domingo, 7 de junho de 2026

o espelho e o seu reflexo

 

O quarto cheirava a incenso barato e a café queimado. Na cama de ferro que rangia como um comboio antigo, Afonso e Clara tentavam fundir-se num único átomo. O amor deles não era uma história bonita; era uma colisão de planetas com banda sonora de comédia rasteira.

— Se me morderes outra vez com essa força, o meu espírito sai pelo topo da cabeça — arquejou Clara, com as mãos cravadas na cabeça calva e desalinhada de Afonso.

— Deixa sair — sussurrou ele, a boca colada ao pescoço dela, descendo uma linha de saliva quente até à clavícula. — Eu apanho-o com a língua no ar.

Afonso não estava a brincar. Cada lambidela dele tinha a precisão de um cirurgião e a sede de um náufrago. Quando a língua dele encontrou o relevo do mamilo de Clara, ela soltou um gemido tão agudo que o gato do vizinho, no parapeito da janela, se assustou e caiu para cima de um estendal de roupa no andar de baixo. Ouviu-se um estrondo de molas plásticas e um prato a partir. Eles nem pestanejaram...

Para quem visse de fora, o cenário era ridículo. Afonso tinha uma meia elástica posta porque tinha torcido o tornozelo na véspera, a tentar apanhar uma rosa para ela num jardim público. Clara usava um sutiã rendado branco que tinha um rasgão na lateral, cosido à pressa com linha azul escuro. Mas na física daquela cama, nada disso existia.

O primeiro toque dos corpos despidos foi uma explosão silenciosa. A pele dela parecia feita de sol; a dele, de gravidade. Quando ele a penetrou, o tempo não abrandou — ele simplesmente partiu-se. Aquela foda não pertencia à Terra. Era um ato de vandalismo cósmico. Cada embate dos quadris enviava uma onda de choque que fazia os copos de plástico na mesa de cabeceira tremerem, mas na mente deles, estavam a rasgar o tecido do próprio universo, galáxia por galáxia.

— Mais — pediu Clara, com a voz rouca, as pernas trancadas na cintura dele, ignorando a dor no tornozelo do namorado. — Destrói-me logo de uma vez, Afonso.

— Já estamos mortos, Clarinha. Isto é só o eco — respondeu ele, os olhos injetados de sangue, a testa banhada em suor que pingava diretamente na boca dela. Ela engoliu o suor dele como se fosse néctar.

O ritmo tornou-se frenético, uma dança mecânica e animal. O riso misturava-se com o pranto. Era cómico ver o rabo de Afonso subir e descer ritmicamente enquanto, na parede, a sombra projetada parecia a de um monstro mitológico a devorar o mundo. Riam-se da própria miséria, da falta de dinheiro, do teto que ameaçava ruir, mas choravam porque sabiam que aquele prazer roçava uma divindade que nenhum ser humano tinha o direito de suportar por muito tempo.

O clímax chegou como uma piada de mau gosto e um milagre absoluto. No instante exato em que ambos desmoronaram num orgasmo violento que os deixou a tremer e a babar no lençol encardido, o estrado da cama cedeu com um estoiro seco.

Caíram os dois, ainda colados, os membros entrelaçados, diretamente no chão de madeira fria, rodeados de cotão e de uma sandália velha perdida. Ficaram ali, ofegantes, cobertos de fluidos e de pó, com o riso histérico a dar lugar a um silêncio pesado. Sabiam que tinham tocado o limite do infinito. E sabiam, com uma certeza trágica, que a partir daquele segundo, o resto do mundo real seria para sempre uma valente seca.

O quarto transfigurou-se num altar de carne e fluidos. O ridículo da cama partida desapareceu, esmagado pela urgência bruta dos corpos. Afonso arrastou Clara para cima do colchão desalinhado no chão. Não havia espaço para delicadezas; o amor deles exigia a crueza dos bichos.

Ele enterrou o rosto entre as pernas dela sem pedir licença. A rata da Clara estava semi-aberta, vermelha, uma ferida de puro prazer que latejava ao ritmo do coração de ambos. O odor a fêmea e a suor inundou o ar. Quando a língua de Afonso recolheu os primeiros sumos que escorriam abundantes daquela vagina em brasa, ele soube: os líquidos da rata na sua boca e nos seus lábios eram como caviar do mais caro do mundo. Aquela humidade espessa, salgada e sagrada, alimentava-o mais do que qualquer banquete na Terra. Ele engolia o gosto dela com a avidez de quem bebe a própria vida.

- é tao bom!!! Dizia Clara.

A intensidade de uma ligação entre duas pessoas manifesta-se muitas vezes através da entrega e da profundidade da intimidade partilhada. Quando se fala em dar "força" a um momento de união, refere-se geralmente à capacidade de ambos os indivíduos estarem presentes, vulneráveis e sintonizados com os desejos e limites um do outro.

A exploração da sensualidade e do prazer mútuo é um aspeto fundamental das relações humanas, envolvendo não apenas o contacto físico, mas também uma forte componente emocional e psicológica. A comunicação aberta sobre o que traz satisfação e o respeito pelo consentimento são os pilares que permitem que a intimidade seja vivida de forma plena e segura para todos os envolvidos.

Afonso fechou os olhos, respirando de forma pesada e descompassada, sentindo a urgência daquele momento. O silêncio da noite foi completamente quebrado pela intensidade dos movimentos dela, precisos e avassaladores. Cada toque parecia calculado para testar os limites do autocontrolo dele.

— Por favor... — sussurrou Afonso, a voz embargada e quase sumida. — Vão ouvir-nos. Os vizinhos...

Ela não abrandou. Pelo contrário, intensificou o ritmo com uma destreza quase divina, arrancando dele um gemido sufocado que ecoou pelas paredes finas do quarto. Afonso cravou os dedos nos lençóis, oscilando entre o delírio e a súplica, completamente entregue a um prazer tão avassalador que parecia quase perigoso.

No instante em que Afonso parecia prestes a perder totalmente o controlo, uma pancada seca e firme ecoou na parede que partilhavam com o apartamento ao lado. O som de uma tossidela forçada do vizinho do 6º Esquerdo fez o tempo parar. Ela deteve-se a milímetros de distância, com um sorriso desafiante nos lábios, enquanto ele tentava recuperar o fôlego num silêncio absoluto e tenso, com o coração a bater-lhe na garganta.E foi ai que eles fizeram pior

O silêncio que se seguiu à tossidela do vizinho durou apenas o tempo de dois corações baterem desalinhados. O susto deveria ter arrefecido os ânimos, mas o perigo iminente funcionou como combustível puro. Olharam-se nos olhos, e o desafio silencioso transformou-se numa audácia incontrolável.

Ela soltou uma risada abafada contra o peito de Afonso e, em vez de se afastar, voltou à carga com ainda mais ferocidade, tapando-lhe a boca com a mão para sufocar os sons. Afonso, com a adrenalina no limite pelo medo de serem apanhados, agarrou-a pela cintura e puxou-a contra si de forma brusca, entregando-se ao ritmo frenético. Cada movimento agora era uma provocação direta à parede do vizinho, uma dança perigosa onde o prazer se misturava com a vertigem de serem descobertos a qualquer segundo.

Decididos a não parar, transformaram o momento num jogo de sobrevivência sensorial. Ela enterrou os dentes no ombro dele para não gritar, enquanto Afonso cravava as unhas no colchão, controlando cada respiração para que não passasse de um sopro. A ausência de som tornou cada toque dez vezes mais intenso, uma tortura deliciosa onde a única coisa que denunciava o que faziam era o calor sufocante do quarto.

O quarto transformou-se numa panela de pressão. A proibição de fazer barulho aguçou todos os outros sentidos: o cheiro da pele suada, o atrito dos corpos e o som abafado dos batimentos cardíacos que pareciam ecoar nas paredes. Ela prendeu o lábio inferior entre os dentes, fechando os olhos com força enquanto os movimentos de Afonso, lentos e profundos, a levavam ao limite do suportável.

Afonso sentia os músculos tensos, a travar a libertação iminente. A cada estocada deliberada, sentia a pressão dos dentes dela no seu ombro, uma dor boa que o ancorava à realidade. Estavam prestes a explodir em simultâneo, numa agonia de prazer mudo, quando o ranger de uma mola da cama ameaçou deitar tudo a perder, forçando-os a uma imobilidade estrita, suspensos no auge do desejo.

A explosão silenciosa deixou-os sem forças, unidos apenas pela respiração que, aos poucos, ia recuperando o ritmo normal no escuro do quarto. O perigo tinha passado e a urgência selvagem deu finalmente lugar a uma cumplicidade serena.

Afonso afastou-se com suavidade, deixando um beijo terno no ombro dela, mesmo por cima da marca leve que os dentes dela tinham deixado. Num sussurro impercetível, pediu-lhe para se virar. Ela obedeceu, deixando-se cair lentamente de bruços sobre os lençóis desalinhados, soltando um suspiro longo de puro alívio.

Com as mãos ainda quentes do ato, Afonso subiu pelas pernas dela e sentou-se horizontalmente sobre as suas coxas, sem pressionar. Começou por pousar as palmas das mãos na base das costas dela, subindo lentamente pela coluna até aos ombros. Os seus polegares desenharam círculos firmes e calmos, desfazendo cada nó de tensão acumulada pela adrenalina do momento.

Dava-lhe beijos semparar, mordia-lhe o rabo e enfiava-lhe ao mesmo tempo a lingua no cu.

- Adoro lamber-te! Disse-lhe.

Ela enterrou o rosto risonho na almofada, emitindo um som suave, desta vez de puro relaxamento. O ritmo dos movimentos dele era agora o oposto do que fora antes: lento, compassado e reconfortante. À medida que os dedos de Afonso massajavam a sua nuca e desciam pelas suas omoplatas, a respiração de ambos sintonizou-se. O quarto, que instantes antes parecia uma panela de pressão, era agora um refúgio de paz absoluta, onde o único som era o deslizar suave das mãos dele na pele dela, embalando-os para um sono profundo.

O silêncio do quarto já não era tenso; era cúmplice e confortável. Enquanto as mãos de Afonso continuavam o movimento lento e firme pelas costas dela, subindo até à nuca, ela deixou cair a cabeça ligeiramente para o lado, aproveitando o toque.

— Sabes que quase me mataste lá atrás, não sabes? — sussurrou Afonso, com um meio sorriso que ela não podia ver, mas que sentiu no tom de voz dele.

Ela soltou um riso abafado contra a almofada, a voz sonolenta e arrastada pelo relaxamento.

— Tu estavas a adorar o perigo, Afonso. Não venhas deitar as culpas para cima de mim. O teu coração parecia que ia saltar do peito.

— Ia. Mas era de pânico que o homem do 6º Esquerdo aparecesse aqui à porta de pijama — riu-se baixo, pressionando os polegares na zona lombar dela, arrancando-lhe um suspiro longo. — Mas a verdade é que... nunca te senti tão entregue assim. Sem regras, sem barreiras. Foi... inacreditável.

Ela ficou em silêncio por uns segundos, saboreando o calor das mãos dele e a confissão. Virou um pouco o rosto para o olhar de soslaio no escuro.

— É o efeito que tens em mim — confessou, com uma suavidade sincera que contrastava com a audácia de há pouco. — Contigo, o resto do mundo desaparece. Até os vizinhos chatos.

Afonso inclinou-se para a frente, apoiando o peito nas costas dela por um breve instante, e sussurrou-lhe ao ouvido, deslizando as mãos para os braços dela:

— Fico feliz por saber disso. Porque, da próxima vez, não te vou deixar controlar o ritmo... vizinhos ou não.

Ela sorriu, fechando os olhos enquanto sentia o peso reconfortante dele e o embalo final da massagem, completamente rendida ao sono e ao calor daquele momento.

Na manhã seguinte, o constrangimento deu lugar a uma audácia ainda maior. Afonso e e Clara esperavam pelo elevador no corredor do terceiro andar quando a porta de metal se abriu, revelando o vizinho do 6º Esquerdo — um homem de meia-idade, com cara de poucos amigos e um jornal dobrado debaixo do braço.

— Bom dia — resmungou o homem, sem tirar os olhos do chão.

— Bom dia — responderam os dois em coro, entrando no cubículo estreito.

A porta fechou-se e o elevador começou a descer lentamente. O ambiente era de um silêncio sepulcral, mas a proximidade física e a memória da noite anterior acenderam uma faísca imediata. Olharam-se de soslaio pelo espelho do elevador. Em vez de ficarem quietinhos, o demónio da provocação falou mais alto.

Ela, com um sorriso cínico e impercetível para o vizinho, deslizou a mão por trás do casaco de Afonso e enfiou os dedos diretamente para dentro das calças dele. O toque audaz, sabendo que estavam à milésima de segundo de ser apanhados, provocou em Afonso uma rigidez plena e instantânea. A adrenalina disparou. Afonso, apanhado de surpresa e sem estar minimamente nos ajustes para se deixar dominar, não ficou atrás. Com o coração a mil e os olhos fixos na nuca do vizinho, ele contornou a cintura dela por trás, desceu a mão firmemente por dentro das calças dela e meteu os dedos diretamente na sua intimidade, encontrando-a já quente e húmida.

O elevador passava pelo segundo andar. O vizinho, completamente alheio ao crime que acontecia a escassos centímetros, limpou a garganta — o mesmíssimo som da noite anterior. O ruído fez o ritmo cardíaco do casal duplicar. Enquanto os dedos de Afonso se moviam com uma precisão cirúrgica e selvagem sob o tecido, arrancando-lhe um arquejo que ela disfarçou à pressa com uma tossidela, a mão dela apertava-o com força, desafiando o limite do controlo dele. Era um jogo de pura loucura: o perigo da exposição pública misturado com o toque proibido, mesmo ali, nas costas de quem exigia silêncio.

O som metálico do elevador a chegar ao rés-do-chão ecoou como um gongo de salvação. As portas começaram a abrir-se lentamente, e, numa fração de segundo, os dois recolheram as mãos com uma agilidade cirúrgica. Ela recompôs o casaco com um movimento fluido, enquanto Afonso respirava fundo, ajustando discretamente a postura para disfarçar a rigidez evidente que o casaco comprido mal conseguia tapar.

O vizinho do 6º Esquerdo saiu primeiro, soltando um curto "Bom dia" de circunstância, e ao mei do corredor ouviu-se um “ porcos do caralho!!!” .

Assim que os passos do homem se afastaram em direção à rua, as portas do elevador começaram a fechar-se novamente. Olharam-se, com as pupilas dilatadas e a respiração audível no cubículo fechado. A intensidade tinha ultrapassado o limite do suportável; o toque lá dentro tinha deixado o trabalho a meio e nenhum dos dois tinha condições de andar na rua daquela maneira.

— Esqueci-me... das chaves de casa — disse ela, com a voz num fio, mas com um olhar que não deixava margem para dúvidas.

Sem hesitar, Afonso esticou o braço e esmurrou o botão do terceiro andar. O elevador obedeceu, iniciando a subida. Ele não esperou que as portas se abrissem lá em cima: encurralou-a imediatamente contra o espelho do elevador, colando os corpos com uma urgência selvagem. As mãos, que antes agiam às escondidas, agora arrancavam botões e puxavam fechos-de-correr com uma fome desesperada.

Quando as portas se abriram no terceiro andar, o corredor estava deserto. Praticamente aos tropeções, devorando-se em beijos que sufocavam os gemidos, Afonso conseguiu enfiar a chave na fechadura da própria porta. Entraram em casa como um furação, batendo com a porta atrás de si. Não houve tempo para caminhar até ao quarto. Ali mesmo, no hall de entrada, encostada à madeira da porta principal, ela entrelaçou as pernas na cintura dele enquanto Afonso a erguia com uma força bruta, unindo-os num impacto definitivo que fez a estrutura da porta vibrar — uma provocação final e desavergonhada ao silêncio do prédio.

Uma hora mais tarde, a calma regressou finalmente ao hall de entrada. O chão estava salpicado de peças de roupa espalhadas à pressa, testemunhas mudas da tempestade que ali tinha passado.

Desta vez, conseguiram mesmo atravessar a porta de casa. Afonso e ela caminhavam pela rua em direção ao café da esquina, com o passo lento de quem tinha despendido até à última gota de energia. O cansaço físico era evidente na postura descontraída de ambos, mas a expressão nos seus rostos era de uma satisfação absoluta e lavada.

Ela levava os óculos de sol postos, escondendo o olhar ainda ligeiramente ébrio de sono e prazer, enquanto segurava o braço de Afonso com uma preguiça reconfortante. Afonso, com as mãos enfiadas nos bolsos e o cabelo ainda um pouco desalinhado, exibia um sorriso de canto, saboreando a sensação de vitória. A audácia do elevador e a loucura do hall de entrada tinham valido cada segundo de risco.

Sentaram-se na esplanada, sob o calor suave da manhã, partilhando um silêncio imensamente confortável. Quando o empregado trouxe os cafés, os dois olharam um para o outro e, sem precisarem de dizer uma única palavra, riram-se baixinho. O segredo daquela manhã pertencia-lhes inteiramente, gravado na memória de um prédio que, por muito que tentasse, nunca conseguiria impor barreiras ao desejo deles.

O calor das duas chávenas de café fumegantes na mesa da esplanada parecia prolongar o aconchego daquela manhã. Ela retirou os óculos de sol por um instante, revelando os olhos brilhantes, e levou a torrada à boca com uma lentidão deliciosa, saboreando cada segundo daquela calmaria conquistada.

Afonso observava-a em silêncio. Olhou para o movimento calmo da rua, depois para o perfil dela iluminado pelo sol, e sentiu uma onda de gratidão profunda invadir-lhe o peito. O turbilhão de adrenalina, o jogo proibito no elevador e a loucura cega atrás da porta de casa tinham-se dissipado, deixando no lugar apenas uma paz imensa e a certeza absoluta de que não queria estar em mais nenhum lugar do mundo.

Ele esticou a mão por cima da mesa, procurando os dedos dela. Quando ela olhou de volta, nada surpreendida pelo toque suave, Afonso sorriu com os olhos, segurou-lhe a mão com firmeza e terminou a história da forma mais simples e verdadeira possível:

— Amo-te!

sábado, 6 de junho de 2026

ambar, citron e spicies

O amor de Rui e Margarida não era um lago calmo; era um reator nuclear em permanente estado de fusão. Eles eram, sob qualquer perspetiva cosmológica ou biológica, os dois seres humanos mais compatíveis à face da Terra. 

A amizade que os unia continha uma cumplicidade tão absoluta que dispensava palavras: pensavam em uníssono, partilhavam os mesmos ódios viscerais e terminavam as frases um do outro com a precisão de dois relógios suíços. Quando se tocavam, o mundo exterior deixava de existir. 

O sexo entre eles era uma experiência transcendental, uma força da natureza que desmanchava estrados de camas, acordava vizinhos num raio de três quarteirões e deixava o apartamento a cheirar a suor, eletricidade e absoluto triunfo. Havia ali um amor vasto e inabalável, mas que trazia um terrível defeito de fabrico: era movido a alta voltagem e uma total ausência de controlo de impulsos.

A vida quotidiana do casal assemelhava-se a um filme de ação coreografado por psicopatas apaixonados. A violência e a paixão caminhavam de mãos dadas, fundindo-se numa rotina onde não existia meio-termo. 
Uma discussão perfeitamente banal sobre quem se esquecera de comprar o leite escalava, em escassos segundos, para um arremesso coreografado de pratos de porcelana chinesa. Rui exibia com orgulho uma cicatriz na canela, cortesia de uma cadeira de balanço que Margarida lhe lançara no outono passado; Margarida trazia no antebraço a marca de uma queimadura sofrida quando Rui, numa tentativa desastrada de cozinhar um jantar romântico, incendiara as cortinas da sala. 
No entanto, o sangue e os gritos eram apenas o prelúdio. Todas as batalhas terminavam invariavelmente da mesma forma: os dois nus no chão da cozinha, entre cacos de vidro e juras sussurradas de amor eterno, curando as feridas com a urgência dos corpos.
A tragédia abateu-se sobre eles numa modorra de terça-feira. O pretexto foi ridículo — o destino das próximas férias —, mas a intensidade foi nuclear. No auge do diferendo, Margarida agarrou num cinzeiro de mármore maciço e arremessou-o com a força de um lançador de disco. Rui, dotado de reflexos de ninja lapidados por anos daquela convivência, baixou-se a tempo. 
O cinzeiro voou pela janela aberta do quarto andar e desceu em direção à rua. O azar quis que, naquele exato segundo, passasse o carro de um inspetor de saúde pública. O projétil estilhaçou o para-brisas do veículo, fazendo com que o condutor se despistasse violentamente contra um poste de eletricidade. O impacto derrubou o poste, que tombou pesadamente sobre o transformador de alta tensão que abastecia o bairro.
O caos instalou-se com uma rapidez cómica. O transformador explodiu, mergulhando toda a zona numa escuridão instantânea, enquanto um curto-circuito violento iniciava um incêndio nas fiações do prédio de Rui e Margarida. 
Sob o fumo negro que começava a invadir o apartamento, Rui agiu por instinto: pegou em Margarida ao colo, enquanto ela, sem largar a compostura, agarrava o gato pelo pescoço com uma mão e a garrafa de vinho mais cara da casa com a outra. Na pressa de descer as escadas de emergência, Rui ocorreu tropeçar nas patas do felino em pânico. 
O casal rolou, abraçado e aos gritos, por doze degraus de betão armado, culminando numa pilha de membros fraturados no patamar inferior.
Duas horas mais tarde, o cenário no hospital municipal roçava o absurdo. Rui e Margarida encontravam-se sentados na mesma maca da urgência, algemados um ao outro pela polícia, que presumira tratar-se de um caso grave de violência doméstica mútua.
 Rui tinha o nariz partido e sangrava abundantemente para cima da bata hospitalar, enquanto Margarida exibia o braço esquerdo imobilizado num gesso que ia até ao ombro. Olharam-se fixamente por entre os hematomas. Rui limpou o sangue do lábio e murmurou que ela tinha o nariz torto. 
Margarida, esboçando um sorriso fraco mas vitorioso, respondeu que ele estava sem teto, mas que o sexo daquela manhã desculpava qualquer ruína. Desataram a rir à gargalhada, uma gargalhada histérica e cúmplice que ecoou pelos corredores frios do hospital. Ao assinar a folha de observação, o médico de serviço recomendou o internamento psiquiátrico urgente de ambos no Hospital das Brancas. Ele não compreendia que não valia a pena; eles eram loucos, sim, mas a sua única e incurável demência era o amor que tinham um pelo outro.
A ala psiquiátrica do Hospital das Brancas nunca mais seria a mesma após a entrada deles. Para o corpo clínico, tratava-se de dois casos severos de psicose partilhada com tendências autodestrutivas. 
Para o casal, a ala de isolamento era apenas um hotel de poucas estrelas com um serviço de quartos deplorável. Como as regras proibiam que ficassem no mesmo quarto devido ao histórico de volatilidade mútua, os dois transformaram o confinamento num jogo de espionagem de alta intensidade. 
O primeiro momento absurdo ocorreu na segunda noite. Rui, fingindo uma crise de sonambulismo, conseguiu subornar um enfermeiro estagiário com um relógio imaginário que prometeu entregar assim que saísse em liberdade. Segundos depois, Rui arrombava a porta do quarto de Margarida usando a fivela de um cinto que tinha contrabandeado nas cuecas. 
O reencontro não foi marcado por lágrimas, mas sim pelo melhor e mais arriscado sexo da vida deles, consumado em cima de uma mesa de exames de inox, enquanto duas câmaras de segurança transmitiam tudo em direto para a sala de vigia. O segurança de turno, paralisado pelo choque e por uma estranha admiração pela ginástica do casal, demorou dez minutos a carregar no alarme.
Quando os enfermeiros finalmente arrombaram a porta para os separar, a dinâmica habitual de violência e paixão regressou em força. Margarida, furiosa pela interrupção, arrancou o suporte de um soro e usou-o como lança, atingindo um dos funcionários na nádega. Rui, tentando defendê-la, desferiu um soco num armário de medicamentos, partindo o nó dos dedos, mas conseguindo roubar um frasco de sedativos fortes. 
Foram arrastados de volta para as suas celas acolchoadas, cobertos de hematomas, sedados até aos dentes, mas a sorrir com a cumplicidade de quem tinha acabado de conquistar o mundo.
Foi precisamente durante as sessões de terapia de grupo que o verdadeiro plano de vingança começou a ganhar forma. Sentados num círculo de cadeiras de plástico, rodeados por doentes que discutiam traumas de infância, Rui e Margarida usavam uma linguagem de sinais inventada na adolescência para delinear a próxima jogada. 
O foco deles mudara. A seguradora "Imperium Seguro" tinha enviado uma carta formal ao hospital recusando pagar um único cêntimo pelo incêndio do antigo apartamento deles, alegando negligência criminosa. Aquela afronta ao património do casal exigia uma resposta à altura. Não queriam apenas o dinheiro; queriam uma retaliação bíblica.
O plano de vingança armada contra a seguradora foi riscado com um pedaço de carvão contrabandeado das aulas de arteterapia, desenhado diretamente nas costas da bata de isolamento de Rui. Margarida liderava a estratégia. O plano dividia-se em três fases cirúrgicas. A primeira fase, batizada de "A Fuga dos Loucos", envolvia usar o frasco de sedativos roubado para batizar o café da manhã dos guardas da ala. 
A segunda fase exigia armamento. Rui lembrava-se perfeitamente de que o seu tio Afonso, um caçador reformado com demência ligeira, guardava duas caçadeiras de canos cerrados e um revólver Colt .45 no sótão de uma quinta na periferia.
A terceira fase seria o clímax no edifício sede da Imperium Seguro. O plano não era discreto. Margarida insistia que deviam entrar na receção vestidos com os próprios pijamas do Hospital das Brancas, para manter a narrativa de insanidade caso o plano corresse mal. 
Rui seria o músculo, disparando para os tetos falsos para fazer chover gesso sobre os executivos, enquanto Margarida subia à sala do presidente com o revólver encostado ao queixo do primeiro gerente que encontrasse. 
A exigência era simples: uma mala com duzentos mil euros em notas não marcadas e um pedido de desculpas assinado com o sangue do diretor financeiro.
Nas vésperas da execução da fuga, durante o tempo de recreio no pátio interior, os dois caminhavam de braço dado, ignorando os olhares tensos dos guardas que agora vigiavam cada passo que davam. 
Rui ajustou o penso rápido que tinha no nariz partido e murmurou que se a caçadeira fizesse muito ricochete, ela ficaria com o ombro numa lástima. 
Margarida, com um brilho homicida e apaixonado nos olhos, respondeu que o seu braço esquerdo já estava no gesso daquela queda nas escadas, pelo que só precisava da mão direita para puxar o gatilho e da esquerda para segurar a mala; o resto resolveriam na cama do motel. Rui olhou para ela, sentindo aquela velha e familiar descarga elétrica invadir-lhe a espinha. 
O mundo lá fora podia achar que eles pertenciam àquele hospício, mas a verdade era outra: o mundo é que era demasiado pequeno e frágil para o amor destrutivo de Rui e Margarida.

halito de cavalo mal parido

Esta é a história de Baltazar e Custódio, dois rapazes de uma aldeia tão pequena que nem sequer aparecia no mapa, Deus nao tinha passado por là...so o Diabo, mas nem mesmo esse queria nada de là! Eles não eram propriamente brilhantes. Na verdade, a população local costumava dizer que, se a estupidez pagasse imposto, os dois teriam falido o país. Mas o destino, esse grande humorista, tinha planos diferentes para eles.

Baltazar passou os primeiros vinte e cinco anos da sua vida a tentar inventar uma forma de ordenhar vacas usando música pimba. O resultado foram e segundo rezam as fofoqueiras da aldeia um novo conceito de vacas loucas e que  traumatizadas só davam leite azedo. Custódio, por outro lado, passava os dias a tentar fixar cartazes na parede usando cuspe, gosma natural recheada de catarro de tabaco sem filtro. Estava firmemente convencido de que a verdadeira cola de colar era uma conspiração do governo para enriquecer as indústrias químicas.
A tragédia bateu-lhes à porta quando herdaram a única coisa que as suas respetivas famílias possuíam: uma quinta abandonada, coberta por uma montanha intransponível de estrume de cavalo acumulado ao longo de três gerações. A aldeia inteira riu-se. Estavam falidos antes de começar.
— Custódio — disse Baltazar, coçando a cabeça com um ancinho —, isto cheira mal.
— É do progresso, Baltazar. O progresso cheira sempre a cavalo.
Decididos a livrarem-se do monte de esterco, lembraram-se de uma reportagem que tinham visto na televisão de um café sobre "sustentabilidade" e "produtos biológicos gourmet". Sem perceberem patavina do conceito, enfiaram o estrume em frascos de vidro vazios que encontraram na lixeira municipal. Custódio, usando as suas capacidades artísticas, colou os rótulos com cuspe. Escreveram com uma caneta de feltro: "Aroma de Terra Ancestral – Essência Purificadora de Ambientes".
O plano era vender aquilo na feira local por cinquenta cêntimos o frasco. Contudo, no caminho, Baltazar tropeçou na própria bota e deixou cair a caixa de cartão em cima do capô de um Bentley preto que estava estacionado perto da igreja. O carro pertencia a um multimilionário excêntrico, um influenciador de bem-estar digital que passava a vida à procura da "verdadeira experiência rústica".
O homem saiu do carro, olhou para o estrume espalhado no vidro, cheirou-o e começou a chorar.
— Isto... isto é a cura para a ansiedade urbana! — gritou o milionário. — É o odor do desapego material! Compro tudo por cem mil euros!
Baltazar e Custódio olharam um para o outro. Não sabiam quanto era cem mil euros, mas sabiam que dava para comprar muitas sandes de courato. Aceitaram o negócio antes que o homem recuperasse o juízo. Estavam ricos. A estupidez tinha acabado de ser cotada em bolsa.
Com os bolsos cheios de notas e as mentes vazias de bom senso, decidiram que a aldeia já era demasiado pequena para o seu novo estatuto de "empresários do estrume". Fizeram as malas — que consistiam em dois sacos de plástico do supermercado — e apanharam o comboio para a grande cidade.
A chegada à estação central foi um choque cultural. Custódio passou a primeira meia hora a pedir desculpas aos manequins das montras das lojas, achando que eram pessoas muito elegantes e terrivelmente antipáticas que se recusavam a cumprimentá-lo. Baltazar quase foi preso ao tentar tomar banho numa fonte pública no meio de uma praça movimentada, usando um pedaço de sabão azul e uma escova de lavar o chão.
— Custódio, as pessoas aqui são muito evoluídas — observou Baltazar, enquanto olhava para um arranha-céus. — Olha para aquele prédio. Tem tantos andares que os de cima devem viver no céu com os anjos.
— Pois vivem, Baltazar. E aposto que têm de usar paraquedas para ir comprar o pão.
Compraram uma cobertura de luxo num dos bairros mais caros da capital. O agente imobiliário, percebendo que lidava com duas mentes excecionalmente moldáveis, vendeu-lhes o apartamento pelo triplo do preço, convencendo-os de que as tomadas elétricas da casa vinham carregadas com "eletricidade vintage importada de França".
A primeira noite na cidade foi uma comédia de terror. Habituados ao silêncio do campo, o barulho do trânsito aterrorizou-os. Custódio passou a noite debaixo da cama, armado com uma colher de pau, convencido de que os autocarros que passavam na rua eram monstros mecânicos que comiam pessoas. Baltazar, tentando acender o fogão de indução de última geração, acabou por queimar as sobrancelhas porque achou que o aparelho precisava de um fósforo para "perceber quem mandava ali".
Como tinham muito dinheiro e nenhuma ocupação, tornaram-se presença assídua nas festas da alta sociedade. A elite da cidade, sempre à procura de novas excentricidades, achava que Baltazar e Custódio eram dois génios da arte conceptual que fingiam ser idiotas como uma crítica mordaz ao capitalismo moderno.
Num jantar de gala beneficente, Baltazar confundiu uma taça de água com rodelas de limão (destinada a lavar os dedos) com uma sopa exótica. Bebeu-a de um trago e elogiou o cozinheiro pelo "caldo de azedas aguado". Os críticos de gastronomia presentes consideraram o ato uma "performance artística revolucionária contra o desperdício alimentar" e aplaudiram de pé.
Entretanto, Custódio tentava meter conversa com um famoso pintor abstrato. Olhando para uma tela que consistia apenas num quadrado preto sobre fundo branco, Custódio disse com toda a honestidade:
— Olhe, o senhor desculpe, mas a sua televisão está estragada. Só dá a imagem preta. Precisa de uma pancada na lateral.
O pintor, em vez de se ofender, considerou a observação uma análise profunda sobre o vazio da era digital. No dia seguinte, a imprensa cultural escrevia sobre os "novos filósofos do quotidiano urbano".
O sucesso deles atingiu o auge quando decidiram abrir um restaurante. O conceito era simples: eles não sabiam cozinhar nada. O menu consistia em coisas como "massa crua com sal" e "batatas inteiras com casca cozidas na chaleira". Chamaram ao espaço O Erro. Adivinhem? Tornou-se o restaurante mais exclusivo da cidade. As pessoas faziam fila durante meses e pagavam centenas de euros para comer comida horrível, convencidas de que estavam a experienciar o "minimalismo gastronómico punitivo".
Mas a vida na cidade começou a cobrar o seu preço. A tragédia dos idiotas que vencem na vida é que eles, eventualmente, começam a acreditar que são realmente espertos. E foi aí que o castelo de cartas começou a desmoronar.
Baltazar decidiu investir toda a fortuna que tinham acumulado numa nova criptomoeda chamada "Moeda do Burro", criada por um vigarista da internet. Baltazar achou o nome muito familiar e acolhedor. Comprou milhões de moedas digitais. Duas semanas depois, o criador da moeda fugiu para um paraíso fiscal e o investimento passou a valer exatamente zero.
Ao mesmo tempo, Custódio decidiu que queria ser arquiteto. Comprou um terreno na zona ribeirinha e decidiu construir um edifício inovador usando apenas paletes de madeira e fita cola industrial. O edifício, que ele chamou de Torre da Amizade, desabou trinta minutos após a inauguração, felizmente sem ninguém lá dentro, esmagando apenas o carro do presidente da câmara.
Em menos de um mês, a fortuna desapareceu. Os amigos da alta sociedade evaporaram-se. O restaurante O Erro foi fechado pela segurança alimentar, não pela comida má, mas porque encontraram um cavalo vivo na cozinha que Baltazar tinha comprado para "fazer companhia ao frigorífico".
Sentados nos degraus do palacete que já não era deles, com as sobrancelhas de Baltazar finalmente a crescer de volta e Custódio a tentar limpar as lágrimas com uma nota falsa de vinte euros, os dois olharam para a cidade luminosa.
— Custódio — disse Baltazar —, acho que voltámos a ser pobres.
— Somos, Baltazar. Mas fomos os melhores ricos que esta cidade já viu.
Apanharam o comboio de volta para a aldeia na manhã seguinte. Não traziam dinheiro, mas traziam uma máquina de café expresso avariada que Custódio achava que era um robô do futuro. Quando chegaram à sua velha quinta, viram que o monte de estrume tinha crescido novamente.
Baltazar sorriu, pegou no ancinho e disse:
— Olha, Custódio. O nosso banco voltou a abrir as portas.
E assim, os dois maiores estúpidos da história continuaram a sua vida, felizes na sua ignorância, provando que a vida pode ser uma tragédia para quem pensa, mas é uma comédia eterna para quem não faz a menor ideia do que está a fazer.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

o rio que passa debaixo da ponte

O relógio da parede marcava duas da manhã quando o silêncio da sala se tornou pesado demais para ser ignorado. Sentados em pontas opostas do mesmo sofá de linho cinzento, a distância entre a Mariana e o Tiago não se media em centímetros, mas sim em todas as palavras que tinham passado os últimos anos a engolir. Na mesa de centro, duas canecas de chá já frio serviam de barreira psicológica para uma conversa que ambos sabiam ser inevitável, mas que nenhum tinha coragem de começar.
A Mariana olhou para as próprias mãos, reparando em como a sua aliança parecia subitamente mais pesada. Lembrou-se da discussão boba que tinham tido horas antes sobre quem se tinha esquecido de passar no supermercado. Tinha terminado com o Tiago a mandar uma piada azeda sobre a falta de memória dela, seguida de um riso forçado.
— Haverá sempre uma verdade no "estava a brincar" — murmurou ela, quebrando o silêncio. A sua voz foi pouco mais do que um sopro, mas ecoou como um trovão na sala vazia.
O Tiago ergueu os olhos do ecrã do telemóvel, que na verdade nem estava a ler. Olhou para ela com uma expressão de cansaço profundo, as olheiras marcadas pelos meses de noites mal dormidas e de distanciamento emocional. Ele sabia exatamente ao que ela se referia. A verdade oculta nas piadas diárias era o ressentimento acumulado, as pequenas farpas disfarçadas de humor para evitar o confronto direto. Tinham transformado o sarcasmo num escudo protetor.
— Tu sabes que eu não fiz por mal — respondeu ele, a voz rouca. — Eu não sabia que estavas tão sensível com isso esta semana.
A Mariana soltou um riso amargo, balançando a cabeça.
— Há sempre conhecimento por detrás de um "eu não sabia", Tiago. Tu sabias. Sabias porque eu te disse na semana passada, e na outra antes dessa. Nós fingimos que não sabemos para não termos de carregar a culpa de termos falhado com o outro. É mais fácil fingir ignorância do que admitir negligência.
O Tiago engoliu em seco. A acusação doeu porque era verdadeira. Ele lembrava-se perfeitamente do desabafo dela sobre o cansaço no trabalho e a pressão que sentia, mas na altura tinha optado por arquivar essa informação numa gaveta mental para não ter de lidar com a responsabilidade de a apoiar emocionalmente, estando ele próprio exausto. O "eu não sabia" era a sua saída de emergência favorita.
Mudando de posição no sofá, ele aproximou-se alguns centímetros, mas parou quando viu a tensão nos ombros dela.
— Desculpa — disse ele sinceramente. — Eu sei que tenho andado distante. Eu sei que te magoei com a forma como respondi ontem à noite.
— Não faz mal — respondeu ela, de forma automática, quase mecânica.
Mal a frase saiu da sua boca, a Mariana fechou os olhos, arrependida. Era a mentira mais repetida do matrimónio deles.
— Olha para nós — continuou ela, abrindo os olhos cheios de lágrimas. — Há tantas emoções por detrás de um "não faz mal". Quando eu te digo isso, o que realmente quero dizer é que dói tanto que já nem tenho forças para discutir. Quero dizer que estou profundamente desiludida, mas que prefiro engolir o choro a começar uma guerra que sei que nenhum de nós vai ganhar. O "não faz mal" é o funeral de uma expectativa que eu tinha em relação a ti.
O ambiente na sala parecia ter ficado mais frio. Cada camada de proteção que tinham construído ao longo de sete anos de casamento estava a ser descascada, deixando a descoberto as feridas que fingiam não ter. O Tiago estendeu a mão para lhe tocar no joelho, mas a Mariana encolheu-se ligeiramente.
— E como é que nós chegámos a isto? — perguntou ele, sentindo um nó na garganta. — Nós éramos o casal que falava sobre tudo. O que aconteceu com o "podes contar comigo para tudo"? Eu olho para ti e sinto que estás a quilómetros de distância. Tu estás bem, Mariana? Connosco, tu estás mesmo bem?
A Mariana limpou uma lágrima teimosa que insistia em correr-lhe pelo rosto. Respirou fundo, endireitou a postura e forçou um sorriso que não chegou aos olhos.
— Sim. Eu estou bem.
O Tiago cobriu o rosto com as mãos, soltando um suspiro pesado.
— Essa é a maior mentira de todas. Há tanta dor por detrás de um "eu estou bem". Tu dizes que estás bem para me afastar, para não me dares o direito de te consolar, ou talvez porque tens medo de desabar se admitires o tamanho da tua tristeza. E o pior é que eu aceito esse teu "estou bem" porque me convém. Porque se tu estiveres bem, eu não preciso de me mudar. Se tu estiveres bem, o nosso casamento de fachada continua a funcionar.
Ficaram em silêncio durante largos minutos. O som da chuva a bater na janela começou a preencher o vazio da sala. Era o momento da verdade, aquele em que os casais decidem se recolhem os cacos para reconstruir o que sobrou ou se continuam a caminhar sobre o vidro partido até sangrarem por completo.
A Mariana mudou de lugar, sentando-se finalmente perto dele. Pegou na caneca de chá fria e colocou-a no chão, libertando as mãos para segurar as do marido. As mãos dele estavam frias.
— Pensa em quantas vezes dissemos isso um ao outro, Tiago — disse ela, com a voz a tremer, mas convicta. — Pensa nas centenas de vezes em que disfarçámos as nossas verdades em brincadeiras, a nossa negligência em ignorância, a nossa mágoa em tolerância e a nossa dor profunda num simples "estou bem". Criámos um dicionário de mentiras aceitáveis para não destruirmos o que temos, mas acabámos por nos destruir a nós próprios no processo.
O Tiago olhou para as mãos unidas. O calor da pele dela começou a aquecer a sua.
— Eu não quero mais brincar com as verdades, Mariana. E eu sabia... eu sempre soube quando estavas mal, só tive cobardia de enfrentar. Não está tudo bem. E faz mal, faz muito mal estarmos assim.
Aquela admissão crua e desarmada foi o suficiente para que a barreira que os separava desabasse por completo. A Mariana deixou-se cair nos braços dele, chorando o choro que tinha guardado durante meses. O Tiago apertou-a contra o peito, escondendo o rosto no cabelo dela, permitindo-se também chorar a dor de quase ter perdido a mulher que amava para o silêncio.

Não seria uma noite que iria curar os anos de negligência mútua e palavras não ditas. O caminho de volta para a honestidade seria longo, doloroso e exigiria que reaprendessem a falar a língua um do outro sem filtros ou escudos protetores. No entanto, enquanto viam as primeiras luzes do amanhecer entrar pela janela da sala, ambos sabiam que tinham finalmente dado o passo mais importante: tinham deixado de fingir. A partir daquela madrugada, as palavras voltariam a ter o seu real significado.

A primavera tinha finalmente chegado, trazendo consigo a promessa de renovação que a Mariana e o Tiago tanto procuravam. O inverno na cidade tinha sido longo, marcado por conversas difíceis, noites de choro e o desmantelamento doloroso de todas as mentiras que os tinham afastado. Decididos a deixar para trás o peso dos anos de silêncio, escolheram um fim de semana de maio para subir a serra, um lugar onde a natureza parecia saber exatamente como recomeçar.
O carro subia a estrada sinuosa rodeada por encostas verdes e giestas amarelas em flor. As janelas iam abertas, deixando entrar o cheiro a terra molhada e a ar puro da montanha. O silêncio dentro do habitáculo já não era o mesmo daquela madrugada fria na sala de estar; já não era pesado nem carregado de mágoa. Era um silêncio de expectativa, um espaço de respeito onde ambos se permitiam apenas existir, sem a pressão de terem de fingir que tudo estava perfeito.
Quando estacionaram no cimo da rota pedestre, o sol da manhã iluminava o vale lá em baixo. O vento corria suave, agitando as copas das árvores. O Tiago desligou o motor, olhou para a Mariana e sorriu. Havia uma leveza no olhar dele que ela já não via há anos.
— Pronta? — perguntou ele, estendendo a mão no espaço entre os bancos.
A Mariana olhou para a mão dele. Não hesitou. Encaixou os seus dedos nos dele, sentindo o calor familiar que outrora temera ter perdido para sempre .
— Pronta — respondeu com firmeza.
Saíram do carro e começaram a caminhar pelo trilho de terra batida, de mão dada. Aquele gesto, que antes faziam de forma automática ou para mostrar uma fachada social aos outros, agora parecia um contrato renovado a cada passo. Cada dedo entrelaçado carregava a promessa de honestidade. Sentiam o pulsar um do outro, a textura da pele, a firmeza de quem escolheu ficar quando o caminho mais fácil teria sido desistir.
À medida que subiam, a paisagem abria-se diante deles num mar de montanhas que se estendia até ao horizonte. O esforço físico da subida parecia purificador.
— Lembras-te de quando vínhamos aqui no início do namoro? — perguntou o Tiago, quebrando o silêncio com uma voz mansa. — Nós corríamos por estes caminhos sem pensar no amanhã.
A Mariana sorriu, olhando para as flores silvestres que cresciam na berma do trilho.
— Lembro-me. Nós achávamos que o amor era uma linha reta, que bastava gostar um do outro para que tudo funcionasse sozinho. Não sabíamos o trabalho que dava manter o jardim vivo.
— Mas agora sabemos — retorquiu ele, parando a caminhada por um momento para a puxar para mais perto. Olhou-a nos olhos, sem desviar o rosto, enfrentando a vulnerabilidade que outrora o assustava. — E eu prefiro mil vezes este trabalho contigo, com todas as nossas cicatrizes, do que a facilidade de uma vida vazia sem ti.
A Mariana sentiu os olhos humedecerem, mas desta vez não era de dor. Era a emoção de se sentir vista e compreendida por inteiro.
— Eu também, Tiago. Faz mal saber que falhámos tanto tempo, mas cura saber que estamos aqui para consertar.
Continuaram a caminhar, os passos sincronizados com o ritmo dos seus corações revigorados. A terapia de casal dos meses anteriores tinha-lhes ensinado que a reconstrução não significava esquecer o passado, mas sim aprender a olhar para ele sem deixar que o mesmo ditasse o futuro. Significava substituir as velhas frases de escape — as brincadeiras com verdade, os "não sabia", os "não faz mal" e os "estou bem" — por perguntas reais e respostas sinceras, por mais que estas pudessem magoar no momento.
Chegaram ao topo da serra a meio da tarde, onde um antigo miradouro de pedra oferecia uma vista panorâmica de cortar a respiração. Sentaram-se numa rocha aquecida pelo sol primaveril. O Tiago abraçou-a por trás, envolvendo-a nos seus braços, enquanto a Mariana encostava a cabeça no peito dele, ouvindo o bater compassado do seu coração.
Ali, no topo do mundo, rodeados pela força daquela estação que insiste em florescer mesmo depois do inverno mais rigoroso, eles perceberam que a verdadeira viagem não tinha sido a subida àquela serra, mas sim o caminho de volta um para o outro. Sabiam que haveria dias difíceis pela frente, que a rotina na cidade tentaria novamente impor os seus velhos hábitos de isolamento e que a reconstrução era um trabalho diário.
No entanto, o medo tinha desaparecido. Agarrados um ao outro, com as mãos firmemente unidas, sabiam que tinham encontrado o chão seguro que lhes permitiria enfrentar qualquer tempestade. Eles escolheram continuar a viver juntos, não por obrigação, costume ou conveniência, mas pela certeza absoluta de que as suas vidas faziam mais sentido quando partilhadas.