sexta-feira, 22 de maio de 2026

o caminho da sorte grande

 A estrada de asfalto estendia-se à frente, iluminada apenas pelos faróis do carro e pelo brilho intermitente dos postes de luz. Mariana mantinha os olhos fixos na via, as duas mãos firmes no volante, concentrada no caminho, mas com a mente longe. Ao seu lado, no banco do passageiro, o Pedro olhava-a de perfil, admirando a forma como o reflexo do painel desenhava os contornos do seu rosto. O silêncio no habitáculo era confortável, preenchido apenas pelo som suave do motor e por uma música antiga que passava na rádio. De repente, sem aviso, o Pedro estendeu a mão esquerda e posou-a suavemente sobre a coxa de Mariana.

Ela sentiu o calor da palma dele através do tecido das calças e, embora o seu coração tivesse acelerado, tentou manter a voz firme.
— Lá estás tu com a tua mania!!! — exclamou Mariana, fingindo uma irritação que o sorriso no canto dos lábios desmentia.
Pedro não retirou a mão; em vez disso, moveu os dedos num aperto leve, rindo baixinho antes de responder com a sua habitual honestidade desarmante.
— Gosto de ti e gosto tanto de te apalpar, que queres que faça? — riu ele, olhando-a nos olhos quando ela desviou o olhar da estrada por um segundo.
— Tu não tens emenda, Pedro. Estamos a meio de uma autoestrada e tu continuas o mesmo atrevido de sempre — disse ela, abanando a cabeça.
— E tu continuas a fingir que não gostas, Mariana. Já nos conhecemos há tempo demais para caíres nessa personagem.
Aquela viagem não era apenas uma deslocação física entre duas cidades; era uma travessia direta para o baú das memórias que partilhavam. Eles não eram namorados, nunca tinham conseguido rotular o que os unia, mas a cumplicidade que os ligava ignorava qualquer definição formal. Havia sim, muito, muito AMOR. 
O passado deles era uma teia complexa de momentos partilhados, onde a paixao, a amizade, a complicidade e o desejo se misturavam de forma indissociável. 
Pedro manteve os dedos a acariciar a perna dela, subindo um pouco, testando os limites como sempre fizera ao longo dos anos. Mariana suspirou, uma rendição silenciosa ao toque que conhecia melhor do que o de qualquer outra pessoa no mundo.
— Lembras-te daquela viagem a Sintra, há cinco anos? — perguntou Pedro, mudando o tom para algo mais nostálgico.
— Como me haveria de esquecer? Ficámos sem bateria no meio da serra, com um frio de rachar — respondeu Mariana, soltando uma gargalhada genuína.
— Estávamos congelados, mas a verdade é que o aquecimento do carro não nos fez falta nenhuma depois de começarmos a conversar.
— Conversar? Tu chamas aquilo conversar? — provocou ela, lançando-lhe um olhar de soslaio cheio de cumplicidade.
— Bem, começámos por falar da vida, mas depois os teus lábios estavam demasiado perto e o resto aconteceu naturalmente.
As memórias dos beijos daquela noite invadiram o espaço do carro, tornando o ar subitamente mais denso e quente. Mariana lembrou-se perfeitamente da urgência daqueles beijos, do sabor a chuva e a café que partilhavam enquanto o vidro do carro embaciava. Não eram beijos calmos de um casal rotineiro; eram beijos famintos, carregados de uma eletricidade que se acumulava durante meses de ausência. Cada beijo trocado entre os dois trazia sempre o peso de tudo o que sentiam e nunca verbalizavam completamente. Pedro apertou um pouco mais a perna de Mariana, como se quisesse garantir que ela estava a reviver o mesmo cenário na sua mente.
— Aqueles beijos na serra... — murmurou Pedro, a voz agora mais grave. — Nunca mais encontrei ninguém que beijasse como tu.
— É porque ninguém te conhece as manhas como eu, Pedro — retorquiu ela, embora o tom tivesse perdido a ironia, tornando-se suave.
— Não é só isso. É a pele. É a forma como a tua boca encaixa na minha, como se tivéssemos sido feitos sob medida.
— Tu tens sempre uma teoria romântica para justificar a tua falta de vergonha.
— Não é teoria, Mariana. É a história da nossa vida. Nós tentamos fugir, mas o corpo lembra-se sempre de tudo.
Mariana sentiu um arrepio intenso correr-lhe a espinha com as palavras dele, e a pressão da mão na sua coxa fê-la quebrar a postura defensiva. Olhou-o de relance, com os olhos brilhantes de desejo, e confessou sem rodeios:
— Gosto das tuas carícias no meu corpo, adoro a tua língua atrevida na minha "pardaleca", fazes-me vir mesmo sem sexo rapazinho!!! — atirou ela, com uma honestidade crua que fez o sorriso de Pedro rasgar-se de orelha a orelha, orgulhoso do poder implacável que a sua intimidade tinha sobre ela.
— Estas a esquecer duma parte do teu corpo que eu adoro! disse Pedro
— Ah pois...jà cà faltava! disse Mariana.
— Adoro o teu rabo! adoro apalpà-lo, adoro sentir a textura da pele, gosto do sabor! Eu sei que tu nao gostas...mas eu sou um doido!
— Tanto bom rapazinho por ai...e saiu-me este cromo maluco! disse Mariana sorridente.
E o corpo lembrava-se, de facto, de todas as vezes em que a amizade tinha dado lugar ao sexo mais puro e intenso. Lembraram-se, sem precisarem de dizer as palavras em voz alta, daquela tarde num hotel improvisado no Porto, onde as barreiras caíram por completo. O sexo entre eles nunca fora apenas uma questão de prazer físico; era uma forma de comunicação onde as palavras falhavam. 
Era a entrega total de duas pessoas que se amavam profundamente, mas que o destino teimava em manter em caminhos paralelos. Naquela tarde, o suor, os gemidos baixos e o toque das mãos que procuravam sintonizar-se tinham selado um pacto invisível entre os dois.
— Às vezes dou por mim a pensar naqueles dias no Porto — confessou Pedro, quebrando o silêncio que se instalara.
— Eu também penso, Pedro. Muito mais vezes do que devia — admitiu Mariana, a voz quase num sussurro, rendendo-se à verdade.
— O quarto era pequeno, mas parecia que o mundo inteiro se resumia àquela cama e ao teu corpo em cima do meu.
— Tu eras insaciável naquele dia. Acho que tentámos recuperar o tempo perdido de um ano inteiro em poucas horas.
— E conseguimos. Cada toque teu na minha pele deixava uma marca que o tempo nunca conseguiu apagar de verdade.
Mariana engoliu em seco, sentindo a humidade crescer entre as pernas com a crueza daquelas recordações tão vivas. A mão de Pedro subiu mais um pouco, encontrando a curva interna da sua coxa, exercendo uma pressão suave que a fez estremecer levemente. Ela não o travou; a sensação daquela mão firme era o porto seguro que ela sempre procurava quando o mundo parecia confuso. O sexo que partilharam no passado não fora um erro de percurso, mas sim a expressão máxima de um amor que se recusava a morrer. Era a certeza de que, independentemente de quem passasse pelas suas vidas, o lugar de um no outro estava guardado.
— Achas que o que nós temos é um erro? — perguntou Pedro, olhando para o perfil focado de Mariana.
— Se for um erro, é o erro mais bonito e certo da minha vida — respondeu ela, desviando os olhos por um segundo para lhe somrir.
— Nós nunca funcionámos como namorados, a rotina ia matar isto que temos. Nós somos feitos de momentos, de frentes e de fugas.
— Eu sei. Mas a verdade é que, quando estou contigo, sinto que não preciso de fingir nada. Tu conheces-me os avessos.
— Conheço cada milímetro do teu corpo e cada segredo da tua mente, Mariana. E amo tudo isso.
A palavra "amor" ecoou no interior do veículo, não como uma promessa de casamento ou de um futuro partilhado num lar comum. Era o reconhecimento de um amor que permanece, imutável, resistindo à distância, aos desencontros e aos anos que insistiam em passar. O amor deles era livre de cobranças, livre de ciúmes mesquinhos, mas profundamente enraizado nas almas de ambos. Sabiam que podiam passar meses sem se falar, mas basta um olhar, um encontro casual ou uma viagem como aquela para que tudo regressasse. O sentimento que os unia era eterno porque não dependia de condições para existir; simplesmente era.
— Tu sabes que isto vai ser para sempre, não sabes? — perguntou Pedro, deslizando a mão até ao joelho e depois subindo novamente.
— Sei. Sei que quando formos velhos e tivermos as cabeças cheias de brancos, ainda me vais apalpar e eu ainda vou reclamar...Misericordia!!!
— Com toda a certeza. Vou continuar a dizer-te que gosto de ti e que o teu corpo é o meu lugar favorito no mundo, e que foste ,és e seràas sempre o meu nico amor!
— Tu não tens mesmo emenda... — disse Mariana, mas desta vez pegou na mão direita e largou o volante por um segundo para entrelaçar os dedos nos dele.
A viagem continuava pela noite dentro, com a estrada a perder-se no horizonte, mas para os dois, o destino já tinha sido alcançado ali dentro. A viagem continuou e nos silencios disseram tantas coisas um para o outro.

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