A noite caia e as luzes da feira prometiam, abracos beijos e terror! Lembro me da merda do CANGURO!
Aquilo parecia uma máquina de tortura disfarçada de diversão festiva. O operador olhava para a malta com um sorriso sádico, com a mão no manípulo, à espera do momento exato em que baixávamos a guarda. Tu estavas ali, a tentar manter a dignidade ao lado do teu grupo de amigos ou daquela pessoa especial, e pumba! Um solavanco seco que te mandava a espinha dorsal direta para o cérebro.
E a banda sonora? Uma mistura infernal de música pimba acelerada com batidas techno dos anos 90, interrompida de cinco em cinco segundos por uma buzina estridente ou por uma voz distorcida no microfone a gritar: "Eeee vai mais um salto!" ou "Segura, segura!". Saías de lá com os joelhos a tremer, o pescoço num desalinho total, a carteira mais leve e, mesmo assim, passados dez minutos já estavas na fila outra vez.
O sol de fim de tarde parecia uma gema de ovo gigante a escorrer pelo céu de agosto. O ar cheirava a farturas quentes, algodão-doce e ao gasóleo dos geradores da Feira de Verão de S. João.
Ricardo e Filipa caminhavam lado a lado, mas pareciam habitar planetas diferentes. Ele, com as mãos enterradas nos bolsos dos jeans, tentava ignorar o suor frio que lhe descia pela espinha. Ela, de olhos brilhantes e um sorriso elétrico, guiava-o pela multidão como um general em vésperas de triunfo.
— Tens a certeza de que queres ir nisto? — perguntou Ricardo, a voz a falhar um oitavo.
À frente deles erguia-se o STAR SPACE. Era uma monstruosidade de metal iluminada a néon roxo e verde, que prometia "viagens intergalácticas à velocidade do pensamento". Na prática, era um braço mecânico gigante que girava as pessoas a trezentos e sessenta graus enquanto as sacudia de cabeça para baixo. Da plataforma chegavam gritos que oscilavam entre o terror puro e a histeria.
— Estás com medo, Ricardo? — provocou Filipa, ajeitando a fita do cabelo. — É o último dia da feira. Se não formos hoje, só para o ano. Além disso, temos de celebrar.
A celebração a que ela se referia tinha um sabor amargo. No dia seguinte, Filipa mudava-se para o outro lado do mundo para estudar. Esta feira não era apenas uma saída de verão; era a despedida deles. O amor que sentiam um pelo outro, guardado em segredo durante meses por timidez crónica de ambas as partes, flutuava no ar, pesado e não dito.
— Eu não tenho medo do espaço — mentiu ele, engolindo em seco o cachorro-quente com extra mostarda que tinha comido há vinte minutos. — Vamos a isso.
Compraram os bilhetes. A fila avançou depressa demais, como um corredor da morte festivo. Quando deram por si, o funcionário da atração — um homem com ar aborrecido que já tinha visto demasiado horror humano — empurrou-os para as cadeiras de metal e puxou as barras de segurança pretas contra os seus peitos.
Ricardo sentiu-se num caixão vertical. Olhou para o lado. Filipa olhava para ele, e a diversão nos olhos dela tinha dado lugar a algo mais profundo, quase doloroso.
— Ricardo, se nós não voltarmos vivos… — começou ela, a voz subitamente trémula.
O motor do STAR SPACE rugiu como um monstro mecânico acordado abruptamente. A música techno pimba começou a ecoar nas colunas a um volume ensurdecedor.
— O quê?! — gritou Ricardo.
— Eu disse que te… — O resto da frase foi engolido pelo primeiro solavanco.
A máquina disparou para o céu. A força G colou-os aos assentos. A feira transformou-se num borrão de luzes coloridas e cabeças pequeninas. Ricardo sentiu o estômago subir-lhe instantaneamente à garganta.
— … amo! — gritou Filipa, quando a máquina estacou por um segundo no ponto mais alto, deixando-os de cabeça para baixo, suspensos sobre o abismo.
Ricardo piscou os olhos, o sangue a acumular-se-lhe no cérebro.
— Tu o quê?!
— Tu o quê?!
— Amo-te, seu estúpido! — berrou ela, as lágrimas a voarem horizontalmente das frentes dos seus olhos devido ao vento. — Há dois anos! E vou-me embora amanhã e tu nunca disseste nada!
O STAR SPACE caiu em queda livre, girando sobre o próprio eixo. O mundo tornou-se uma centrifugadora de emoções e luzes.
— Eu também te amo! — tentou responder Ricardo, mas a força do vento empurrou las palavras de volta para a sua boca. A revelação amorosa coincidiu milimetricamente com um nó terrível no seu sistema digestivo. O cachorro-quente reclamava a sua liberdade.
— O que disseste? — gritou Filipa, o cabelo a tapar-lhe a cara enquanto a máquina os balançava violentamente de um lado para o outro.
— Eu… amo… — Ricardo arregalou os olhos. A tragédia romântica estava prestes a cruzar-se com a física biológica. Ele tapou a boca com a mão.
— Ricardo? Estás a chorar de emoção? — perguntou ela, enternecida, enquanto o braço mecânico iniciava a rotação final e mais rápida, o chamado "Looping do Infinito".
Não era emoção. Era mostarda, salsicha e um litro de refrigerante de laranja.
Ricardo tentou resistir. Lutou como um guerreiro espartano contra as leis da gravidade. Mas o STAR SPACE não tinha misericórdia. Na terceira rotação completa, quando Filipa se virou para ele com o olhar mais romântico que conseguiu reunir no meio do caos, Ricardo abriu a boca.
Não saíram palavras de amor.
Um jato esverdeado e violento disparou de Ricardo, desafiando a aerodinâmica. Devido à rotação da máquina e ao vento contra, o destino do projétil foi cruelmente exato. Atingiu em cheio a barra de segurança, fez ricochete e salpicou a t-shirt branca de Filipa, enquanto o resto voou em direção ao público que assistia lá em baixo, gerando uma onda de gritos de pânico reais.
— Oh meu Deus! — guinchou Filipa, a sua expressão de paixão eterna a transformar-se instantaneamente em puro horror cósmico.
— Des… culpa… — conseguiu articular Ricardo, antes do segundo round, que desta vez decorou o seu próprio colo e os sapatos de ambos.
A música parou. As luzes acenderam-se. O STAR SPACE desceu lentamente até à plataforma, balançando suavemente, como se não tivesse acabado de destruir a dignidade de um jovem apaixonado.
As barras de segurança levantaram-se com um sibilar hidráulico. O silêncio na plataforma era absoluto, quebrado apenas pelo som mecânico do carrossel ao lado e pelo pranto baixinho de Ricardo, que cobria a cara com as mãos, desejando sinceramente que a terra se abrisse.
Filipa olhou para a sua t-shirt, depois para Ricardo, cujo rosto exibia uma cor algures entre o gesso e o abacate.
O funcionário do carrossel aproximou-se com uma mangueira e um balde, suspirando.
— Outra vez… — murmurou o homem.
— Outra vez… — murmurou o homem.
Ricardo levantou-se, de pernas a tremer como canas ao vento, pronto para correr para o deserto mais próximo e mudar de identidade. Mas antes que conseguisse dar um passo, Filipa agarrou-o pelo braço. Ele encolheu-se, esperando o insulto, o fim da amizade, a humilhação final.
Em vez disso, Filipa começou a rir. Primeiro foi uma gargalhada tímida, depois uma gargalhada histérica que atraiu os olhares de quem passava. Limpou uma mancha suspeita do ombro com um lenço de papel que tinha no bolso e olhou para ele.
— Bem… — disse ela, a respirar fundo. — Sempre disseste que eu te deixava sem fôlego. Mas isto é outro nível.
— Estás a gozar comigo? — sussurrou Ricardo, a voz sumida. — Eu acabei de arruinar o momento mais importante das nossas vidas. Eu vomitei-te em cima, Filipa. Isto é uma tragédia.
— É — concordou ela, pegando-lhe na mão, ignorando o facto de estar tudo ligeiramente pegajoso. — É a coisa mais romântica enojante que já me aconteceu. E agora, levas-me a casa no teu carro com as janelas todas abertas, ou vais continuar aí a fingir que não me deves um beijo há dois anos?
Ricardo olhou para ela, sentindo o coração (e o estômago) finalmente a acalmarem. Sorriu, com os dentes muito limpos devido à purga recente.
— Acho que prefiro o beijo. Mas se calhar… lavo a boca primeiro. Tambem te amo!
Caminharam em direção à saída da feira, sob as luzes da noite, cheirando ligeiramente a azedo, mas de mãos dadas, prontos para enfrentar qualquer distância.
Sem comentários:
Enviar um comentário