O sol de janeiro de 1979 deitava raios dourados e oblíquos sobre os boulevares de Teerão, uma metrópole vibrante que pulsava ao ritmo frenético das grandes capitais europeias.
Nas esplanadas da Avenida Pahlavi, protegidas pela sombra das árvores frondosas e embaladas pelo som da água fresca que descia das montanhas Alborz, raparigas de saias travadas e óculos de sol grandes discutiam a última literatura francesa.
O eco das fábricas modernas e o tráfego intenso de automóveis importados desenhavam o perfil de uma potência económica em ascensão vertiginosa. No topo deste império de asfalto, betão e ouro negro sentava-se o Xá Mohammad Reza Pahlavi, o homem que se via como o herdeiro direto de Ciro, o Grande.
O monarca olhava para o espelho do futuro e via o seu país transformado na quinta maior potência mundial antes do final do século. Ele era um construtor de pontes, um visionário determinado a arrastar a sua antiga nação persa para a crista da modernidade ocidental, mesmo que para isso tivesse de usar a força e sufocar as tradições mais enraizadas do seu povo.
Mas as pontes que o Xá construía com tanto orgulho assentavam sobre alicerces profundamente frágeis e perigosos. Sob o brilho dos espelhos dos palácios imperiais e das festas faustosas que atraíam a realeza europeia, corria um rio subterrâneo de medo e opressão. Nos calabouços escuros da SAVAK, a temida polícia secreta do regime, o silêncio e a submissão eram impostos através da tortura e da vigilância constante.
Intelectuais, estudantes de esquerda e clérigos conservadores partilhavam as mesmas celas, unidos pelo ódio comum a um soberano que consideravam um fantoche das potências ocidentais.
Enquanto o norte de Teerão se vestia com as modas de Paris e celebrava a emancipação feminina com o direito ao voto e o acesso massivo às universidades, os bairros empobrecidos do sul da capital e as vastas zonas rurais permaneciam esquecidos no tempo.
Para essa população tradicional e devota, aquela modernidade exuberante e secular não passava de uma afronta pecaminosa, uma colonização cultural que ameaçava arrancar a alma islâmica do país.
Quando a tempestade da revolução finalmente rebentou, a velocidade do colapso apanhou o mundo de surpresa. O descontentamento que fervilhava nas mesquitas e nos mercados tradicionais encontrou uma voz única, austera e implacável na figura do Ayatollah Ruhollah Khomeini, um clérigo exilado que prometia devolver a dignidade espiritual e a justiça social ao povo iraquiano e persa.
Em poucos meses, as manifestações de massas paralisaram o país e o exército imperial, outrora temível, dissolveu-se perante a fúria das ruas. Em meados de janeiro de 1979, o Xá Mohammad Reza Pahlavi subiu a bordo do seu avião privado, recolheu um punhado de terra do Irão numa caixa de ouro e partiu para um exílio sem retorno.
Com a sua partida, uma dinastia milenar desmoronou-se num piscar de olhos, e a promessa de um Irão secular e cosmopolita evaporou-se no ar quente da revolução.
A primavera de liberdade política que muitos jovens de esquerda e liberais esperavam após a queda do monarca transformou-se rapidamente num inverno teocrático rigoroso e absoluto.
O Ayatollah Khomeini regressou em triunfo e os novos donos do poder não perderam tempo a consolidar uma República Islâmica assente na Sharia.
As cores vivas e as minissaias que preenchiam as avenidas de Teerão desapareceram, substituídas por uma maré de chadores pretos e lenços obrigatórios que cobriram, por lei, os cabelos e a individualidade das mulheres.
Os cinemas foram encerrados, a música ocidental foi banida das rádios e os antigos aliados do país passaram a ser rotulados como inimigos satânicos.
O Irão, que durante décadas fora o pilar da influência ocidental e da sofisticação no Médio Oriente, fechou as suas janelas para o exterior, isolando-se atrás de muros ideológicos intransponíveis e mergulhando numa nostalgia dolorosa do seu próprio passado.
Para compreender a verdadeira dimensão desta rutura histórica e a complexa tapeçaria geopolítica que define aquela região, torna-se necessário fazer um exercício de imaginação literária.
Se elevarmos o nosso olhar para lá das fronteiras geográficas tradicionais e projetarmos as tensões, as riquezas e as identidades do Médio Oriente sobre o mapa do continente europeu, descobriremos um cenário fascinante e revelador.
Neste exercício de cartografia invertida, o Irão não é um deserto plano nem uma nação árabe; ele assume o papel de uma orgulhosa, industrializada e culturalmente refinada França ou Alemanha.
Trata-se de uma nação com uma língua própria, uma herança imperial clássica que não se mistura com a dos seus vizinhos e um orgulho intelectual quase aristocrático.
A Revolução Islâmica de 1979 equivaleu, nesta metáfora, a ver a França — o farol da moda, da filosofia e da indústria europeia — transformar-se subitamente num estado ultra-clerical fechado, governado por monges radicais que decidiram quebrar todos os tratados económicos e diplomáticos com o resto do continente.
Imediatamente ao lado desta "França Teocrática", a Península Arábica ergue-se com a imponência e o peso histórico de uma Itália Imperial ou de uma Espanha absolutista. Ali, naquelas terras áridas e ricas, Riade funciona como uma Roma dos tempos modernos, a guardiã indiscutível da fé institucionalizada.
É no seu território que se encontra o Vaticano desta geografia espiritual — as cidades sagradas que atraem milhões de peregrinos todos os anos. Esta "Itália" não possui a sofisticação industrial de Paris, mas detém uma arma muito mais poderosa: os tesouros financeiros infinitos gerados pelas maiores reservas de energia do subsolo.
Com esta riqueza incomparável, os monarcas de Riade compram armas, financiam impérios de comunicação e exportam a sua visão conservadora do mundo para todos os cantos do continente, competindo diretamente com a influência da "França" vizinha numa guerra fria que divide o mapa em duas esferas de influência religiosa e política.
Mais a sul, onde o mapa se estende em direção às terras mais antigas da história humana, o Egito respira com a dignidade melancólica e o peso cultural de uma Grécia Antiga. O país desenvolve-se ao longo de um imenso rio Reno que rasga a terra árida e garante a sobrevivência de uma população densa e vibrante.
O Egito pode não ter os cofres cheios de ouro negro como a península vizinha, nem as indústrias pesadas do norte, mas possui a alma cultural da região. Foi ali que nasceram as primeiras grandes dinastias, os primeiros filósofos e os poetas cujas palavras ainda hoje moldam o pensamento de todos os povos que partilham a mesma matriz linguística latina.
Os seus estúdios de cinema, as suas universidades seculares e a sua literatura são o farol cultural que todos os outros reinos consomem, tornando esta "Grécia" o coração intelectual do continente.
No centro geométrico deste tabuleiro de xadrez, onde a "França Persa", a "Itália Árabe" e a "Grécia Cultural" se encontram, a Síria e o Iraque sangram como os Balcãs numa eterna encruzilhada de impérios desfeitos.
Estas terras, abençoadas por rios históricos e vales férteis, foram outrora o lar de cidades cosmopolitas que rivalizavam com qualquer capital europeia em tolerância e avanço científico. No entanto, a história foi madrasta para esta região central.
Fragmentadas por linhas invisíveis de fés desavindas e rivalidades étnicas que remontam a séculos atrás, estas nações tornaram-se o campo de batalha ideal para as potências vizinhas. Sempre que a "França" e a "Itália" decidem medir forças, são os campos e as cidades destes "Balcãs" que sofrem com as guerras por procuração, transformando um património arqueológico inestimável em ruínas e memórias de um tempo de convivência pacífica que parece não voltar.
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