segunda-feira, 7 de setembro de 2026

hà 4 anos...

 

A Sala de Espera e o Silêncio Inicial...

O relógio de parede da sala de espera emitia um som compassado, quase hipnótico. Cada tique-taque parecia dilatar o tempo, transformando minutos em horas. Sentado na cadeira de estofos gastos, olhava para as minhas próprias mãos, procurando nelas uma resposta para a inquietação que me trouxera até ali. A porta de madeira maciça abriu-se com um rangido suave. A minha psicóloga surgiu à entrada, com o habitual olhar sereno que, de alguma forma, conseguia desarmar as minhas defesas antes mesmo de eu me sentar no divã. Ela cumprimentou-me com um aceno subtil e indicou-me o caminho para a sala. O ambiente era acolhedor, iluminado por uma luz quente que contrastava com o cinzento dos meus pensamentos. Sentia o peso dos dias acumulados nos ombros, uma bagagem invisível mas esmagadora que finalmente teria de abrir e examinar.

Ela sentou-se na sua cadeira de pele, abriu o bloco de notas sobre os joelhos e segurou a caneta. Olhou-me nos olhos, não de forma inquisitória, mas com uma curiosidade genuína e compassiva. O silêncio instalou-se entre nós durante alguns segundos, um espaço seguro onde as palavras não precisavam de ser apressadas. Eu sabia que aquele era o momento de começar, mas a minha garganta parecia travada por um nó de emoções não ditas. Percebendo a minha hesitação, ela respirou fundo, inclinou-se ligeiramente para a frente e quebrou o gelo com a primeira pergunta, desfazendo a névoa que pairava na sala.

A voz dela era calma, uma âncora no meio da minha tempestade mental. A primeira questão não foi sobre os meus problemas diários ou sobre o cansaço do trabalho, mas sim algo que me obrigou a recuar no tempo e a escavar nas minhas memórias mais profundas. Ela perguntou:

— Quando foi a última vez que te sentiste feliz?

A pergunta ecoou nas paredes da sala e, mais ainda, na minha mente. Fiquei em silêncio, a tentar encontrar um momento, um único instante em que a felicidade não tivesse sido apenas a ausência de dor, mas sim uma presença real e vibrante. Lembrei-me de sorrisos antigos, de tardes de sol que já pareciam pertencer a outra vida, e percebi quão focado tinha estado na sobrevivência emocional, esquecendo-me do que era realmente viver.

Antes que eu pudesse formular uma resposta completa, ou talvez percebendo que a resposta à felicidade estava intrinsecamente ligada às minhas relações mais profundas, ela mudou o rumo da conversa. O seu olhar tornou-se ainda mais atento, captando a vibração da minha postura. Com uma suavidade que não retirava o peso à pergunta, ela questionou:

— Quando foi a última vez que amaste uma mulher?

Senti o meu peito apertar-se. Amar alguém exige uma vulnerabilidade que eu tinha tentado trancar a sete chaves. Imagens de rostos do passado, de promessas feitas à meia-noite e de despedidas dolorosas cruzaram-se no meu pensamento. Responder àquela pergunta significava admitir se o meu coração ainda estava vivo ou se se tinha transformado numa fortaleza de pedra para evitar novas feridas.

A psicóloga anotou algo no seu bloco, o som da caneta contra o papel era o único ruído na sala. Ela não demonstrou julgamento, apenas uma paciência infinita. Olhou para mim novamente, percebendo o impacto das suas palavras anteriores, e continuou a explorar o labirinto dos meus sentimentos, lançando novas perguntas que abriram mais portas na minha mente:

— O que confundes com amor no teu dia a dia? Será que confundes a necessidade de companhia com o sentimento real? O que te impede de te entregares totalmente a outra pessoa hoje em dia? É o medo da rejeição ou o medo de te perderes a ti mesmo no processo?

As perguntas sucediam-se como espelhos colocados à minha frente, obrigando-me a olhar para ângulos mortos da minha personalidade que eu preferia ignorar.

A sessão avançava e a atmosfera tornava-se mais densa, mas também mais libertadora. Era como se estivéssemos a retirar camadas de uma armadura velha e ferrugenta. Ela recostou-se na cadeira, pensativa, e abordou a forma como eu geria a minha solidão e a minha dor, perguntando:

— Quando o silêncio do teu quarto se torna insuportável, o que fazes para não sintonizares os teus próprios pensamentos? Que distrações crias para evitar olhar para dentro de ti? Quando foi a última vez que choraste sem sentires vergonha ou necessidade de pedir desculpa por estares a sofrer?

Cada palavra dela tocava numa ferida aberta, mas não para causar dor, e sim para permitir que ela finalmente cicatrizasse.

Percebi que muitas das minhas respostas iam dar ao mesmo lugar: ao ontem. Ao que ficou por dizer, ao que ficou por resolver. A psicóloga, mestre em ler as entrelinhas do meu discurso, apontou a caneta na minha direção de forma suave e questionou:

— Quem é a pessoa no teu passado a quem ainda tentas provar o teu valor, mesmo que ela já não faça parte da tua vida? Que conversas imaginárias continuas a ter na tua cabeça quando estás sozinho no carro ou antes de adormecer? O que precisas de perdoar em ti mesmo para deixares de carregar o peso dos erros dos outros?

O cansaço físico começou a manifestar-se; a catarse emocional consome energia real. Senti os meus olhos humedecerem, mas pela primeira vez em muito tempo, não tentei disfarçar.

Aproximando-se o final do tempo estipulado, a abordagem dela mudou. Passámos do diagnóstico do passado para a projeção do amanhã. Ela pousou o bloco de notas na mesa de apoio, olhou-me com um sorriso encorajador e fez as últimas perguntas daquela consulta:

— Se o medo deixasse de ser o teu conselheiro principal a partir de amanhã, qual seria a primeira decisão que tomarias? Como seria a tua vida se te permitisses ser amado exatamente como és, com todas as tuas falhas e imperfeições? O que vais fazer com o espaço que vai ficar livre quando finalmente decidires largar estas mágoas?

As perguntas não exigiam respostas imediatas; eram sementes plantadas para os dias que se seguiriam.

O som suave do alarme do relógio dela indicou o fim da sessão. Respirei fundo, sentindo um alívio estranho, como se tivesse deixado uma tonelada de pedras naquela sala. Levantei-me, os meus passos pareciam mais leves no tapete. Agradeci-lhe com um aceno de cabeça. Ela retribuiu o gesto, sabendo que o verdadeiro trabalho começava agora, fora daquelas quatro paredes. Ao abrir a porta e sair para a rua, o ar fresco da tarde bateu-me no rosto. O mundo continuava igual, com o seu trânsito e a sua pressa, mas eu já não era exatamente o mesmo. Levava comigo um caderno cheio de perguntas invisíveis e a certeza de que, para voltar a amar e a ser feliz, teria primeiro de aprender a responder a cada uma delas sem mentir a mim próprio.



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