Esta é a história de Baltazar e Custódio, dois rapazes de uma aldeia tão pequena que nem sequer aparecia no mapa, Deus nao tinha passado por là...so o Diabo, mas nem mesmo esse queria nada de là! Eles não eram propriamente brilhantes. Na verdade, a população local costumava dizer que, se a estupidez pagasse imposto, os dois teriam falido o país. Mas o destino, esse grande humorista, tinha planos diferentes para eles.
Baltazar passou os primeiros vinte e cinco anos da sua vida a tentar inventar uma forma de ordenhar vacas usando música pimba. O resultado foram e segundo rezam as fofoqueiras da aldeia um novo conceito de vacas loucas e que traumatizadas só davam leite azedo. Custódio, por outro lado, passava os dias a tentar fixar cartazes na parede usando cuspe, gosma natural recheada de catarro de tabaco sem filtro. Estava firmemente convencido de que a verdadeira cola de colar era uma conspiração do governo para enriquecer as indústrias químicas.
A tragédia bateu-lhes à porta quando herdaram a única coisa que as suas respetivas famílias possuíam: uma quinta abandonada, coberta por uma montanha intransponível de estrume de cavalo acumulado ao longo de três gerações. A aldeia inteira riu-se. Estavam falidos antes de começar.
— Custódio — disse Baltazar, coçando a cabeça com um ancinho —, isto cheira mal.
— É do progresso, Baltazar. O progresso cheira sempre a cavalo.
— É do progresso, Baltazar. O progresso cheira sempre a cavalo.
Decididos a livrarem-se do monte de esterco, lembraram-se de uma reportagem que tinham visto na televisão de um café sobre "sustentabilidade" e "produtos biológicos gourmet". Sem perceberem patavina do conceito, enfiaram o estrume em frascos de vidro vazios que encontraram na lixeira municipal. Custódio, usando as suas capacidades artísticas, colou os rótulos com cuspe. Escreveram com uma caneta de feltro: "Aroma de Terra Ancestral – Essência Purificadora de Ambientes".
O plano era vender aquilo na feira local por cinquenta cêntimos o frasco. Contudo, no caminho, Baltazar tropeçou na própria bota e deixou cair a caixa de cartão em cima do capô de um Bentley preto que estava estacionado perto da igreja. O carro pertencia a um multimilionário excêntrico, um influenciador de bem-estar digital que passava a vida à procura da "verdadeira experiência rústica".
O homem saiu do carro, olhou para o estrume espalhado no vidro, cheirou-o e começou a chorar.
— Isto... isto é a cura para a ansiedade urbana! — gritou o milionário. — É o odor do desapego material! Compro tudo por cem mil euros!
Baltazar e Custódio olharam um para o outro. Não sabiam quanto era cem mil euros, mas sabiam que dava para comprar muitas sandes de courato. Aceitaram o negócio antes que o homem recuperasse o juízo. Estavam ricos. A estupidez tinha acabado de ser cotada em bolsa.
Com os bolsos cheios de notas e as mentes vazias de bom senso, decidiram que a aldeia já era demasiado pequena para o seu novo estatuto de "empresários do estrume". Fizeram as malas — que consistiam em dois sacos de plástico do supermercado — e apanharam o comboio para a grande cidade.
A chegada à estação central foi um choque cultural. Custódio passou a primeira meia hora a pedir desculpas aos manequins das montras das lojas, achando que eram pessoas muito elegantes e terrivelmente antipáticas que se recusavam a cumprimentá-lo. Baltazar quase foi preso ao tentar tomar banho numa fonte pública no meio de uma praça movimentada, usando um pedaço de sabão azul e uma escova de lavar o chão.
— Custódio, as pessoas aqui são muito evoluídas — observou Baltazar, enquanto olhava para um arranha-céus. — Olha para aquele prédio. Tem tantos andares que os de cima devem viver no céu com os anjos.
— Pois vivem, Baltazar. E aposto que têm de usar paraquedas para ir comprar o pão.
— Pois vivem, Baltazar. E aposto que têm de usar paraquedas para ir comprar o pão.
Compraram uma cobertura de luxo num dos bairros mais caros da capital. O agente imobiliário, percebendo que lidava com duas mentes excecionalmente moldáveis, vendeu-lhes o apartamento pelo triplo do preço, convencendo-os de que as tomadas elétricas da casa vinham carregadas com "eletricidade vintage importada de França".
A primeira noite na cidade foi uma comédia de terror. Habituados ao silêncio do campo, o barulho do trânsito aterrorizou-os. Custódio passou a noite debaixo da cama, armado com uma colher de pau, convencido de que os autocarros que passavam na rua eram monstros mecânicos que comiam pessoas. Baltazar, tentando acender o fogão de indução de última geração, acabou por queimar as sobrancelhas porque achou que o aparelho precisava de um fósforo para "perceber quem mandava ali".
Como tinham muito dinheiro e nenhuma ocupação, tornaram-se presença assídua nas festas da alta sociedade. A elite da cidade, sempre à procura de novas excentricidades, achava que Baltazar e Custódio eram dois génios da arte conceptual que fingiam ser idiotas como uma crítica mordaz ao capitalismo moderno.
Num jantar de gala beneficente, Baltazar confundiu uma taça de água com rodelas de limão (destinada a lavar os dedos) com uma sopa exótica. Bebeu-a de um trago e elogiou o cozinheiro pelo "caldo de azedas aguado". Os críticos de gastronomia presentes consideraram o ato uma "performance artística revolucionária contra o desperdício alimentar" e aplaudiram de pé.
Entretanto, Custódio tentava meter conversa com um famoso pintor abstrato. Olhando para uma tela que consistia apenas num quadrado preto sobre fundo branco, Custódio disse com toda a honestidade:
— Olhe, o senhor desculpe, mas a sua televisão está estragada. Só dá a imagem preta. Precisa de uma pancada na lateral.
O pintor, em vez de se ofender, considerou a observação uma análise profunda sobre o vazio da era digital. No dia seguinte, a imprensa cultural escrevia sobre os "novos filósofos do quotidiano urbano".
O sucesso deles atingiu o auge quando decidiram abrir um restaurante. O conceito era simples: eles não sabiam cozinhar nada. O menu consistia em coisas como "massa crua com sal" e "batatas inteiras com casca cozidas na chaleira". Chamaram ao espaço O Erro. Adivinhem? Tornou-se o restaurante mais exclusivo da cidade. As pessoas faziam fila durante meses e pagavam centenas de euros para comer comida horrível, convencidas de que estavam a experienciar o "minimalismo gastronómico punitivo".
Mas a vida na cidade começou a cobrar o seu preço. A tragédia dos idiotas que vencem na vida é que eles, eventualmente, começam a acreditar que são realmente espertos. E foi aí que o castelo de cartas começou a desmoronar.
Baltazar decidiu investir toda a fortuna que tinham acumulado numa nova criptomoeda chamada "Moeda do Burro", criada por um vigarista da internet. Baltazar achou o nome muito familiar e acolhedor. Comprou milhões de moedas digitais. Duas semanas depois, o criador da moeda fugiu para um paraíso fiscal e o investimento passou a valer exatamente zero.
Ao mesmo tempo, Custódio decidiu que queria ser arquiteto. Comprou um terreno na zona ribeirinha e decidiu construir um edifício inovador usando apenas paletes de madeira e fita cola industrial. O edifício, que ele chamou de Torre da Amizade, desabou trinta minutos após a inauguração, felizmente sem ninguém lá dentro, esmagando apenas o carro do presidente da câmara.
Em menos de um mês, a fortuna desapareceu. Os amigos da alta sociedade evaporaram-se. O restaurante O Erro foi fechado pela segurança alimentar, não pela comida má, mas porque encontraram um cavalo vivo na cozinha que Baltazar tinha comprado para "fazer companhia ao frigorífico".
Sentados nos degraus do palacete que já não era deles, com as sobrancelhas de Baltazar finalmente a crescer de volta e Custódio a tentar limpar as lágrimas com uma nota falsa de vinte euros, os dois olharam para a cidade luminosa.
— Custódio — disse Baltazar —, acho que voltámos a ser pobres.
— Somos, Baltazar. Mas fomos os melhores ricos que esta cidade já viu.
— Somos, Baltazar. Mas fomos os melhores ricos que esta cidade já viu.
Apanharam o comboio de volta para a aldeia na manhã seguinte. Não traziam dinheiro, mas traziam uma máquina de café expresso avariada que Custódio achava que era um robô do futuro. Quando chegaram à sua velha quinta, viram que o monte de estrume tinha crescido novamente.
Baltazar sorriu, pegou no ancinho e disse:
— Olha, Custódio. O nosso banco voltou a abrir as portas.
— Olha, Custódio. O nosso banco voltou a abrir as portas.
E assim, os dois maiores estúpidos da história continuaram a sua vida, felizes na sua ignorância, provando que a vida pode ser uma tragédia para quem pensa, mas é uma comédia eterna para quem não faz a menor ideia do que está a fazer.
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