segunda-feira, 11 de maio de 2026

janelas e um abismo

 Esta é a continuação do abismo de Alice e Bento, onde o amor deixou de ser uma valsa e passou a ser um combate.

O quarto deles cheirava a ferro e a fumo. Não era um amor de carícias suaves; era um amor de carne sofrida, onde cada toque deixava uma marca e cada beijo parecia uma tentativa de arrancar a alma pelo fôlego. Alice tinha as costas marcadas pelo cansaço do mundo, e Bento tinha as mãos calejadas de tentar segurar o que é impossível prender.
Houve uma noite em que a raiva entrou pela janela como um vendaval. Não sabiam por que discutiam — talvez porque o amor deles era grande demais para os corpos que o carregavam. Alice gritava palavras que cortavam como vidro moído, e Bento, em vez de recuar, aproximava-se, sentindo a paixão ardente queimar-lhe a pele.
— Tu queres destruir-me! — gritou ela, com os olhos injetados de uma fúria que era, no fundo, puro pânico de o perder.
— Eu já te destruí — rugiu ele, agarrando-lhe os pulsos com uma força que era um pedido de socorro. — E tu fizeste o mesmo comigo. Somos dois destroços a tentar fazer um incêndio.
Ele empurrou-a contra a parede fria, mas o calor que emanava deles era suficiente para derreter o gelo do inverno lá fora. O ódio transformou-se em fome. Era uma necessidade física, um desejo que doía nos ossos. Bento cravou os dentes no ombro dela, não por maldade, mas para se certificar de que ela era real, de que a carne dele podia fundir-se na dela até que não restasse nenhum "eu", apenas um "nós" desfeito.
Alice arranhou-lhe o peito, deixando sulcos vermelhos que eram mapas da sua agonia. Não havia delicadeza. Era um ritual de carne e osso, um embate de dois animais encurralados pela própria intensidade. O suor misturava-se com as lágrimas e o sabor do sangue, num banquete onde a dor era o tempero principal.
Naquela cama desfeita, eles não faziam amor; eles faziam guerra. E na exaustão que se seguiu, deitados entre lençóis rasgados e respirações curtas, perceberam que só se sentiam vivos quando estavam à beira da destruição. O amor deles era um sacrifício: para se amarem assim, tinham de estar dispostos a sangrar.
— Ainda dói? — perguntou ele, horas depois, com a voz rouca.
— Só quando não me tocas — respondeu ela, encostando a ferida do seu ombro à mão dele, num pacto de sofrimento eterno.
Depois da tempestade de dentes e unhas, veio o silêncio. Mas não era um silêncio vazio; era o silêncio de quem finalmente depôs as armas.
A raiva, que antes queimava como ácido, evaporou-se, deixando apenas a exaustão da verdade. Bento aproximou-se de Alice, não com a força de um guerreiro, mas com a reverência de quem toca algo sagrado. Ele começou por lhe beijar as mãos — cada dedo, cada nódoa negra, cada cicatriz que a vida (e ele) ali tinham deixado. Eram beijos de cura, lentos e profundos, que faziam a carne sofrida esquecer o latejar da dor.
Alice fechou os olhos e sentiu a rendição. A pele dela, antes tensa como uma corda de violino prestes a partir, amoleceu sob o toque dele. Ela puxou-o para perto e cobriu-lhe o rosto com carinhos que pareciam penas a cair sobre a água. Beijou-lhe a testa, as pálpebras, o canto da boca onde a fúria tinha morado instantes antes. Já não havia pressa, já não havia fome de destruição; havia apenas a fome de pertencer.
— Acabou a guerra? — sussurrou ela, com os lábios encostados aos dele, num sopro de paz.
— Só resta o descanso — respondeu ele.
E então, deram o abraço final. Foi um encaixe tão perfeito que parecia que as costelas de um tinham sido feitas para proteger o coração do outro. Não era um abraço de despedida, mas de fusão. Os corpos, ainda suados e marcados, tornaram-se um só volume sob o luar que invadia o quarto. Era um abraço que as palavras não conseguem descrever, porque as palavras precisam de limites, e aquele abraço era infinito. Era o lugar onde o medo morre.
Diz-se que, naquele instante, o teto do quarto desapareceu. Não havia mais teto, nem paredes, nem mundo. Havia apenas a imensidão do cosmos e Deus a assistir, em absoluto silêncio. Não um Deus que julga a loucura ou o pecado da carne, mas um Deus que sorri ao ver que duas das suas criaturas mais partidas finalmente encontraram o caminho de volta para casa, um no braço do outro.
Naquela luz divina, a dor transformou-se em luz, e a carne sofrida tornou-se espírito. Estavam finalmente em paz, rendidos ao único poder que é capaz de organizar o caos: o amor puro.
A calmaria foi apenas o prelúdio do cataclismo. O abraço de paz incendiou-se num fósforo e, de repente, o quarto tornou-se o epicentro de uma força tectónica.
Eles fizeram amor a noite toda, e não era um ato humano; era um evento geológico. O mundo lá fora podia desabar em trovões, mas nem as tempestades eram grandes o suficiente para abafar o som daquela entrega. O rugido da cama de ferro rítmico e violento, competia com o som dos elementos, como se o metal estivesse a protestar por não conseguir conter tamanha energia.
Alice e Bento eram agora pura lava. Cada movimento era um tremor de terra, cada respiração um sopro de enxofre e desejo. A carne, que antes sofrera, agora celebrava a sua própria combustão. Eles não se tocavam apenas; eles colidiam.
— O mundo está a acabar lá fora — arquejou Bento, os músculos tensos como cabos de aço.
— Deixa que acabe! — gritou Alice, as mãos cravadas nos ombros dele. — O nosso mundo começa agora!
A tensão acumulada durante anos de solidão e loucura concentrou-se naquele espaço minúsculo. Era um vulcão prestes a irromper, as veias pulsando com o magma de uma paixão que desafiava a física. Quando a erupção finalmente aconteceu, não foi um fim, mas uma explosão de luz que cegou os sentidos. O clímax não foi apenas um prazer, foi uma libertação total, um grito primal que rasgou a noite e fez os próprios alicerces da casa estremecerem.
As tempestades calaram-se, humilhadas pela força daqueles dois. Deus, que assistia lá do alto, viu que o fogo deles era mais quente que o centro da Terra. No rescaldo, entre o fumo do desejo e o metal quente da cama, eles ficaram imóveis, como estátuas de cinza e ouro, esperando que o mundo arrefecesse para poderem, finalmente, começar de novo.
Nas cinzas desse vulcão, o amanhecer não trouxe a luz comum do sol, mas um brilho novo, tingido pelo calor que ainda emanava dos seus corpos. A casa estava em silêncio, mas o mundo ao redor tinha mudado: as janelas estavam foscas pelo calor e o metal da cama de ferro tinha ficado permanentemente moldado pela força do seu abraço.
Eles acordaram entrelaçados, cobertos por uma fina camada de poeira dourada, como se o fogo da noite tivesse transmutado a dor em algo precioso. Bento olhou para Alice e não viu apenas a mulher que amava; viu a sobrevivente de uma catástrofe que eles próprios tinham criado.
— O vulcão parou — sussurrou ele, a voz ainda vibrando com a intensidade da noite.
— Não parou — respondeu ela, encostando o ouvido ao peito dele, onde o coração ainda batia como um tambor de guerra. — Só está à espera da próxima noite para nos consumir outra vez.
Lá fora, a tempestade tinha deixado um rasto de destruição, mas ali dentro, no centro do desastre, tudo era novo. Eles eram os únicos habitantes de um mundo que acabara de nascer das cinzas. Deus, que ainda observava, sorriu ao ver que, por vezes, é preciso que tudo arda para que o que é verdadeiro possa finalmente brilhar.
Eles levantaram-se, não como pessoas comuns, mas como seres feitos de fogo e memória, prontos para caminhar sobre as brasas de uma vida que nunca mais seria morna.


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