O amor de Rui e Margarida não era um lago calmo; era um reator nuclear em permanente estado de fusão. Eles eram, sob qualquer perspetiva cosmológica ou biológica, os dois seres humanos mais compatíveis à face da Terra.
A amizade que os unia continha uma cumplicidade tão absoluta que dispensava palavras: pensavam em uníssono, partilhavam os mesmos ódios viscerais e terminavam as frases um do outro com a precisão de dois relógios suíços. Quando se tocavam, o mundo exterior deixava de existir.
O sexo entre eles era uma experiência transcendental, uma força da natureza que desmanchava estrados de camas, acordava vizinhos num raio de três quarteirões e deixava o apartamento a cheirar a suor, eletricidade e absoluto triunfo. Havia ali um amor vasto e inabalável, mas que trazia um terrível defeito de fabrico: era movido a alta voltagem e uma total ausência de controlo de impulsos.
A vida quotidiana do casal assemelhava-se a um filme de ação coreografado por psicopatas apaixonados. A violência e a paixão caminhavam de mãos dadas, fundindo-se numa rotina onde não existia meio-termo.
Uma discussão perfeitamente banal sobre quem se esquecera de comprar o leite escalava, em escassos segundos, para um arremesso coreografado de pratos de porcelana chinesa. Rui exibia com orgulho uma cicatriz na canela, cortesia de uma cadeira de balanço que Margarida lhe lançara no outono passado; Margarida trazia no antebraço a marca de uma queimadura sofrida quando Rui, numa tentativa desastrada de cozinhar um jantar romântico, incendiara as cortinas da sala.
No entanto, o sangue e os gritos eram apenas o prelúdio. Todas as batalhas terminavam invariavelmente da mesma forma: os dois nus no chão da cozinha, entre cacos de vidro e juras sussurradas de amor eterno, curando as feridas com a urgência dos corpos.
A tragédia abateu-se sobre eles numa modorra de terça-feira. O pretexto foi ridículo — o destino das próximas férias —, mas a intensidade foi nuclear. No auge do diferendo, Margarida agarrou num cinzeiro de mármore maciço e arremessou-o com a força de um lançador de disco. Rui, dotado de reflexos de ninja lapidados por anos daquela convivência, baixou-se a tempo.
O cinzeiro voou pela janela aberta do quarto andar e desceu em direção à rua. O azar quis que, naquele exato segundo, passasse o carro de um inspetor de saúde pública. O projétil estilhaçou o para-brisas do veículo, fazendo com que o condutor se despistasse violentamente contra um poste de eletricidade. O impacto derrubou o poste, que tombou pesadamente sobre o transformador de alta tensão que abastecia o bairro.
O caos instalou-se com uma rapidez cómica. O transformador explodiu, mergulhando toda a zona numa escuridão instantânea, enquanto um curto-circuito violento iniciava um incêndio nas fiações do prédio de Rui e Margarida.
Sob o fumo negro que começava a invadir o apartamento, Rui agiu por instinto: pegou em Margarida ao colo, enquanto ela, sem largar a compostura, agarrava o gato pelo pescoço com uma mão e a garrafa de vinho mais cara da casa com a outra. Na pressa de descer as escadas de emergência, Rui ocorreu tropeçar nas patas do felino em pânico.
O casal rolou, abraçado e aos gritos, por doze degraus de betão armado, culminando numa pilha de membros fraturados no patamar inferior.
Duas horas mais tarde, o cenário no hospital municipal roçava o absurdo. Rui e Margarida encontravam-se sentados na mesma maca da urgência, algemados um ao outro pela polícia, que presumira tratar-se de um caso grave de violência doméstica mútua.
Rui tinha o nariz partido e sangrava abundantemente para cima da bata hospitalar, enquanto Margarida exibia o braço esquerdo imobilizado num gesso que ia até ao ombro. Olharam-se fixamente por entre os hematomas. Rui limpou o sangue do lábio e murmurou que ela tinha o nariz torto.
Margarida, esboçando um sorriso fraco mas vitorioso, respondeu que ele estava sem teto, mas que o sexo daquela manhã desculpava qualquer ruína. Desataram a rir à gargalhada, uma gargalhada histérica e cúmplice que ecoou pelos corredores frios do hospital. Ao assinar a folha de observação, o médico de serviço recomendou o internamento psiquiátrico urgente de ambos no Hospital das Brancas. Ele não compreendia que não valia a pena; eles eram loucos, sim, mas a sua única e incurável demência era o amor que tinham um pelo outro.
A ala psiquiátrica do Hospital das Brancas nunca mais seria a mesma após a entrada deles. Para o corpo clínico, tratava-se de dois casos severos de psicose partilhada com tendências autodestrutivas.
Para o casal, a ala de isolamento era apenas um hotel de poucas estrelas com um serviço de quartos deplorável. Como as regras proibiam que ficassem no mesmo quarto devido ao histórico de volatilidade mútua, os dois transformaram o confinamento num jogo de espionagem de alta intensidade.
O primeiro momento absurdo ocorreu na segunda noite. Rui, fingindo uma crise de sonambulismo, conseguiu subornar um enfermeiro estagiário com um relógio imaginário que prometeu entregar assim que saísse em liberdade. Segundos depois, Rui arrombava a porta do quarto de Margarida usando a fivela de um cinto que tinha contrabandeado nas cuecas.
O reencontro não foi marcado por lágrimas, mas sim pelo melhor e mais arriscado sexo da vida deles, consumado em cima de uma mesa de exames de inox, enquanto duas câmaras de segurança transmitiam tudo em direto para a sala de vigia. O segurança de turno, paralisado pelo choque e por uma estranha admiração pela ginástica do casal, demorou dez minutos a carregar no alarme.
Quando os enfermeiros finalmente arrombaram a porta para os separar, a dinâmica habitual de violência e paixão regressou em força. Margarida, furiosa pela interrupção, arrancou o suporte de um soro e usou-o como lança, atingindo um dos funcionários na nádega. Rui, tentando defendê-la, desferiu um soco num armário de medicamentos, partindo o nó dos dedos, mas conseguindo roubar um frasco de sedativos fortes.
Foram arrastados de volta para as suas celas acolchoadas, cobertos de hematomas, sedados até aos dentes, mas a sorrir com a cumplicidade de quem tinha acabado de conquistar o mundo.
Foi precisamente durante as sessões de terapia de grupo que o verdadeiro plano de vingança começou a ganhar forma. Sentados num círculo de cadeiras de plástico, rodeados por doentes que discutiam traumas de infância, Rui e Margarida usavam uma linguagem de sinais inventada na adolescência para delinear a próxima jogada.
O foco deles mudara. A seguradora "Imperium Seguro" tinha enviado uma carta formal ao hospital recusando pagar um único cêntimo pelo incêndio do antigo apartamento deles, alegando negligência criminosa. Aquela afronta ao património do casal exigia uma resposta à altura. Não queriam apenas o dinheiro; queriam uma retaliação bíblica.
O plano de vingança armada contra a seguradora foi riscado com um pedaço de carvão contrabandeado das aulas de arteterapia, desenhado diretamente nas costas da bata de isolamento de Rui. Margarida liderava a estratégia. O plano dividia-se em três fases cirúrgicas. A primeira fase, batizada de "A Fuga dos Loucos", envolvia usar o frasco de sedativos roubado para batizar o café da manhã dos guardas da ala.
A segunda fase exigia armamento. Rui lembrava-se perfeitamente de que o seu tio Afonso, um caçador reformado com demência ligeira, guardava duas caçadeiras de canos cerrados e um revólver Colt .45 no sótão de uma quinta na periferia.
A terceira fase seria o clímax no edifício sede da Imperium Seguro. O plano não era discreto. Margarida insistia que deviam entrar na receção vestidos com os próprios pijamas do Hospital das Brancas, para manter a narrativa de insanidade caso o plano corresse mal.
Rui seria o músculo, disparando para os tetos falsos para fazer chover gesso sobre os executivos, enquanto Margarida subia à sala do presidente com o revólver encostado ao queixo do primeiro gerente que encontrasse.
A exigência era simples: uma mala com duzentos mil euros em notas não marcadas e um pedido de desculpas assinado com o sangue do diretor financeiro.
Nas vésperas da execução da fuga, durante o tempo de recreio no pátio interior, os dois caminhavam de braço dado, ignorando os olhares tensos dos guardas que agora vigiavam cada passo que davam.
Rui ajustou o penso rápido que tinha no nariz partido e murmurou que se a caçadeira fizesse muito ricochete, ela ficaria com o ombro numa lástima.
Margarida, com um brilho homicida e apaixonado nos olhos, respondeu que o seu braço esquerdo já estava no gesso daquela queda nas escadas, pelo que só precisava da mão direita para puxar o gatilho e da esquerda para segurar a mala; o resto resolveriam na cama do motel. Rui olhou para ela, sentindo aquela velha e familiar descarga elétrica invadir-lhe a espinha.
O mundo lá fora podia achar que eles pertenciam àquele hospício, mas a verdade era outra: o mundo é que era demasiado pequeno e frágil para o amor destrutivo de Rui e Margarida.
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