terça-feira, 19 de maio de 2026

diabo seja cego,surdo e mudo!!!

 O plano para assaltar o Banco Central de Vila Pouca tinha tudo para ser perfeito, não fossem três pequenos detalhes: o Fiat 127 amarelo-torrado com um letreiro cromado a dizer TURBO estacionado à porta, a total falta de coordenação da quadrilha e o azar geográfico.

Os criminosos eram Toninho, o estrábico que apontava para o teto e olhava para o chão; Zico, o mudo que comunicava por mímica frenética; e Manel, o gago encarregue de gritar as ameaças. Para evitar repercussões, conduziram 50 quilómetros para longe da sua aldeia natal, convictos de que ninguém os reconheceria.
Entraram no banco de rompante. Toninho pontapeou a porta de vidro com força. Zico gesticulou violentamente no ar, imitando uma metralhadora. Manel respirou fundo, encheu o peito de ar e gritou:
— E-e-e-e-e… e-e-e-e-e…
O banco estava completamente cheio. Na fila dos depósitos, fez-se um silêncio absoluto. Todos olharam para os três homens de passa-montanhas.
— …e-e-este é u-u-um a-a-assalto! — conseguiu finalmente berrar Manel, já vermelho e sem fôlego.
Antes que alguém pudesse entrar em pânico, uma voz vinda do balcão da gerência quebrou o gelo:
— Manel? Manelito, és tu, pá? Reconheço essa gaguez em qualquer lado!
Manel congelou. Era o Senhor Antunes, o mecânico da sua rua.
— S-S-S-Senhor A-Antunes?! O que f-f-faz aqui? — perguntou Manel, baixando a caçadeira.
— Vim abrir uma conta poupança para o meu neto, homem! E o que é que tu estás a fazer com uma meia de senhora na cabeça? Estás maluco?
Nisto, Toninho assumiu o comando da situação. Apontou o seu revólver firmemente para o canto superior direito da sala e gritou:
— Ninguém se mexe ou este gajo do meio leva um tiro!
A Dona Lurdes, a vizinha do rés-do-chão do Toninho que por acaso estava na fila do multibanco, suspirou e deu um passo em frente.
— Oh Toninho, estás a apontar para o ar condicionado, meu nabo. Olha para mim quando falas! E já agora, avisa a tua mãe que o gato dela voltou a urinar nos meus vasos.
Toninho, confuso com o seu próprio campo de visão, tentou corrigir a mira, acabando por apontar a arma para o próprio pé.
Desesperado com o amadorismo dos companheiros, Zico, o mudo, saltou para cima do balcão principal. Começou a bater no peito como um gorila, apontou para o cofre e depois fez o gesto de enfiar notas nos bolsos, enquanto emitia sons guturais: "Ugh! Ugh! Brrrr!"
Do outro lado do balcão, a funcionária que atendia ao público olhou fixamente para as calças de fato de treino de Zico, que tinham um remendo verde em forma de sapo no joelho.
— Zico? Sou a tua prima prima de segundo grau, a prima Carla! — exclamou a funcionária, lavada em lágrimas de riso. — O que é isto? O teu pai sabe que andas nestas vidas? Ele disse-me que estavas a tirar um curso de jardinagem!
Zico parou a mímica a meio. Levou a mão à testa, desolado, e fez um gesto com os dedos indicando que estava "completamente lixado".
O banco, que devia ser um cenário de terror, transformou-se instantaneamente numa autêntica reunião de condomínio da aldeia. Descobriu-se que metade da população da terra natal dos assaltantes tinha ido àquela cidade específica para a feira anual do queijo.
— Olha o Toninho! — dizia um senhor idoso ao fundo. — Dá um abraço ao teu tio, pá!
— Oh Manel, tiveste f-f-paciência para vir de tão longe? — brincava outro.
Humilhados, sem um único cêntimo nos bolsos e com as identidades totalmente reveladas, os três decidiram abortar a missão.
— V-V-V-Vamos em-em-embora! — ordenou Manel.
Saíram a correr pela porta fora, perseguidos pelas gargalhadas dos reféns. Saltaram para dentro do Fiat 127 amarelo. Toninho sentou-se ao volante, mas como olhava para o lado errado, quase engatou a marcha-atrás. Zico esmurrava o tablier de frustração e Manel gritava:
— D-D-Dá-lhe g-g-gás, T-Toninho! Ativa o T-T-TURBO!
Toninho pregoou o acelerador a fundo. O motor de 900 centímetros cúbicos do Fiat 127 soltou uma nuvem de fumo negro tão densa que cobriu a rua inteira, fazendo um ruído que parecia uma batedeira velha a morrer. O carro arrancou a uns impressionantes 30 km/h, deixando para trás um rasto de óleo e uma plateia de conhecidos à porta do banco, a acenar e a desejar-lhes uma boa viagem de regresso a casa.

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