O vento de janeiro batia nas vidrasças da casa de xisto com a força cega que só o interior profundo de Portugal conhece. Lá dentro, o calor vinha da lareira e das palavras de António. Sentado na cadeira de vime que ele próprio consertara, o velho olhava para as mãos calosas. Aquelas mesmas mãos tinham gerido centenas de hectares de terra vermelha na província do Cuanza Sul. Ali, na roça de café que o vira prosperar, António fora um homem de posses. Tinha o respeito dos locais, o chilreio dos pássaros tropicais ao amanhecer e uma fortuna que parecia tão sólida como as acácias que ladeavam a picada. Mas o ano de 1975 trouxera a urgência da partida. A descolonização e a iminência da guerra reduziram uma vida inteira ao volume de duas malas de cartão e ao desespero de um cais de embarque em Luanda.
sexta-feira, 22 de maio de 2026
a seara da vida
o caminho da sorte grande
A estrada de asfalto estendia-se à frente, iluminada apenas pelos faróis do carro e pelo brilho intermitente dos postes de luz. Mariana mantinha os olhos fixos na via, as duas mãos firmes no volante, concentrada no caminho, mas com a mente longe. Ao seu lado, no banco do passageiro, o Pedro olhava-a de perfil, admirando a forma como o reflexo do painel desenhava os contornos do seu rosto. O silêncio no habitáculo era confortável, preenchido apenas pelo som suave do motor e por uma música antiga que passava na rádio. De repente, sem aviso, o Pedro estendeu a mão esquerda e posou-a suavemente sobre a coxa de Mariana.
— Lá estás tu com a tua mania!!! — exclamou Mariana, fingindo uma irritação que o sorriso no canto dos lábios desmentia.
Pedro não retirou a mão; em vez disso, moveu os dedos num aperto leve, rindo baixinho antes de responder com a sua habitual honestidade desarmante.
— Gosto de ti e gosto tanto de te apalpar, que queres que faça? — riu ele, olhando-a nos olhos quando ela desviou o olhar da estrada por um segundo.
— Tu não tens emenda, Pedro. Estamos a meio de uma autoestrada e tu continuas o mesmo atrevido de sempre — disse ela, abanando a cabeça.
— E tu continuas a fingir que não gostas, Mariana. Já nos conhecemos há tempo demais para caíres nessa personagem.
— Como me haveria de esquecer? Ficámos sem bateria no meio da serra, com um frio de rachar — respondeu Mariana, soltando uma gargalhada genuína.
— Estávamos congelados, mas a verdade é que o aquecimento do carro não nos fez falta nenhuma depois de começarmos a conversar.
— Conversar? Tu chamas aquilo conversar? — provocou ela, lançando-lhe um olhar de soslaio cheio de cumplicidade.
— Bem, começámos por falar da vida, mas depois os teus lábios estavam demasiado perto e o resto aconteceu naturalmente.
— É porque ninguém te conhece as manhas como eu, Pedro — retorquiu ela, embora o tom tivesse perdido a ironia, tornando-se suave.
— Não é só isso. É a pele. É a forma como a tua boca encaixa na minha, como se tivéssemos sido feitos sob medida.
— Tu tens sempre uma teoria romântica para justificar a tua falta de vergonha.
— Não é teoria, Mariana. É a história da nossa vida. Nós tentamos fugir, mas o corpo lembra-se sempre de tudo.
— Gosto das tuas carícias no meu corpo, adoro a tua língua atrevida na minha "pardaleca", fazes-me vir mesmo sem sexo rapazinho!!! — atirou ela, com uma honestidade crua que fez o sorriso de Pedro rasgar-se de orelha a orelha, orgulhoso do poder implacável que a sua intimidade tinha sobre ela.
— Eu também penso, Pedro. Muito mais vezes do que devia — admitiu Mariana, a voz quase num sussurro, rendendo-se à verdade.
— O quarto era pequeno, mas parecia que o mundo inteiro se resumia àquela cama e ao teu corpo em cima do meu.
— Tu eras insaciável naquele dia. Acho que tentámos recuperar o tempo perdido de um ano inteiro em poucas horas.
— E conseguimos. Cada toque teu na minha pele deixava uma marca que o tempo nunca conseguiu apagar de verdade.
— Se for um erro, é o erro mais bonito e certo da minha vida — respondeu ela, desviando os olhos por um segundo para lhe somrir.
— Nós nunca funcionámos como namorados, a rotina ia matar isto que temos. Nós somos feitos de momentos, de frentes e de fugas.
— Eu sei. Mas a verdade é que, quando estou contigo, sinto que não preciso de fingir nada. Tu conheces-me os avessos.
— Conheço cada milímetro do teu corpo e cada segredo da tua mente, Mariana. E amo tudo isso.
— Sei. Sei que quando formos velhos e tivermos as cabeças cheias de brancos, ainda me vais apalpar e eu ainda vou reclamar...Misericordia!!!
— Com toda a certeza. Vou continuar a dizer-te que gosto de ti e que o teu corpo é o meu lugar favorito no mundo, e que foste ,és e seràas sempre o meu nico amor!
— Tu não tens mesmo emenda... — disse Mariana, mas desta vez pegou na mão direita e largou o volante por um segundo para entrelaçar os dedos nos dele.
A viagem continuava pela noite dentro, com a estrada a perder-se no horizonte, mas para os dois, o destino já tinha sido alcançado ali dentro. A viagem continuou e nos silencios disseram tantas coisas um para o outro.
quinta-feira, 21 de maio de 2026
pao quente todos os dias
O despertador de Afonso tocava diariamente às quatro da manhã, um eco estridente que marcava o início da sua jornada de sacrifício. Afonso era um homem de constituição robusta, mãos calejadas pelo cimento e uma alma inteiramente dedicada ao altar do seu casamento. Para ele, o mundo resumia-se a Maria das Dores, a sua carinhosa esposa, cujo sorriso considerava o farol da sua existência. Trabalhava catorze horas por dia nas obras, carregando sacos de cimento que pareciam pesar menos que o amor que sentia. Cada gota de suor derramada sob o sol ardente tinha um propósito claro: garantir que nada faltasse à sua rainha. Em termos financeiros e materiais, Maria das Dores vivia num pedestal de conforto que poucas mulheres do bairro podiam ostentar.
o cruzado da ordem de cristo
O sol de Tomar dourava a arena poeirenta onde o destino de Martim se decidiria sob o olhar tenso da corte e a ansiedade secreta de Leonor. O seu rival, Afonso de Albuquerque, avançou a galope num cavalo negro, a lança apontada ao peito de Martim com o único propósito de o eliminar e reclamar a mão da jovem. No momento do impacto, a Cruz de Cristo desenhada no escudo de Martim brilhou com uma grandiosidade monumental, refletindo um feixe de luz tão intenso que cegou momentaneamente o rival. A lança de Afonso falhou o alvo por milímetros, estilhaçando-se contra a madeira sagrada, enquanto Martim, com a precisão de um atleta de elite moderno e a força de um guerreiro medieval, desferiu o golpe certeiro que derrubou o adversário na terra.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
e se a lenda fosse no seculo XXI
O ecrã do telemóvel de Pedro iluminou-se às duas da manhã com uma notificação no Instagram que mostrava uma nova mensagem direta de uma conta privada, @ines_de_castro, cuja fotografia de perfil revelava uns olhos profundos emoldurados por um cabelo escuro que caía sobre os ombros de forma desordenada mas elegante, dizendo que o Porto ficava mais bonito visto de Gaia mas que a vista daquele rooftop em Lisboa superava tudo, o que fez Pedro sorrir enquanto encostava a cabeça na cabeceira da sua cama em Cascais.
Pedro não era um jovem qualquer, mas sim o herdeiro da Alfeizerão & Castro Associados, um dos maiores impérios financeiros e imobiliários da Península Ibérica gerido pelo seu pai, Afonso, um homem implacável que já tinha planeado o futuro do filho ao milímetro através de um casamento de conveniência com Constança, herdeira de um banco espanhol, para consolidar a maior fusão da década.
Pedro nunca quisera aquele guião e a resposta àquela mensagem mudaria tudo, levando-os a conhecerem-se pessoalmente numa galeria de arte no Chiado onde Inês trabalhava como curadora independente, uma jovem vinda da Galiza para estagiar, sem apelidos sonantes ou fundos de investimento mas com uma presença que preenchia qualquer espaço vazio. Quando os olhos de Pedro cruzaram os de Inês, o ruído dos copos de champanhe e as conversas fúteis da elite lisboeta desapareceram e os dois passaram a noite a conversar num canto recôndito, longe dos fotógrafos, descobrindo que partilhavam o mesmo desdém pelas aparências e o mesmo amor por livros antigos e música alternativa.
O romance floresceu rapidamente, alimentado por mensagens encriptadas no WhatsApp, jantares escondidos em pequenos restaurantes de Alfama e fins de semana passados numa casa de campo isolada em Coimbra, longe dos olhares vigilantes dos seguranças do pai de Pedro.
Não demorou muito para que a imprensa cor-de-rosa começasse a partilhar fotografias tremidas do casal à saída de um café e a reação de Afonso foi imediata e violenta, confrontando o filho numa reunião privada no topo da torre de vidro da empresa para lhe dizer que aquela rapariga era uma distração que ia arruinar as negociações com os espanhóis, ao que Pedro respondeu com firmeza que não amava Constança e que os mercados não geriam a sua vida.
Desesperado por proteger Inês das ameaças do pai, Pedro comprou uma propriedade moderna de linhas minimalistas nos arredores de Coimbra, rodeada por árvores seculares e fontes de água pura que os locais chamavam de Quinta das Lágrimas, e foi ali que decidiram viver a sua verdade, longe do mediatismo de Lisboa, onde tiveram filhos e criaram memórias num silêncio que serviu de escudo perfeito durante algum tempo.
Mas no século XXI o isolamento é uma ilusão e o casamento forçado de Pedro com Constança acabou por falhar antes sequer de começar, gerando prejuízos milionários para a empresa de Afonso, o que levou os conselheiros do patriarca, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes, a verem em Inês a causa da ruína financeira do grupo. Numa tarde chuvosa de janeiro, aproveitando que Pedro estava em Madrid para tentar salvar um contrato internacional, Afonso e os seus advogados executaram um plano cruel baseado em burocracia, chantagem e destruição digital, inundando as redes sociais com campanhas de difamação contra Inês e congelando as suas contas bancárias através de ordens judiciais de expulsão baseadas em vistos falsificados pela própria equipa jurídica da empresa.
Quando os capangas corporativos entraram pela Quinta das Lágrimas adentro para a confrontar, Inês percebeu que o seu mundo tinha sido digital e financeiramente aniquilado e o desespero daquela perseguição implacável quebrou-lhe o espírito, fazendo com que o seu coração cedesse à pressão extrema daquela emboscada psicológica enquanto o chão da quinta recolhia as suas últimas lágrimas.
Quando Pedro aterrou em Lisboa e viu as notícias no ecrã do telemóvel, o seu mundo ruiu e a dor transformou-se instantaneamente numa raiva fria e calculista que o levou a usar todas as armas tecnológicas do século XXI para se vingar através de ataques informáticos sistemáticos que expuseram os segredos financeiros, as contas na Suíça e as fraudes fiscais de Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes, destruindo as suas vidas públicas e enviando-os para prisões de alta segurança.
O próprio pai foi afastado do conselho de administração numa tomada de controlo hostil liderada pelo filho, acabando os seus dias isolado numa vivenda na Quinta da Marinha, enquanto Pedro assumia a presidência da empresa e, no dia da sua tomada de posse oficial transmitida em direto para milhões de investidores em todo o mundo, subia ao palco vestido de luto rigoroso com uma fotografia gigante de Inês no ecrã atrás de si.
No seu discurso, Pedro declarou que todos os projetos imobiliários e fundações do grupo passariam a ter o nome de Inês de Castro, obrigando os acionistas, os políticos e a alta sociedade que a tinham rejeitado a assinar contratos sob o olhar da fotografia dela, coroando-a digitalmente como a rainha do seu império e provando que nem o tempo, nem a morte, nem a crueldade do mundo moderno seriam capazes de apagar o amor que nasceu de uma simples mensagem na noite de Lisboa.
terça-feira, 19 de maio de 2026
diabo seja cego,surdo e mudo!!!
O plano para assaltar o Banco Central de Vila Pouca tinha tudo para ser perfeito, não fossem três pequenos detalhes: o Fiat 127 amarelo-torrado com um letreiro cromado a dizer TURBO estacionado à porta, a total falta de coordenação da quadrilha e o azar geográfico.
— Oh Manel, tiveste f-f-paciência para vir de tão longe? — brincava outro.
segunda-feira, 18 de maio de 2026
longa é a estrada verde
Se encontrares um homem com poucos amigos ou com um círculo muito pequeno de referências, não cometas o erro de o considerar um sinal de alerta, pois estás perante alguém que alcançou o verdadeiro autodomínio.
Este homem prefere claramente a qualidade à quantidade e não precisa de audiências baratas para que os outros vejam as suas vitórias.
A sua confiança vem inteiramente de dentro, permitindo-lhe caminhar sem a necessidade de seguir o padrão que todos os outros seguem cegamente.
Ele é aquela ovelha negra do rebanho que se destaca por ser especial, embora a maioria das pessoas nem sequer repare na sua presença discreta.
Sem qualquer medo de estar ou de viver sozinho, ele rejeita frontalmente a aprovação social e segue apenas o que a sua própria mente lhe indica. Esta independência torna-o profundamente forte, uma fortaleza que ele não sente necessidade de demonstrar a ninguém, por vezes nem a ele mesmo.
Diante do fracasso, este homem não se autodestrói; pelo contrário, ele analisa os erros friamente, aprende a lição e volta a executar a tarefa com mais força. Ele gerencia a sua energia de forma extremamente seletiva, tratando aqueles que fazem parte do seu mundo não como troféus de exibição, mas como pessoas que realmente merecem pertencer ao seu círculo restrito.
Na perspetiva dos relacionamentos amorosos, esta seletividade transforma-o num parceiro de uma lealdade inabalável. Quem entra na sua vida não serve para preencher carências ou para ser exibido como um acessório social.
Ele não procura uma parceira para se sentir completo, mas sim alguém que saiba caminhar ao seu lado em equilíbrio. Por ser imune a jogos emocionais e carências infantis, ele oferece uma ligação madura, segura e livre de superficialidades.
O drama é algo de que ele foge ativamente, pois dedicou anos a construir uma vida com balanço e equilíbrio, assente tijolo após tijolo. Sabendo o preço exato que pagou por essa fundação, ele protege a paz da sua relação e não deixa absolutamente ninguém — nem influências externas, nem conflitos banais — estragar o que tanto lhe custou a erguer.
No final, ele nunca precisa de se sentir completo rodeado de gente, porque o seu autocontrolo e a sua clareza mental são suficientes para saber, a cada passo, qual é o melhor caminho a seguir ao lado de quem escolheu amar.