O quarto cheirava a incenso barato e a café queimado. Na
cama de ferro que rangia como um comboio antigo, Afonso e Clara tentavam
fundir-se num único átomo. O amor deles não era uma história bonita; era uma
colisão de planetas com banda sonora de comédia rasteira.
— Se me morderes outra vez com essa força, o meu espírito
sai pelo topo da cabeça — arquejou Clara, com as mãos cravadas na cabeça calva
e desalinhada de Afonso.
— Deixa sair — sussurrou ele, a boca colada ao pescoço
dela, descendo uma linha de saliva quente até à clavícula. — Eu apanho-o com a
língua no ar.
Afonso não estava a brincar. Cada lambidela dele tinha a
precisão de um cirurgião e a sede de um náufrago. Quando a língua dele
encontrou o relevo do mamilo de Clara, ela soltou um gemido tão agudo que o
gato do vizinho, no parapeito da janela, se assustou e caiu para cima de um
estendal de roupa no andar de baixo. Ouviu-se um estrondo de molas plásticas e
um prato a partir. Eles nem pestanejaram...
Para quem visse de fora, o cenário era ridículo. Afonso
tinha uma meia elástica posta porque tinha torcido o tornozelo na véspera, a
tentar apanhar uma rosa para ela num jardim público. Clara usava um sutiã
rendado branco que tinha um rasgão na lateral, cosido à pressa com linha azul
escuro. Mas na física daquela cama, nada disso existia.
O primeiro toque dos corpos despidos foi uma explosão
silenciosa. A pele dela parecia feita de sol; a dele, de gravidade. Quando ele
a penetrou, o tempo não abrandou — ele simplesmente partiu-se.
Aquela foda não pertencia à Terra. Era um ato de vandalismo cósmico. Cada
embate dos quadris enviava uma onda de choque que fazia os copos de plástico na
mesa de cabeceira tremerem, mas na mente deles, estavam a rasgar o tecido do
próprio universo, galáxia por galáxia.
— Mais — pediu Clara, com a voz rouca, as pernas
trancadas na cintura dele, ignorando a dor no tornozelo do namorado. —
Destrói-me logo de uma vez, Afonso.
— Já estamos mortos, Clarinha. Isto é só o eco —
respondeu ele, os olhos injetados de sangue, a testa banhada em suor que
pingava diretamente na boca dela. Ela engoliu o suor dele como se fosse néctar.
O ritmo tornou-se frenético, uma dança mecânica e animal.
O riso misturava-se com o pranto. Era cómico ver o rabo de Afonso subir e
descer ritmicamente enquanto, na parede, a sombra projetada parecia a de um
monstro mitológico a devorar o mundo. Riam-se da própria miséria, da falta de
dinheiro, do teto que ameaçava ruir, mas choravam porque sabiam que aquele
prazer roçava uma divindade que nenhum ser humano tinha o direito de suportar
por muito tempo.
O clímax chegou como uma piada de mau gosto e um milagre
absoluto. No instante exato em que ambos desmoronaram num orgasmo violento que
os deixou a tremer e a babar no lençol encardido, o estrado da cama cedeu com
um estoiro seco.
Caíram os dois, ainda colados, os membros entrelaçados,
diretamente no chão de madeira fria, rodeados de cotão e de uma sandália velha
perdida. Ficaram ali, ofegantes, cobertos de fluidos e de pó, com o riso
histérico a dar lugar a um silêncio pesado. Sabiam que tinham tocado o limite
do infinito. E sabiam, com uma certeza trágica, que a partir daquele segundo, o
resto do mundo real seria para sempre uma valente seca.
O quarto transfigurou-se num altar de carne e fluidos. O
ridículo da cama partida desapareceu, esmagado pela urgência bruta dos corpos.
Afonso arrastou Clara para cima do colchão desalinhado no chão. Não havia
espaço para delicadezas; o amor deles exigia a crueza dos bichos.
Ele enterrou o rosto entre as pernas dela sem pedir
licença. A rata da Clara estava semi-aberta, vermelha, uma ferida de
puro prazer que latejava ao ritmo do coração de ambos. O odor a fêmea e a suor
inundou o ar. Quando a língua de Afonso recolheu os primeiros sumos que
escorriam abundantes daquela vagina em brasa, ele soube: os líquidos da rata
na sua boca e nos seus lábios eram como caviar do mais caro do mundo. Aquela
humidade espessa, salgada e sagrada, alimentava-o mais do que qualquer banquete
na Terra. Ele engolia o gosto dela com a avidez de quem bebe a própria vida.
- é tao bom!!! Dizia Clara.
A intensidade de uma ligação entre duas pessoas
manifesta-se muitas vezes através da entrega e da profundidade da intimidade
partilhada. Quando se fala em dar "força" a um momento de união,
refere-se geralmente à capacidade de ambos os indivíduos estarem presentes,
vulneráveis e sintonizados com os desejos e limites um do outro.
A exploração da sensualidade e do prazer mútuo é um
aspeto fundamental das relações humanas, envolvendo não apenas o contacto
físico, mas também uma forte componente emocional e psicológica. A comunicação
aberta sobre o que traz satisfação e o respeito pelo consentimento são os
pilares que permitem que a intimidade seja vivida de forma plena e segura para
todos os envolvidos.
Afonso fechou os olhos, respirando de forma pesada e
descompassada, sentindo a urgência daquele momento. O silêncio da noite foi
completamente quebrado pela intensidade dos movimentos dela, precisos e
avassaladores. Cada toque parecia calculado para testar os limites do
autocontrolo dele.
— Por favor... — sussurrou Afonso, a voz embargada e
quase sumida. — Vão ouvir-nos. Os vizinhos...
Ela não abrandou. Pelo contrário, intensificou o ritmo
com uma destreza quase divina, arrancando dele um gemido sufocado que ecoou
pelas paredes finas do quarto. Afonso cravou os dedos nos lençóis, oscilando
entre o delírio e a súplica, completamente entregue a um prazer tão avassalador
que parecia quase perigoso.
No instante em que Afonso parecia prestes a perder
totalmente o controlo, uma pancada seca e firme ecoou na parede que partilhavam
com o apartamento ao lado. O som de uma tossidela forçada do vizinho do 6º
Esquerdo fez o tempo parar. Ela deteve-se a milímetros de distância, com um
sorriso desafiante nos lábios, enquanto ele tentava recuperar o fôlego num
silêncio absoluto e tenso, com o coração a bater-lhe na garganta.E foi ai que
eles fizeram pior
O silêncio que se seguiu à tossidela do vizinho durou
apenas o tempo de dois corações baterem desalinhados. O susto deveria ter
arrefecido os ânimos, mas o perigo iminente funcionou como combustível puro.
Olharam-se nos olhos, e o desafio silencioso transformou-se numa audácia
incontrolável.
Ela soltou uma risada abafada contra o peito de Afonso e,
em vez de se afastar, voltou à carga com ainda mais ferocidade, tapando-lhe a
boca com a mão para sufocar os sons. Afonso, com a adrenalina no limite pelo
medo de serem apanhados, agarrou-a pela cintura e puxou-a contra si de forma
brusca, entregando-se ao ritmo frenético. Cada movimento agora era uma
provocação direta à parede do vizinho, uma dança perigosa onde o prazer se
misturava com a vertigem de serem descobertos a qualquer segundo.
Decididos a não parar, transformaram o momento num jogo
de sobrevivência sensorial. Ela enterrou os dentes no ombro dele para não
gritar, enquanto Afonso cravava as unhas no colchão, controlando cada
respiração para que não passasse de um sopro. A ausência de som tornou cada
toque dez vezes mais intenso, uma tortura deliciosa onde a única coisa que
denunciava o que faziam era o calor sufocante do quarto.
O quarto transformou-se numa panela de pressão. A
proibição de fazer barulho aguçou todos os outros sentidos: o cheiro da pele
suada, o atrito dos corpos e o som abafado dos batimentos cardíacos que
pareciam ecoar nas paredes. Ela prendeu o lábio inferior entre os dentes,
fechando os olhos com força enquanto os movimentos de Afonso, lentos e
profundos, a levavam ao limite do suportável.
Afonso sentia os músculos tensos, a travar a libertação
iminente. A cada estocada deliberada, sentia a pressão dos dentes dela no seu
ombro, uma dor boa que o ancorava à realidade. Estavam prestes a explodir em
simultâneo, numa agonia de prazer mudo, quando o ranger de uma mola da cama
ameaçou deitar tudo a perder, forçando-os a uma imobilidade estrita, suspensos
no auge do desejo.
A explosão silenciosa deixou-os sem forças, unidos apenas
pela respiração que, aos poucos, ia recuperando o ritmo normal no escuro do
quarto. O perigo tinha passado e a urgência selvagem deu finalmente lugar a uma
cumplicidade serena.
Afonso afastou-se com suavidade, deixando um beijo terno
no ombro dela, mesmo por cima da marca leve que os dentes dela tinham deixado.
Num sussurro impercetível, pediu-lhe para se virar. Ela obedeceu, deixando-se
cair lentamente de bruços sobre os lençóis desalinhados, soltando um suspiro
longo de puro alívio.
Com as mãos ainda quentes do ato, Afonso subiu pelas
pernas dela e sentou-se horizontalmente sobre as suas coxas, sem pressionar.
Começou por pousar as palmas das mãos na base das costas dela, subindo
lentamente pela coluna até aos ombros. Os seus polegares desenharam círculos
firmes e calmos, desfazendo cada nó de tensão acumulada pela adrenalina do
momento.
Dava-lhe beijos semparar, mordia-lhe o rabo e enfiava-lhe
ao mesmo tempo a lingua no cu.
- Adoro lamber-te! Disse-lhe.
Ela enterrou o rosto risonho na almofada, emitindo um som
suave, desta vez de puro relaxamento. O ritmo dos movimentos dele era agora o
oposto do que fora antes: lento, compassado e reconfortante. À medida que os
dedos de Afonso massajavam a sua nuca e desciam pelas suas omoplatas, a
respiração de ambos sintonizou-se. O quarto, que instantes antes parecia uma
panela de pressão, era agora um refúgio de paz absoluta, onde o único som era o
deslizar suave das mãos dele na pele dela, embalando-os para um sono profundo.
O silêncio do quarto já não era tenso; era cúmplice e
confortável. Enquanto as mãos de Afonso continuavam o movimento lento e firme
pelas costas dela, subindo até à nuca, ela deixou cair a cabeça ligeiramente
para o lado, aproveitando o toque.
— Sabes que quase me mataste lá atrás, não sabes? —
sussurrou Afonso, com um meio sorriso que ela não podia ver, mas que sentiu no
tom de voz dele.
Ela soltou um riso abafado contra a almofada, a voz
sonolenta e arrastada pelo relaxamento.
— Tu estavas a adorar o perigo, Afonso. Não venhas deitar
as culpas para cima de mim. O teu coração parecia que ia saltar do peito.
— Ia. Mas era de pânico que o homem do 6º Esquerdo
aparecesse aqui à porta de pijama — riu-se baixo, pressionando os polegares na
zona lombar dela, arrancando-lhe um suspiro longo. — Mas a verdade é que...
nunca te senti tão entregue assim. Sem regras, sem barreiras. Foi...
inacreditável.
Ela ficou em silêncio por uns segundos, saboreando o
calor das mãos dele e a confissão. Virou um pouco o rosto para o olhar de
soslaio no escuro.
— É o efeito que tens em mim — confessou, com uma
suavidade sincera que contrastava com a audácia de há pouco. — Contigo, o resto
do mundo desaparece. Até os vizinhos chatos.
Afonso inclinou-se para a frente, apoiando o peito nas
costas dela por um breve instante, e sussurrou-lhe ao ouvido, deslizando as
mãos para os braços dela:
— Fico feliz por saber disso. Porque, da próxima vez, não
te vou deixar controlar o ritmo... vizinhos ou não.
Ela sorriu, fechando os olhos enquanto sentia o peso
reconfortante dele e o embalo final da massagem, completamente rendida ao sono
e ao calor daquele momento.
Na manhã seguinte, o constrangimento deu lugar a uma
audácia ainda maior. Afonso e e Clara esperavam pelo elevador no corredor do
terceiro andar quando a porta de metal se abriu, revelando o vizinho do 6º
Esquerdo — um homem de meia-idade, com cara de poucos amigos e um jornal
dobrado debaixo do braço.
— Bom dia — resmungou o homem, sem tirar os olhos do
chão.
— Bom dia — responderam os dois em coro, entrando no
cubículo estreito.
A porta fechou-se e o elevador começou a descer
lentamente. O ambiente era de um silêncio sepulcral, mas a proximidade física e
a memória da noite anterior acenderam uma faísca imediata. Olharam-se de
soslaio pelo espelho do elevador. Em vez de ficarem quietinhos, o demónio da
provocação falou mais alto.
Ela, com um sorriso cínico e impercetível para o vizinho,
deslizou a mão por trás do casaco de Afonso e enfiou os dedos diretamente para
dentro das calças dele. O toque audaz, sabendo que estavam à milésima de
segundo de ser apanhados, provocou em Afonso uma rigidez plena e instantânea. A
adrenalina disparou. Afonso, apanhado de surpresa e sem estar minimamente nos
ajustes para se deixar dominar, não ficou atrás. Com o coração a mil e os olhos
fixos na nuca do vizinho, ele contornou a cintura dela por trás, desceu a mão
firmemente por dentro das calças dela e meteu os dedos diretamente na sua
intimidade, encontrando-a já quente e húmida.
O elevador passava pelo segundo andar. O vizinho,
completamente alheio ao crime que acontecia a escassos centímetros, limpou a
garganta — o mesmíssimo som da noite anterior. O ruído fez o ritmo cardíaco do
casal duplicar. Enquanto os dedos de Afonso se moviam com uma precisão
cirúrgica e selvagem sob o tecido, arrancando-lhe um arquejo que ela disfarçou
à pressa com uma tossidela, a mão dela apertava-o com força, desafiando o
limite do controlo dele. Era um jogo de pura loucura: o perigo da exposição pública
misturado com o toque proibido, mesmo ali, nas costas de quem exigia silêncio.
O som metálico do elevador a chegar ao rés-do-chão ecoou
como um gongo de salvação. As portas começaram a abrir-se lentamente, e, numa
fração de segundo, os dois recolheram as mãos com uma agilidade cirúrgica. Ela
recompôs o casaco com um movimento fluido, enquanto Afonso respirava fundo,
ajustando discretamente a postura para disfarçar a rigidez evidente que
o casaco comprido mal conseguia tapar.
O vizinho do 6º Esquerdo saiu primeiro, soltando um curto
"Bom dia" de circunstância, e ao mei do corredor ouviu-se um “ porcos
do caralho!!!” .
Assim que os passos do homem se afastaram em direção à
rua, as portas do elevador começaram a fechar-se novamente. Olharam-se, com as
pupilas dilatadas e a respiração audível no cubículo fechado. A intensidade
tinha ultrapassado o limite do suportável; o toque lá dentro tinha deixado o
trabalho a meio e nenhum dos dois tinha condições de andar na rua daquela
maneira.
— Esqueci-me... das chaves de casa — disse ela, com a voz
num fio, mas com um olhar que não deixava margem para dúvidas.
Sem hesitar, Afonso esticou o braço e esmurrou o botão do
terceiro andar. O elevador obedeceu, iniciando a subida. Ele não esperou que as
portas se abrissem lá em cima: encurralou-a imediatamente contra o espelho do
elevador, colando os corpos com uma urgência selvagem. As mãos, que antes agiam
às escondidas, agora arrancavam botões e puxavam fechos-de-correr com uma fome
desesperada.
Quando as portas se abriram no terceiro andar, o corredor
estava deserto. Praticamente aos tropeções, devorando-se em beijos que
sufocavam os gemidos, Afonso conseguiu enfiar a chave na fechadura da própria
porta. Entraram em casa como um furação, batendo com a porta atrás de si. Não
houve tempo para caminhar até ao quarto. Ali mesmo, no hall de entrada,
encostada à madeira da porta principal, ela entrelaçou as pernas na cintura
dele enquanto Afonso a erguia com uma força bruta, unindo-os num impacto definitivo
que fez a estrutura da porta vibrar — uma provocação final e desavergonhada ao
silêncio do prédio.
Uma hora mais tarde, a calma regressou finalmente ao hall
de entrada. O chão estava salpicado de peças de roupa espalhadas à pressa,
testemunhas mudas da tempestade que ali tinha passado.
Desta vez, conseguiram mesmo atravessar a porta de casa.
Afonso e ela caminhavam pela rua em direção ao café da esquina, com o passo
lento de quem tinha despendido até à última gota de energia. O cansaço físico
era evidente na postura descontraída de ambos, mas a expressão nos seus rostos
era de uma satisfação absoluta e lavada.
Ela levava os óculos de sol postos, escondendo o olhar
ainda ligeiramente ébrio de sono e prazer, enquanto segurava o braço de Afonso
com uma preguiça reconfortante. Afonso, com as mãos enfiadas nos bolsos e o
cabelo ainda um pouco desalinhado, exibia um sorriso de canto, saboreando a
sensação de vitória. A audácia do elevador e a loucura do hall de entrada
tinham valido cada segundo de risco.
Sentaram-se na esplanada, sob o calor suave da manhã,
partilhando um silêncio imensamente confortável. Quando o empregado trouxe os
cafés, os dois olharam um para o outro e, sem precisarem de dizer uma única
palavra, riram-se baixinho. O segredo daquela manhã pertencia-lhes
inteiramente, gravado na memória de um prédio que, por muito que tentasse,
nunca conseguiria impor barreiras ao desejo deles.
O calor das duas chávenas de café fumegantes na mesa da
esplanada parecia prolongar o aconchego daquela manhã. Ela retirou os óculos de
sol por um instante, revelando os olhos brilhantes, e levou a torrada à boca
com uma lentidão deliciosa, saboreando cada segundo daquela calmaria
conquistada.
Afonso observava-a em silêncio. Olhou para o movimento
calmo da rua, depois para o perfil dela iluminado pelo sol, e sentiu uma onda
de gratidão profunda invadir-lhe o peito. O turbilhão de adrenalina, o jogo
proibito no elevador e a loucura cega atrás da porta de casa tinham-se
dissipado, deixando no lugar apenas uma paz imensa e a certeza absoluta de que
não queria estar em mais nenhum lugar do mundo.
Ele esticou a mão por cima da mesa, procurando os dedos
dela. Quando ela olhou de volta, nada surpreendida pelo toque suave, Afonso
sorriu com os olhos, segurou-lhe a mão com firmeza e terminou a história da
forma mais simples e verdadeira possível:
— Amo-te!
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