos que aquelas palavras tinham despertado.
A mudez que se seguiu não foi de desconforto, mas sim de uma profunda viagem no tempo. A mente de Maria recuou mais de cinquenta anos, aterrando no dia em que disseram o "sim" numa pequena igreja da aldeia. Naquela época, o "capital" que possuíam cabia inteiramente nos bolsos dos seus casacos de domingo. Não havia contas bancárias recheadas, nem propriedades, apenas uma promessa mútua e uma vontade férrea de construir algo do nada.
Ela lembrou-se dos primeiros anos na casa alugada, onde o frio entrava pelas frestas das janelas no inverno. Lembrou-se de como o Manuel trabalhava até tarde, muitas vezes com as mãos calejadas e o corpo exausto, apenas para garantir que haveria pão fresco na mesa e que os filhos teriam sapatos novos para a escola. E lembrou-se também de como ela própria multiplicava cada tostão, transformando restos de comida em banquetes e remendando calças com a perícia de um alfaiate de luxo.
O "investimento" de que Manuel falava não se media em taxas de juro ou dividendos. Media-se nas noites em claro que passaram juntos à cabeceira dos filhos doentes, segurando a mão um do outro no escuro, partilhando o medo e a esperança em partes iguais. Media-se nos abraços silenciosos ao fim do dia, que curavam qualquer cansaço, e na cumplicidade que os mantinha unidos quando as crises económicas e os imprevistos da vida batiam à porta.
Manuel estendeu a mão gasta pelo tempo e cobriu a mão de Maria, que ainda repousava sobre a manta de lã. O toque era quente e familiar.
— Quando decidimos partilhar a vida — continuou Manuel, com a voz embargada pela memória —, o mundo dizia-nos que era preciso ter posses para vencer. Mas eu sabia que a minha única riqueza eras tu. Se eu tivesse falhado em tudo o resto, se todos os meus planos tivessem corrido mal, ter-te ao meu lado já faria de mim o homem mais rico deste mundo. Cada sacrifício valeu a pena porque o retorno foi esta paz que temos hoje.
Maria limpou finalmente a lágrima que ameaçava cair, usando a ponta do dedo indicador. Olhou para o marido com uma gratidão que as palavras mal conseguiam expressar. O "ok" que dissera momentos antes carregava o peso de uma vida inteira de aceitação, cumplicidade e amor incondicional.
Eles sabiam que o tempo deles estava no outono, que o futuro era agora medido em pequenos momentos e que as grandes ambições materiais já não faziam sentido. O verdadeiro património daquela casa estava espalhado nas fotografias emolduradas na parede, nos risos dos netos que os visitavam aos domingos e na certeza de que nenhum deles alguma vez esteve sozinho na caminhada.
O sol acabou por se pôr, deixando a sala numa penumbra acolhedora. Manuel levantou-se com alguma dificuldade, as articulações a protestar contra o peso dos anos, e acendeu o candeeiro de pé, inundando o espaço com uma luz suave.
— Vamos fazer o chá? — perguntou ele, quebrando o feitiço do passado com a doce rotina do presente.
— Vamos — respondeu Maria, levantando-se também e ajeitando a manta que tricotava.
Caminharam juntos em direção à cozinha, lado a lado, com os passos lentos e sincronizados de quem já caminhava na mesma direção há uma vida inteira. O maior investimento de ambos estava ali, seguro e intacto, no espaço sagrado que existia entre os dois.
A transição da sala para a cozinha fez-se no mesmo silêncio cúmplice, mas a atmosfera agora estava densa, grávida de fantasmas antigos que a resposta de Manuel invocara. Enquanto a água aquecia na velha chaleira de metal, o olhar de Maria perdeu-se no vapor que começava a subir. O "ok" que dissera na sala não fora apenas uma aceitação carinhosa; fora o fecho de uma cicatriz que ambos carregavam na alma há mais de quarenta anos.
Há investimentos que exigem tudo o que um ser humano possui, até a última gota de sanidade e fé. Para Manuel e Maria, o custo mais alto da sua jornada conjunta desabou sobre eles quando ainda eram jovens, cheios de planos e com o coração a transbordar pelo nascimento do primeiro filho, o pequeno João.
A memória daquela época regressou com a nitidez dolorosa de um filme antigo. João tinha apenas três anos quando a doença entrou pela porta de casa sem pedir licença. Uma febre persistente, que começou numa noite de inverno, transformou-se rapidamente num diagnóstico implacável que a medicina daquela época pouco podia fazer para combater.
Maria lembrou-se do cheiro a éter do hospital público, das luzes brancas e frias dos corredores onde passou semanas sem dormir, sentada numa cadeira de madeira, segurando a mãozinha minúscula do filho. Manuel desdobrava-se entre turnos duplos na fábrica e as visitas noturnas, os olhos encovados pelo cansaço e pelo desespero de ver o seu pequeno mundo desmoronar-se. O dinheiro escasseava; o pouco que tinham guardado para a entrada de uma casa própria evaporou-se em consultas, exames e medicamentos que, no final, se revelaram inúteis.
A noite em que o João partiu foi a mais fria que alguma vez viveram. Quando o médico lhes deu a notícia, o mundo emudeceu. Maria recordava-se de ter sentido o chão sumir sob os seus pés, uma dor física tão violenta que a impediu de gritar. Foi Manuel, com o rosto banhado em lágrimas e as mãos a tremer, que a segurou antes que ela caísse no chão do hospital. Ele abraçou-a com tanta força que parecia tentar colar os pedaços partilhados do coração de ambos.
Os meses que se seguiram foram o verdadeiro teste ao "investimento" de que Manuel falara. Muitas famílias quebram sob o peso do luto de um filho; a culpa silencia os casais, o vazio da casa torna-se insuportável. A mesa de jantar, antes cheia de risos e balbucios, transformara-se num altar de silêncio. Houve dias em que Maria não conseguia sair da cama, paralisada pela ausência das roupas pequenas para lavar e dos brinquedos para arrumar.
No entanto, em vez de se isolarem nas suas próprias dores, eles escolheram partilhá-la. Manuel, mesmo sufocado pela sua própria perda, deitava-se ao lado de Maria todas as noites, puxava-a para o seu peito e deixava que as lágrimas dela lhe molhassem a camisola. Não havia palavras de conforto fáceis, porque nenhuma palavra cura a morte de um filho. Havia apenas a presença. "Estamos juntos nisto", murmurava ele no escuro. "Mesmo no escuro, estamos juntos." Eles reinvestiram as poucas forças que lhes restavam um no outro.
Quase dez anos passaram nesse limbo de reconstrução e aceitação. A vida estabilizou financeiramente, a dor aguda transformou-se numa saudade mansa e o quarto que fora do João permaneceu fechado, como um santuário sagrado. Eles tinham aceitado que o destino deles seria caminhar a dois, apoiando-se mutuamente até ao fim.
Até que o impossível aconteceu.
Maria já tinha celebrado o seu quadragésimo segundo aniversário — uma idade considerada tardia e até perigosa para a maternidade naquela época — quando começou a sentir enjoos matinais e um cansaço invulgar. A suspeita parecia um absurdo, uma partida da mente. Quando o médico da vila confirmou a gravidez, o casal ficou em choque. O medo, aquele velho conhecido, regressou instantaneamente com uma força avassaladora. E se a história se repetisse? E se o coração deles não aguentasse outra perda?
A gravidez foi vivida com um cuidado extremo, quase religioso. Manuel não deixava Maria carregar um único quilo de peso. Substituiu todas as tarefas pesadas da casa e, todas as noites, ajoelhava-se em frente à esposa para massajar os seus pés inchados, conversando baixinho com a barriga dela, pedindo ao universo que aquele milagre corresse bem.
O nascimento de Pedro foi a aurora após uma noite que durara uma década. Quando o choro forte do bebé ecoou na sala de partos, Manuel e Maria choraram abraçados, mas desta vez de puro alívio. Pedro não vinha para substituir João — nenhum filho substitui outro —, mas vinha para curar a casa, para trazer de volta a luz, a desarrumação saudável e a esperança num futuro que eles já julgavam encerrado.
Criar um filho em idade tardia trouxe desafios diferentes. Enquanto os outros pais na escola tinham vinte ou trinta anos, Manuel e Maria já exibiam os primeiros cabelos brancos. Mas compensavam a falta de agilidade física com uma paciência infinita e uma sabedoria que só a dor e o tempo lhes tinham ensinado. Pedro cresceu rodeado por um amor maduro, sabendo que a sua existência era o maior tesouro daquela casa.
De volta à cozinha do presente, a chaleira começou a apitar, interrompendo o fluxo de memórias. Maria piscou os olhos, regressando ao calor do momento atual. O Pedro agora era um homem feito, engenheiro, casado e com os seus próprios filhos.
Manuel aproximou-se por trás, colocou a mão suavemente na cintura de Maria e tirou a chaleira do lume. Ele olhou-a nos olhos e, sem precisar de dizer uma única palavra, ela percebeu que ele também tinha estado a fazer a mesma viagem no tempo. A lágrima que antes estava presa no olho dela tinha agora desaparecido, deixando apenas um olhar de profunda gratidão.
— O Pedro ligou hoje mais cedo — disse Manuel com um sorriso, vertendo a água quente sobre as folhas de chá. — Disse que os miúdos querem vir cá no domingo.
— Que bom — respondeu Maria, pegando nas duas chávenas de porcelana. — Vou fazer aquele bolo de canela que eles tanto gostam.
Sentaram-se à mesa da cozinha, o espaço onde tantas decisões tinham sido tomadas, onde a dor tinha sido chorada e onde a vida tinha recomeçado. Beberam o chá em silêncio, mas já não era o silêncio do luto de outrora; era o silêncio pleno de quem sabia que o maior investimento de uma vida tinha passado pelo fogo mais ardente e, ainda assim, tinha saído dali indestrutível.

domingo, 7 de junho de 2026

O Crepúsculo de Ciro

 O sol de janeiro de 1979 deitava raios dourados e oblíquos sobre os boulevares de Teerão, uma metrópole vibrante que pulsava ao ritmo frenético das grandes capitais europeias. 

Nas esplanadas da Avenida Pahlavi, protegidas pela sombra das árvores frondosas e embaladas pelo som da água fresca que descia das montanhas Alborz, raparigas de saias travadas e óculos de sol grandes discutiam a última literatura francesa. 

O eco das fábricas modernas e o tráfego intenso de automóveis importados desenhavam o perfil de uma potência económica em ascensão vertiginosa. No topo deste império de asfalto, betão e ouro negro sentava-se o Xá Mohammad Reza Pahlavi, o homem que se via como o herdeiro direto de Ciro, o Grande. 

O monarca olhava para o espelho do futuro e via o seu país transformado na quinta maior potência mundial antes do final do século. Ele era um construtor de pontes, um visionário determinado a arrastar a sua antiga nação persa para a crista da modernidade ocidental, mesmo que para isso tivesse de usar a força e sufocar as tradições mais enraizadas do seu povo.

Mas as pontes que o Xá construía com tanto orgulho assentavam sobre alicerces profundamente frágeis e perigosos. Sob o brilho dos espelhos dos palácios imperiais e das festas faustosas que atraíam a realeza europeia, corria um rio subterrâneo de medo e opressão. Nos calabouços escuros da SAVAK, a temida polícia secreta do regime, o silêncio e a submissão eram impostos através da tortura e da vigilância constante.
 Intelectuais, estudantes de esquerda e clérigos conservadores partilhavam as mesmas celas, unidos pelo ódio comum a um soberano que consideravam um fantoche das potências ocidentais. 
Enquanto o norte de Teerão se vestia com as modas de Paris e celebrava a emancipação feminina com o direito ao voto e o acesso massivo às universidades, os bairros empobrecidos do sul da capital e as vastas zonas rurais permaneciam esquecidos no tempo. 
Para essa população tradicional e devota, aquela modernidade exuberante e secular não passava de uma afronta pecaminosa, uma colonização cultural que ameaçava arrancar a alma islâmica do país.
Quando a tempestade da revolução finalmente rebentou, a velocidade do colapso apanhou o mundo de surpresa. O descontentamento que fervilhava nas mesquitas e nos mercados tradicionais encontrou uma voz única, austera e implacável na figura do Ayatollah Ruhollah Khomeini, um clérigo exilado que prometia devolver a dignidade espiritual e a justiça social ao povo iraquiano e persa. 
Em poucos meses, as manifestações de massas paralisaram o país e o exército imperial, outrora temível, dissolveu-se perante a fúria das ruas. Em meados de janeiro de 1979, o Xá Mohammad Reza Pahlavi subiu a bordo do seu avião privado, recolheu um punhado de terra do Irão numa caixa de ouro e partiu para um exílio sem retorno. 
Com a sua partida, uma dinastia milenar desmoronou-se num piscar de olhos, e a promessa de um Irão secular e cosmopolita evaporou-se no ar quente da revolução.
A primavera de liberdade política que muitos jovens de esquerda e liberais esperavam após a queda do monarca transformou-se rapidamente num inverno teocrático rigoroso e absoluto. 
O Ayatollah Khomeini regressou em triunfo e os novos donos do poder não perderam tempo a consolidar uma República Islâmica assente na Sharia. 
As cores vivas e as minissaias que preenchiam as avenidas de Teerão desapareceram, substituídas por uma maré de chadores pretos e lenços obrigatórios que cobriram, por lei, os cabelos e a individualidade das mulheres. 
Os cinemas foram encerrados, a música ocidental foi banida das rádios e os antigos aliados do país passaram a ser rotulados como inimigos satânicos. 
O Irão, que durante décadas fora o pilar da influência ocidental e da sofisticação no Médio Oriente, fechou as suas janelas para o exterior, isolando-se atrás de muros ideológicos intransponíveis e mergulhando numa nostalgia dolorosa do seu próprio passado.
Para compreender a verdadeira dimensão desta rutura histórica e a complexa tapeçaria geopolítica que define aquela região, torna-se necessário fazer um exercício de imaginação literária. 
Se elevarmos o nosso olhar para lá das fronteiras geográficas tradicionais e projetarmos as tensões, as riquezas e as identidades do Médio Oriente sobre o mapa do continente europeu, descobriremos um cenário fascinante e revelador. 
Neste exercício de cartografia invertida, o Irão não é um deserto plano nem uma nação árabe; ele assume o papel de uma orgulhosa, industrializada e culturalmente refinada França ou Alemanha. 
Trata-se de uma nação com uma língua própria, uma herança imperial clássica que não se mistura com a dos seus vizinhos e um orgulho intelectual quase aristocrático. 
A Revolução Islâmica de 1979 equivaleu, nesta metáfora, a ver a França — o farol da moda, da filosofia e da indústria europeia — transformar-se subitamente num estado ultra-clerical fechado, governado por monges radicais que decidiram quebrar todos os tratados económicos e diplomáticos com o resto do continente.
Imediatamente ao lado desta "França Teocrática", a Península Arábica ergue-se com a imponência e o peso histórico de uma Itália Imperial ou de uma Espanha absolutista. Ali, naquelas terras áridas e ricas, Riade funciona como uma Roma dos tempos modernos, a guardiã indiscutível da fé institucionalizada. 
É no seu território que se encontra o Vaticano desta geografia espiritual — as cidades sagradas que atraem milhões de peregrinos todos os anos. Esta "Itália" não possui a sofisticação industrial de Paris, mas detém uma arma muito mais poderosa: os tesouros financeiros infinitos gerados pelas maiores reservas de energia do subsolo. 
Com esta riqueza incomparável, os monarcas de Riade compram armas, financiam impérios de comunicação e exportam a sua visão conservadora do mundo para todos os cantos do continente, competindo diretamente com a influência da "França" vizinha numa guerra fria que divide o mapa em duas esferas de influência religiosa e política.
Mais a sul, onde o mapa se estende em direção às terras mais antigas da história humana, o Egito respira com a dignidade melancólica e o peso cultural de uma Grécia Antiga. O país desenvolve-se ao longo de um imenso rio Reno que rasga a terra árida e garante a sobrevivência de uma população densa e vibrante. 
O Egito pode não ter os cofres cheios de ouro negro como a península vizinha, nem as indústrias pesadas do norte, mas possui a alma cultural da região. Foi ali que nasceram as primeiras grandes dinastias, os primeiros filósofos e os poetas cujas palavras ainda hoje moldam o pensamento de todos os povos que partilham a mesma matriz linguística latina. 
Os seus estúdios de cinema, as suas universidades seculares e a sua literatura são o farol cultural que todos os outros reinos consomem, tornando esta "Grécia" o coração intelectual do continente.
No centro geométrico deste tabuleiro de xadrez, onde a "França Persa", a "Itália Árabe" e a "Grécia Cultural" se encontram, a Síria e o Iraque sangram como os Balcãs numa eterna encruzilhada de impérios desfeitos. 
Estas terras, abençoadas por rios históricos e vales férteis, foram outrora o lar de cidades cosmopolitas que rivalizavam com qualquer capital europeia em tolerância e avanço científico. No entanto, a história foi madrasta para esta região central. 
Fragmentadas por linhas invisíveis de fés desavindas e rivalidades étnicas que remontam a séculos atrás, estas nações tornaram-se o campo de batalha ideal para as potências vizinhas. Sempre que a "França" e a "Itália" decidem medir forças, são os campos e as cidades destes "Balcãs" que sofrem com as guerras por procuração, transformando um património arqueológico inestimável em ruínas e memórias de um tempo de convivência pacífica que parece não voltar.