quinta-feira, 23 de julho de 2026

e se a coisa fosse neste seculo?


O auto da barca do Inferno ( versao seculo 21!)

Cenário: Um porto gelado e digital. À esquerda, o Iate do Diabo, iluminado a néon e cheio de ecrãs LED. À direita, a Nave do Anjo, emanando uma luz branca e serena.

(Entra o Influenciador Digital, a olhar para o telemóvel, tentando apanhar rede. Traz consigo um 'ring light' gigante e um pau de selfie.)

Influenciador:
Olha, que vibe é esta? Onde está o sinal do 5G?
Malta, estou em direto no TikTok, isto está surreal!
Aquele iate ali à esquerda parece um sunset VIP.
Vou ver se o relações públicas me deixa entrar na lista.
(Aproxima-se do Iate do Diabo)
Olá! Olhe, o meu nome é @Vasco_VIP, tenho dois milhões de seguidores!
Dá para entrar na zona lounge com direito a pulseira e bebida livre?

Diabo:
Entra, entra, meu grande criador de conteúdo vazio!
Estávamos mesmo à espera que o teu contrato de vida expirasse.
Essa tua luz circular brilha muito, mas não ilumina nada.
Passa para bordo, que o algoritmo do inferno adora o teu perfil!

Influenciador:
Espera lá... Inferno? Eu? Mas eu fiz imensos posts de solidariedade!
Até gravei um vídeo a dar uma sanduíche a um sem-abrigo!
Tive mais de quinhentos mil gostos e partilhas!

Diabo:
Pois tiveste, mas a sanduíche custou dois euros e tu ganhaste mil em publicidade.
Usaste a miséria alheia para alimentar o teu próprio engagement.
Aqui não há filtros, não há Photoshop, nem há botão de bloquear.
O teu feed acabou. Entra e senta-te na bancada dos cancelados!

Influenciador:
(Afasta-se, horrorizado)
Que horror, este gajo é super tóxico! Não tem empatia nenhuma.
Vou ver aquela nave ali do outro lado, parece mais aesthetic.
(Aproxima-se da Nave do Anjo)
Olá, anjo lindo! Olha, posso entrar na tua nave premium?
Faço um post a promover o teu espaço e não te cobro nada por isso!

Anjo:
Cala a tua voz cheia de vaidade e futilidade.
Nesta nave só entra quem viveu a verdade, e não quem viveu de aparências.
Passaste a vida a vender cursos falsos e a enganar os teus seguidores,
Prometendo riqueza fácil enquanto acumulavas curtidas e louvores.
A tua vida foi uma mentira digital. Volta para o barco do teu mestre.

Influenciador:
(Chorando sem lágrimas, para não borrar a maquilhagem)
Isto é bullying! Vou fazer uma queixa formal nas redes!

Diabo:
(Rindo à gargalhada)
Aqui não há Wi-Fi, meu caro! Entra logo no iate, que o DJ já vai começar!

 

(Entra o Político Corrupto, vestido com um fato de alta costura, de gravata impecável, a carregar uma pasta cheia de relatórios confidenciais e um disco rígido externo com criptomoedas.)

Político:
Boa noite. Onde estão os assessores para me receber?
Exijo saber quem é o responsável por este atraso no meu transporte.
(Vê o Diabo)
Vossa Excelência, por favor, agilize a minha entrada nesse iate.
Tenho aqui alguns fundos desviados do Plano de Recuperação e Resiliência,
Podemos criar uma offshore e fazer um excelente negócio de consultoria.

Diabo:
Ah, o senhor Doutor Deputado! Que honra ver-te por estas bandas!
Trazes a pasta cheia de subornos, parcerias público-privadas e promessas eleitorais?
Entra, entra, que o conselho de administração do inferno precisa de ti para gerir as crises!

Político:
Com todo o respeito, deve haver um erro na auditoria do meu destino.
Eu sempre defendi o povo nos debates televisivos e nos palanques!
A culpa das falhas no hospital e nas escolas foi sempre da oposição!

Diabo:
Mentiste no parlamento, desviaste fundos que eram para a saúde e habitação,
E agora queres sacudir a água do capote com a tua habitual imunidade?
No meu iate, o teu cargo político vale zero. O teu destino está votado e aprovado!

Político:
(Aproxima-se da Nave do Anjo com arrogância)
Senhor Anjo, venho requerer o meu direito de asilo político nesta nave de luz.
Eu aprovei leis que ajudaram muita gente (mesmo que tenham ajudado mais as minhas empresas).

Anjo:
Aos olhos da justiça divina, o teu fato caro está sujo de lama e injustiça.
Deixaste os hospitais sem recursos e o povo na miséria enquanto enriquecias.
Não há imunidade parlamentar que te salve do peso da tua ganância.
O teu lugar é no barco do fogo, onde as tuas desculpas não têm voto.

Político:
(Derrotado, caminha para o Iate do Diabo)
Isto é um golpe de Estado...
Vou recorrer para o Tribunal Constitucional!

 

(Entra o Hacker / Scammer, um jovem de capuz, olhos vermelhos de tanto olhar para ecrãs, a carregar um servidor portátil e a rir-se de forma cínica.)

Hacker:
Boas! Consegui quebrar a segurança deste sistema de transição de almas.
Que código tão antigo vocês usam por aqui! Deixem-me adivinhar: a vossa base de dados está em SQL?
(Para o Diabo)
Olha aí, chefe do iate, se me deres acesso ao teu mainframe, consigo duplicar o número de almas que caem no teu esquema de phishing.

Diabo:
Olha quem é ele! O rei dos esquemas do WhatsApp, o mestre do cripto-scam!
Roubaste as poupanças de idosos fingindo ser o filho deles a pedir dinheiro por mensagem.
Criaste vírus para bloquear computadores de hospitais e exigiste resgates.
És um pirata sem escrúpulos, entra já a bordo!

Hacker:
Calma lá, eu só estava a expor as vulnerabilidades do sistema financeiro!
A culpa é das pessoas que clicam em qualquer link de SMS promocional!
(Olha para a Nave do Anjo)
Ei, Anjo! Tens aí um firewall porreiro nessa nave, mas eu consigo contornar isso se me deixares entrar. Posso fazer um upgrade no teu paraíso.

Anjo:
A tua inteligência foi usada para destruir vidas atrás do anonimato de um ecrã.
Não tiveste compaixão pelas lágrimas de quem perdeu tudo por causa dos teus cliques maliciosos.
O teu coração é tão frio e vazio como o código que escreveste.
A tua sentença está encriptada e a chave privada pertence ao Inferno.

Hacker:
(Dando de ombros)
Pronto, está bem... Desde que o iate do Diabo tenha uma boa placa gráfica para eu minar umas moedas enquanto ardo, por mim serve.

(Entra o Padre, com um relógio banhado a ouro, óculos escuros de marca e a chave de um BMW de última geração a rodar no dedo. Atrás dele, avança uma carrinha de luxo guiada por controlo remoto, cheia de donativos da paróquia e relatórios arquivados em segredo.)

Padre:
(Abençoando o cais com um gesto displicente)
Louvado seja Deus. Que lugar tão cinzento... Mas vejo ali um iate com excelente aspeto.
(Para o Diabo)
Meu bom homem, o meu BMW ficou estacionado ali atrás, no cais dos mortos. Há algum manobrista para o guardar? E espero que o iate tenha uma zona VIP, longe da futilidade do povo.

Diabo:
(Faz uma vénia exagerada e irónica)
Sua Reverendíssima! Que honra extraordinária! Estava mesmo a ver quando é que o motor do teu desportivo se calava de vez. Entra, entra, que a tua cabine de luxo já está preparada há anos!

Padre:
Como dizes? Cabine no teu barco? Deves estar confuso, criatura de trevas! Eu passei a vida no altar! Rezei missas, recolhi milhões em dotações para a igreja, confessei milhares de pecadores e era amigo íntimo dos bispos e dos ministros!

Diabo:
Pois confessaste... E usaste o segredo da confissão e o teu poder sagrado para aterrorizar inocentes! Pensavas que os teus crimes contra as crianças da paróquia ficavam escondidos nos arquivos secretos da diocese? Desviaste o dinheiro das esmolas dos pobres para pagar as prestações do teu BMW e o silêncio das tuas vítimas. O teu colarinho branco não limpa o lodo da tua alma. À barca, predador vestido de pastor!

Padre:
(Pálido, corre em direção à Nave do Anjo)
Anjo do Senhor! Defende-me! Eu sou um servo da Igreja Católica! Afasta de mim este demónio caluniador! Olha para as minhas mãos, que tantas hóstias sagradas ergueram!

Anjo:
(Afasta-se com profundo nojo)
Afasta essas mãos de mim, monstro disfarçado de santo! Usaste o nome de Deus para cometer as maiores atrocidades contra os mais indefesos. O teu BMW correu rápido na terra, mas a justiça divina é implacável. Choras agora o teu destino, mas nunca choraste as vidas que destruíste no escuro da tua sacristia. Não há perdão nesta nave para quem transformou a fé em crime.
Vai para o fogo que guardaste para ti.

 

(Entra o Professor Universitário, de cabelo grisalho, com um casaco de cotoveleiras, a carregar uma pilha de teses de mestrado e calhamaços de direito. Traz os óculos na ponta do nariz e olha para o cais com ar de superioridade intelectual.)

Professor:
(Olhando em redor)
Mas que desorganização académica... Onde está o reitor deste estabelecimento de transição? Isto viola claramente os regulamentos de avaliação.
(Repara no Diabo e analisa-o de cima a baixo)
Tu aí, o funcionário do iate. Que critérios usas para a admissão de passageiros? Espero que haja uma secção para intelectuais e catedráticos.

Diabo:
(Sorrindo de forma maliciosa)
Olha o Senhor Doutor Professor! O mestre da cátedra! Entra, entra, que aqui a única avaliação que fazemos é contínua e a nota final é sempre negativa. Estavas habituado a chumbar quem querias, não era?

Professor:
Eu sempre exigi excelência académica! O meu rigor é conhecido em toda a academia. Os meus alunos tremiam só de ouvir o meu nome nas pautas!

Diabo:
Rigor? Chamas rigor a passar a vida a olhar para as pernas das alunas da primeira fila? Chamas excelência a dar notas mais altas nos exames orais a quem aceitava ir jantar contigo à noite? Usaste o teu poder de professor para assediar, intimidar e humilhar jovens que só queriam um futuro. Atrás da tua pose de intelectual, eras só um pervertido de vão de escada. Entra no iate, que as tuas aulas de assédio terminaram!

Professor:
(Indignado)
Isto é uma cabala! É difamação! Onde estão as provas estatísticas? Isto não passa de ressentimento de alunos medíocres!
(Aproxima-se da Nave do Anjo)
Cidadão Alado, exijo um recurso desta decisão. O meu currículo tem mais de cem artigos publicados em revistas científicas internacionais! O meu contributo para a ciência é inegável!

Anjo:
De que te servem cem artigos publicados se a tua conduta moral foi reprovada? Usaste a tua inteligência e a tua posição de autoridade para caçar os sonhos das tuas alunas, transformando a universidade num antro de medo e submissão. A tua tese de vida foi avaliada pelo tribunal do Céu e o teu veredicto é o chumbo definitivo. Volta para trás, que a tua sala de aula agora é o Inferno.

 

(Entra o Advogado de Corporações de IT, com um fato cinzento ultra-moderno, a carregar um tablet de última geração onde brilham milhares de páginas de Termos de Serviço e Contratos de Confidencialidade - NDA.)

Advogado:
(A analisar os ecrãs LED do iate do Diabo)
Muito bem, muito bem... De acordo com a cláusula 4.2 dos Termos de Utilização da Vida Terrena, a minha transição para o plano pós-morte devia ter sido feita de forma automatizada e encriptada.
(Para o Diabo)
Olha, assina-me aqui este acordo de não-divulgação antes de falarmos. Tudo o que eu disser neste cais está protegido por segredo profissional e propriedade intelectual.

Diabo:
(Gargalha alto)
O Advogado das Big Tech! O mago das letras pequeninas! Entra no meu iate, meu amigo, que tu passaste a vida a redigir contratos para mim sem saberes!

Advogado:
Eu? Eu apenas protegi os interesses legítimos das maiores empresas de inteligência artificial e redes sociais do mundo! Tudo estritamente dentro da legalidade e em conformidade com o RGPD!

Diabo:
Legalidade? Criaste contratos abusivos de mil páginas que ninguém consegue ler, só para que as tuas empresas pudessem roubar os dados privados, as fotos e a vida dos utilizadores. Defendeste corporações que sabiam perfeitamente que os seus algoritmos estavam a destruir a saúde mental de milhões de adolescentes, só para aumentar os lucros em dois por cento! Blindaste legalmente burlas tecnológicas e despedimentos em massa via e-mail. Usaste a lei para sufocar a justiça. Entra a bordo, que o teu contrato connosco não tem cláusula de rescisão!

Advogado:
(Tenta manter a calma fria)
Isto é um litígio comercial mal interpretado.
(Corre para a Nave do Anjo e começa a digitar no tablet)
Senhor Anjo, proponho um acordo extrajudicial. Posso transferir todos os meus ativos digitais e criptomoedas para a fundação do Paraíso. Além disso, encontrei três falhas jurídicas no manifesto de embarque da nave que me permitem requisitar um assento prioritário na classe executiva celestial.

Anjo:
Guarda os teus truques e as tuas letras pequeninas, porque diante de Deus não há lacunas na lei. Passaste a vida a vender a tua ética ao melhor licitador, mascarando a exploração e a ganância corporativa com linguagem jurídica complexa. Não há tribunais de recurso no Céu para quem usou a inteligência para legitimar a injustiça. O teu tablet não tem bateria aqui. Segue o teu cliente, o Diabo.

(Entra o Gestor de Alojamento Local, vestido com um colete moderno de start-up, óculos de sol na cabeça e a carregar um molho gigante de chaves com códigos QR e caixas de segurança inteligentes — as 'keyboxes'. Traz também um dossier com ordens de despejo e avisos de aumento de renda.)

Gestor:
(A olhar para o Iate do Diabo com olho clínico)
Bem, este cais tem uma localização premium! Com uns ecrãs LED novos e uns sofás de paletes, este iate rendia facilmente quinhentos euros por noite no Booking.
(Para o Diabo)
Olá! Olha, sou o CEO da Heavenly Stays. Tens a licença de alojamento turístico para este barco em dia? Se quiseres, posso gerir isto por uma comissão de vinte por cento. Maximizo-te o lucro num instante!

Diabo:
(Esfrega as mãos de contentamento)
Entra, entra, meu grande tubarão imobiliário! Estava mesmo a precisar de alguém com a tua falta de escrúpulos para reorganizar as camaratas do inferno. Vais adorar o nosso sistema de aquecimento central, é permanente!

Gestor:
Espera aí, Inferno? Mas eu dinamizei a economia local! Reabilitei edifícios antigos que estavam a cair aos pedaços! Sou um empreendedor do turismo!

Diabo:
Reabilitaste os prédios e expulsaste os idosos que lá viviam há cinquenta anos! Triplicaste as rendas para transformar casas de famílias em estúdios impessoais para turistas tirarem fotos para o Instagram. Deixaste estudantes e trabalhadores no olho da rua, a dormir em tendas, porque o mercado livre assim o exigia. O teu empreendedorismo foi a ruína de bairros inteiros. Passa para bordo, que o teu check-in no inferno é vitalício e não podes cancelar!

Gestor:
(Desesperado, corre para a Nave do Anjo com uma chave na mão)
Senhor Anjo, por favor! Isto é um claro erro de mercado! Eu tenho aqui a chave de um apartamento de luxo em Alfama, com vista para o rio, totalmente gratuito para si! Sem taxas de limpeza!

Anjo:
Guarda as tuas chaves e os teu códigos, porque no Céu as moradas não se compram nem se alugam. Fechaste as portas da hospitalidade aos teus concidadãos para alimentar a tua ganância desmedida. Deixaste famílias sem teto e sem dignidade em nome do lucro rápido. Não há espaço nesta nave para quem despejou o próximo da sua própria terra. O teu anúncio foi banido do Paraíso. Segue para o barco do teu verdadeiro mestre.

 

(Entra o Comentador de Futebol, com um fato espalhafatoso, um microfone de lapela ainda ligado, e a carregar uma pilha de jornais desportivos e um tablet com gráficos de arbitragem em 3D. Vem a gritar e a gesticular como se estivesse num estúdio de televisão.)

Comentador:
(A apontar para o Anjo e para o Diabo)
Isto é uma vergonha! Isto é uma arbitragem totalmente inclinada! Onde está o VAR desta transição? Isto foi falta clara sobre o meu direito de viver!

Diabo:
(Rindo à gargalhada, imitando um comentador)
E atenção, meus senhores, que entra em campo o rei do soundbite, o mestre do peixeirada televisiva! Entra, entra, que o nosso estúdio de debate já está a ferver à tua espera!

Comentador:
Olha lá, ó do iate! Tu não me fales assim que eu processo-te! Eu sou uma figura pública, dou audiências multimilionárias todas as segundas-feiras à noite! Eu defendo a verdade desportiva do meu clube até à morte!

Diabo:
Verdade desportiva? Tu passaste anos a sentar-te num estúdio de televisão a espalhar ódio, mentiras e fanatismo! Incitaste à violência entre claques, insultaste árbitros, destruíste a reputação de atletas e transformaste um desporto bonito numa guerra civil semanal de palavras e lama. Fizeste fortuna à custa da fúria e da cegueira dos adeptos. O teu campeonato acabou e foste despromovido para a divisão do fogo!

Comentador:
(A gesticular freneticamente, corre para a Nave do Anjo)
Senhor Anjo! Isto é um escândalo! O Diabo está a usar critérios subjetivos! Veja o lance em câmara lenta! Eu também elogiei a seleção nacional! Eu tenho mérito civil!

Anjo:
Cala a tua boca barulhenta que tanto destilou veneno na Terra. Usaste o teu tempo de antena não para elevar o desporto, mas para semear a discórdia, a agressividade e o preconceito no coração de milhões de pessoas. As tuas palavras inflamadas geraram violência real nas ruas e nos estádios. Diante do tribunal divino, o teu cartão é vermelho direto. Não há tempo extra, nem penalties que te salvem. Caminha para a barca da tua própria tempestade.

 

(O Diabo fecha as portas do seu Iate de Luxo, onde o Influenciador, o Político, o Hacker, o Padre, o Professor, o Advogado, o Gestor e o Comentador se lamentam entre luzes de néon e música estridente. A Nave do Anjo eleva-se silenciosamente em direção à luz pura, levando consigo as almas dos justos que não viveram para as aparências, para o dinheiro ou para o ódio.)

domingo, 19 de julho de 2026

o sol escuro

 

O vento de inverno uivava como um lobo ferido nas frestas das paredes de xisto em Sendim, uma pequena aldeia de Miranda do Douro. Corria o ano maldito de 1965. No interior daquela casa escura que cheirava a mofo, humidade e à iminência da morte, o chão de terra batida gelava e gretava os pés descalços, cheios de frieiras purulentas, de seis crianças condenadas à miséria mais abjeta. O silêncio da noite era um peso sufocante, interrompido apenas pelo som cruel dos estômagos a retorcerem-se de dor e pelo borbulhar de uma água cinzenta sobre as poucas cinzas que restavam na lareira.

À mesa de madeira carcomida, infestada de bicho e prestes a ruir, a família Antunes reunia-se para o seu suplício diário: olhar para a escassez. O cheiro que emanava da panela de ferro era o aroma do desespero. O eterno caldo magro não passava de uma água suja, sem sal, onde boiavam duas folhas murchas, amareladas e roídas por lagartas de couve galega, juntamente com um punhado de feijão seco e duro. Não havia pão. Não havia uma única gota de azeite para dar brilho àquela miséria. Não havia carne. A fome ali era um parasita invisível que cavava os olhos daquelas crianças, deixando-as com rostos cadavéricos e de pele colada aos ossos.

Maria, a mais velha com apenas 14 anos, mas já com as mãos calejadas e a alma amputada de qualquer juventude, tentava morder os próprios lábios para não chorar, enquanto limpava o ranho e o sangue seco do nariz dos irmãos. Abaixo dela, Teresa, de 12 anos, tremia tanto que mal conseguia segurar a caneca; Ana, de 10, e Catarina, de 8, abraçavam-se num canto da mesa para partilhar o calor dos corpos moribundos. Na ponta, o pequeno Tiago, de 6 anos, chorava sem som, com os olhos esbugalhados fixos no vazio. Ao seu lado, o caçula João, de apenas 4 anos, gemia num pranto dilacerante, arranhando a própria barriga inchada pela subnutrição extrema, implorando por um pedaço de crosta que não existia.

O pai, António, um homem de 38 anos transformado num velho decrépito de 60 pelo trabalho escravo na jorna, olhava para as suas mãos. Eram garras de carne viva, abertas em fendas profundas pelo cabo da enxada e pelo frio cortante. Ao seu lado, Rosa, a esposa, com o peito desfeito e os seios secos pela falta de alimento, vertia a água morna nas canecas de barro com as mãos a tremer. Cada gota que caía parecia uma lágrima de sangue. Naquela terra esquecida por Deus e amaldiçoada pela bota cardada da ditadura de Salazar, a PIDE controlava os sussurros com a ameaça da tortura nas masmorras, enquanto a miséria controlava os corpos, arrastando-os lentamente para a vala comum.

António bateu com a caneca na mesa, um som seco que ecoou como uma sentença de morte naquela cozinha rústica. Olhou para a esposa e para os seis filhos, vendo neles um retrato de defuntos adiados. O silêncio tornou-se sepulcral, cortado apenas pelo gemido agónico de João, quando o pai proferiu as palavras que selariam a desgraça daquela casa:
— Vou fugir a salto para a França!

Rosa deixou cair a colher de pau. O objeto bateu no chão de terra e partiu-se, tal como o coração daquela mãe. Os olhos das filhas mais velhas encheram-se de um terror trabalho. Naquela época, "fugir a salto" era sinónimo de roleta russa. Significava caminhar semanas a fio pela serra, com os pés a sangrar na neve, fugindo aos cães de caça e às balas implacáveis dos guardas fronteiriços espanhóis. Significava, pior de tudo, entregar o destino a passadores sinistros — criminosos sem escrúpulos que, a meio do caminho, roubavam o pouco dinheiro dos emigrantes, violavam as mulheres e as filhas nas cabanas isoladas e abandonavam os homens feridos ou exaustos para morrerem congelados nos Pirenéus, servindo de banquete aos lobos.

— Não, António... por quem tens sagrado, vais morrer no caminho! – gritou Rosa, caindo de joelhos, agarrando-se às calças remendadas do marido enquanto as lágrimas lhe lavavam o rosto desfigurado pela dor e pelo pânico. – Se a PIDE te apanha, és espancado até à morte na prisão! Se ficas soterrado na neve, como vamos saber? Queres deixar-me sozinha a enterrar estes meninos?!

— E o que estamos nós a fazer aqui, Rosa?! – rugiu António, as lágrimas a correrem-lhe finalmente pelas bochechas queimadas pelo sol e pelo frio, a voz a quebrar num ganido de puro desespero. Ele apontou para o caçula. – Olha para o João! O rapaz está a definhar! Os ossos do peito parecem facas a furar-lhe a pele! Aqui só temos a jorna dos ricos que nos tratam como cães e nos pagam com desprezo. Prefiro que os lobos me comam as carnes na montanha ou ser crivado de balas pela guarda, do que ficar sentado nesta mesa a ver os meus filhos morrerem de fome um por um! Isto não é uma casa, Rosa, é um cemitério de vivos!

Ninguém conseguiu engolir mais uma gota daquela água ensossa. O ambiente ficou impregnado com o odor fétido do medo e da morte iminente.

Naquela mesma madrugada, sob o manto de um breu fechado e gélido, António preparou-se para partir. Não havia malas, não havia agasalhos decentes; levava apenas a roupa gasta que tinha no corpo, calçado furado e um naco de crosta de pão duro e bolorento que Rosa guardara milagrosamente como um tesouro sagrado. A despedida foi uma cena de cortar as entranhas: as raparigas agarravam-se às pernas do pai, soluçando alto, implorando para que ele não as abandonasse àquela sorte cruel. O abraço final a Rosa foi um esmagamento de corpos que sabiam, no fundo da alma, que aquela era uma despedida definitiva. António virou as costas e caminhou em direção ao nevoeiro assassino do planalto mirandês, desaparecendo na escuridão. Rosa caiu estatelada no chão de terra batida, arranhando o próprio peito até sangrar, num grito mudo de agonia.

A jornada de António transformou-se num verdadeiro inferno de gelo. Ele caminhava há dez dias pelos Pirenéus com os pés em carne viva, desfeitos pelas botas rotas tapadas com trapos e atadas com arame. O frio de trinta graus abaixo de zero queimava-lhe os pulmões a cada arquejo de cansaço. Ao seu lado, no meio da nevasca, o passador exigia silêncio absoluto à coronhada. A meio da subida mítica, o terror bateu: os focos dos guardas fronteiriços rasgaram o cansaço e o som de metralhadoras ecoou no desfiladeiro.

António atirou-se para uma ravina. Viu dois companheiros de fuga serem crivados de balas, o sangue deles a tingir a neve de um vermelho vivo. O passador fugiu com o dinheiro de todos, deixando-os à sua sorte. Sozinho no meio do nada, António teve de rastejar durante horas sobre o manto gelado, com os dedos das mãos a congelar e a perderem a sensibilidade para sempre. Para não adormecer e morrer, ele mordia a própria língua até sangrar. A dor extrema era a sua única garantia de que ainda estava vivo.

Enquanto isso, em Sendim, o inferno de Rosa era doméstico, diário e destrutivo. A partida do pai não trouxe esperança, trouxe apenas o escárnio e o abandono total. Sem o braço de António para conseguir qualquer jorna, os latifundiários da região aproveitaram-se da miséria daquelas mulheres. Rosa e as duas filhas mais velhas trabalhavam de sol a sol, sob chuvas torrenciais que lhes gelavam os ossos e sol abrasador que lhes queimava a pele, a carregar pedras e a cavar a terra dura. O pagamento por dez horas de trabalho escravo era, muitas vezes, uma malga de lavagem azeda ou batatas podres e cheias de bichos que os próprios porcos recusavam comer. Os corpos de Maria e Teresa, que deveriam ser de crianças, transformaram-se em carcaças curvadas, com as mãos cheias de calos abertos e infeccionados, sem qualquer direito à inocência.

A fome dos cinco filhos obrigava Rosa a ajoelhar-se no chão húmido da despensa vazia, desenterrando batatas moles e cinzentas. Com a ponta de uma faca romba, cortava as partes negras e cheias de vermes, tentando salvar o mínimo de polpa para catar os bichos e enganar o estômago das crianças. O trabalho físico no inverno mirandês desfazia-lhe o corpo: as suas mãos gretadas sangravam ao contacto com a corda áspera do poço, a água gelada transbordava dos baldes pesados ensopando-lhe as saias velhas, e a pele dos dedos descolava-se em fendas purulentas pelo frio, que nunca fechavam devido à humidade constante.

O isolamento social completava a sua ruína psicológica. Ao cruzar-se com os vizinhos nas ruelas de Sendim, Rosa não encontrava compaixão, apenas o escarnecimento. Ouvia os insultos dos vizinhos que a acusavam de ter sido abandonada por um cobarde. Ao regressar do poço com as mãos a sangrar, cruzou-se com o ti Manuel, um latifundiário que lhe recusara trabalho. "Lá vai a abandonada, a carpir o cabrão do cobarde!", gritou ele à porta da taberna. Rosa pousou os baldes. Olhou-o nos olhos, com o ódio acumulado de dois anos de fome, e respondeu com uma fúria que calou a rua: "O meu António é mais homem que tu e toda a tua raça! Fugiu para dar pão aos filhos, enquanto tu engordas a roubar o suor dos pobres!". O homem avançou para lhe bater, mas o silêncio pesado da aldeia travou-o. Rosa pegou nos baldes e seguiu, de cabeça erguida, embora o coração lhe batesse na garganta.

O inverno de 1967 trouxe o golpe de misericórdia. Com o sistema imunitário destruído pela fome contínua, o pequeno João contraiu uma pneumonia devastadora, ardendo numa febre de 41 graus que o fazia convulsionar e delirar no enxofre de palha podre. O menino tossia um escarro espesso misturado com fios de sangue, e o barulho do seu peito a colapsar parecia o de um fole rasgado. Sem um único tostão para pagar a um médico e rejeitada pelos latifundiários a quem implorou ajuda de joelhos, Rosa passava as noites de joelhos, limpando o suor do filho com as suas próprias lágrimas. A cada noite, deitava-se ao lado dele, encostando o ouvido ao peito do menino, apavorada com a possibilidade de o silêncio da madrugada significar que ele tinha parado de respirar.

Para piorar a agonia, a vingança do regime não tardou. Duas noites depois do confronto na rua, a porta de xisto foi estilhaçada por pontapés brutais. Três inspetores da PIDE, de gabardinas escuras e coldres à vista, invadiram a casa sob os gritos de terror das crianças. O mobiliário foi partido: a mesa de madeira foi virada com um pontapé que lhe rachou o tampo ao meio, e os poucos pratos e canecas de barro foram esmurrados e esmagados contra o chão, transformando-se num monte de cacos inúteis misturados com a poeira.

Seguiu-se uma sessão de pura tortura psicológica. Um dos agentes arrancou violentamente o pequeno João, a queimar em febre e com os pulmões em agonia, do enxofre de palha pelas suas mãos grossas. O menino gemia e sufocava com a laringe inflamada, soltando um ganido estrangulado ao ser atirado para o chão frio como se fosse um trapo velho. O impacto cortou-lhe o resto do oxigénio, fazendo-o esgavatar o chão com as unhas num desespero mudo por ar. A palha do colchão foi rasgada e espalhada por toda a divisão numa busca frenética por notas de francos ou correspondência clandestina de Paris. A poeira sufocante da palha seca inundou o ar, agravando de imediato a crise respiratória e os ataques de tosse de João, deixando o berço de fortuna destruído e a criança sem tecto contra o solo gelado.

A ameaça brutal do inspetor chefe selou o cenário de horror. Agarrando Rosa pelos cabelos com tanta força que lhe arrancou tufos do couro cabeludo, ele puxou-lhe a cabeça para trás e cravou o cano de ferro frio da pistola contra a sua testa trémula, exigindo saber onde António se escondia e ameaçando levar as filhas mais velhas para as celas de Bragança. Rosa, com o rosto colado à terra batida e a ver as filhas a chorar de joelhos, não abriu a boca. Não havia cartas. António continuava desaparecido no silêncio do mundo. Todas as noites, Rosa enfiava a cabeça num trapo velho para abafar os seus gritos de desespero, dilacerada pela certeza de que o marido era agora um cadáver congelado nos Pirenéus, com os olhos arrancados pelas aves de rapina.

Foram sessenta anos de uma dor que nunca cicatrizou, de sacrifícios indizíveis e de lágrimas que salgaram a terra daquele planalto esquecido. A resiliência daquela mãe leoa manteve os seis filhos vivos contra todas as probabilidades. Maria e Teresa, abdicando da infância, tornaram-se mulheres duras antes do tempo para proteger os irmãos da morte certa.

O mundo e o tempo avançam sem contemplações, nao choram a tristeza nem riam da alegria, o tempo, apenas passa ...

Sessenta anos passaram...

Hoje, no verão de 2026, o cenário é um soco no estômago de quem conheceu o passado. O sol brilha intensamente, com uma luz dourada e triunfante, sobre uma vivenda moderna, sumptuosa e florida, construída orgulhosamente nos arredores de Miranda do Douro — um monumento vivo à sobrevivência. No grande e luxuoso jardim das traseiras, onde outrora só havia terra seca e lágrimas, uma mesa comprida e majestosa está posta. Está farta, quase a rebentar, transbordando com postas suculentas de posta mirandesa que crepitam na brasa, fumeiro regional perfumado, pão fresco e estaladiço e garrafas do mais fino e caro vinho do Douro.

Sentado na cabeceira da mesa, com 99 anos, está António. O cabelo é perfeitamente branco, mas os olhos continuam vivos. Ao seu lado, com 95 anos, Rosa segura-lhe a mão. António não morreu na serra. Ele conseguiu chegar a Paris em 1965, após três semanas de uma caminhada infernal onde quase perdeu os dedos dos pés por causa do gelo. Trabalhou dia e noite na construção civil, vivendo num "bidonville" miserável, poupando cada cêntimo e enviando dinheiro por rotas secretas até conseguir, cinco anos mais tarde, trazer legalmente a mulher e os seis filhos.

Ao redor da mesa de festa, a história trágica deu lugar a uma árvore genealógica próspera e feliz. Estão lá as quatro raparigas: Maria, Teresa, Ana e Catarina, hoje mulheres septuagenárias, elegantes, que criaram as suas próprias famílias em França e em Portugal. O Tiago é agora um engenheiro reformado que divide o tempo entre Paris e Bragança. E o pequeno João, aquele que quase morreu de fome e febre no inverno de 1967, é hoje um empresário de sucesso no ramo da hotelaria, o grande responsável por construir aquela casa de férias na terra natal.

Netos e bisnetos, que misturam o português com o francês numa algazarra alegre, correm pelo relvado. Um dos bisnetos aproxima-se de António e pede-lhe para contar, mais uma vez, a história de como ele cruzou as montanhas a pé.

António olha para a mesa cheia, para o sorriso da sua Rosa e para a descendência vibrante que conquistou a ferro e fogo. Ele sorri, aperta a mão da esposa e aponta para um prato cheio de comida deixada por un dos seus netos.














































as ameias do castelo

 

O vento da noite batia contra as pedras centenárias das ameias do castelo, mas a pele de Helena, de 52 anos, e Eduardo, de 53, fervia. Ignorando o frio, a idade e qualquer juízo, eles comportavam-se como putos de 20 anos em plena descarga de adrenalina. Eduardo prensou-a contra a muralha de pedra áspera, subindo o vestido dela sem qualquer cerimónia, arrancou-le as cuecas de cetin cor preto, meteu a mao direita entre os quadris e ajoelhou-se diante dela lambendo-a desalmadamente e delirado com sons descabidos e desnorteados.

— Estás completamente louco, Eduardo! Se vem aí um guarda... — sussurrou Helena, com o coração a bater na garganta, mas já a abrir as pernas para o prender pela cintura. Adoro o que tu estàs a fazer-me! Adoroooo!!!!

Eduardo sorriu, aquele sorriso desafiador que ela conhecia há décadas. Para ele, o perigo era apenas o tempero necessário. Ele envolveu-a num abraço firme, protegendo-a do vento frio contra a pedra aquecida pelas memórias daquele lugar. Naquele momento, não importavam os títulos, a idade ou as responsabilidades; eram apenas duas almas reclamando a juventude que nunca permitiram que morresse.

Eles partilharam um beijo profundo, um selo de cumplicidade que ecoava a força da sua união. O risco de serem descobertos apenas tornava cada toque mais elétrico, cada olhar mais intenso.

Dias depois, a aventura continuou num miradouro isolado, onde as luzes da cidade lá em baixo pareciam pequenas estrelas distantes. Dentro do carro, o ambiente era de uma intimidade absoluta. Entre conversas sussurradas e carícias que falavam de uma vida inteira de desejo, eles celebravam a liberdade de se pertencerem.

— Tu tens um fogo que o tempo nunca vai apagar, Helena — murmurou Eduardo, admirando a silhueta da mulher que continuava a ser o seu maior mistério e a sua maior certeza.

Eles não precisavam de muito para serem felizes; bastava-lhes a audácia de quebrar a rotina e a coragem de continuar a explorar os limites do que sentiam um pelo outro, seja sob as estrelas de um castelo ou no silêncio de uma estrada deserta.

A entrega entre os dois era total, baseada num respeito mútuo e numa paixão que o tempo apenas tinha fortalecido. Cada gesto e cada palavra trocada reforçavam a promessa de que aquela ligação seria para sempre duradoura..

— Vou chupar-te toda até te ver perder o controlo — murmurou ele, com a voz grave, enquanto as suas mãos a desciam e a envolviam numa carícia íntima e ardente que a fez gemer baixinho contra o silêncio da noite.

Helena arqueou o corpo, entregando-se completamente ao toque dele, sentindo uma onda de calor que a dominava por inteiro. Ela puxou-o pelos cabelos, obrigando-o a erguer-se para que ficassem olho no olho, as respirações misturadas numa ânsia incontrolável.

Ajoelhou-se , tirou o cinto de couro, olhando para ele com ar marota, puxou os “boxers”  ate aos joelhos vislumbrando  uma tesao daquelas. Deu apenas 5 chupadas requintadas e bem babadas...levanta-se de novo e olha Eduardo de frente.

— Quero sentir cada centímetro teu dentro de mim agora — respondeu ela, com o olhar carregado de promessa e uma audácia felina. — Vou fazer-te vir só com o meu olhar, Eduardo. Olha para mim.

A fusão dos seus corpos foi imediata e avassaladora. Cada movimento era uma celebração de um erotismo cru e sem pressas, onde a experiência da maturidade se transformava em pura mestria do prazer. Eles conheciam cada ponto sensível, cada ritmo que acelerava o coração, e entregavam-se àquela dança com a liberdade de quem já não tem nada a provar, apenas a desfrutar.

— És completamente viciante, Helena — arquejou ele, segurando-lhe as ancas com força, enquanto sentia a humidade e o aperto dela à sua volta.

— Tu és meu, Eduardo. Sempre foste — sussurrou ela ao seu ouvido, mordendo-lhe levemente o lobo da orelha antes de acelerar o movimento, levando-os juntos à beira de um abismo de puro êxtase.

O clímax chegou como uma tempestade, uma descarga de adrenalina e prazer partilhado que os deixou exaustos e agarrados um ao outro, com os corações a bater em uníssono contra o peito. A relação deles era exatamente isso: uma mistura perfeita de romance eterno e um erotismo devorador que o tempo nunca seria capaz de apagar.

Eduardo segurou a mão de Helena, sentindo a cumplicidade que os unia naquele momento de quietude. O silêncio do parque era apenas interrompido pelo despertar dos pássaros, e a luz do sol refletia o brilho nos olhos de ambos, carregados de memórias e de um afeto que os anos só fizeram fortalecer.

Ficaram ali por algum tempo, apenas apreciando a presença um do outro, deixando que o calor do sol nascente os aquecesse enquanto planeavam, em sussurros suaves, o que o resto do dia lhes reservaria.

A autoestrada estava deserta sob o manto da madrugada de regresso a casa. Eduardo mantinha os olhos fixos no asfalto, conduzindo a alta velocidade. Ao seu lado, Helena olhou-o com um brilho de pura audácia nos olhos. A adrenalina de se comportarem como dois miúdos de 20 anos dominava o habitáculo do veículo.

— Eduardo, olha para mim — ordenou ela, com uma voz carregada de uma promessa perigosa. — Vou levar-te à loucura absoluta agora mesmo... e tu não podes parar o carro. Tens de continuar a conduzir.

Sem hesitar, Helena desafiou os limites daquela viagem, focando toda a sua atenção em Eduardo com uma audácia que o deixou sem fôlego. O clima no carro tornou-se elétrico, uma mistura de perigo e desejo puro que fazia os seus corações baterem como se fossem adolescentes outra vez. Eduardo segurou o volante com firmeza, os sentidos em alerta máximo, enquanto se perdia na intensidade do momento e na entrega absoluta de Helena. Abocanhou-o, gemendo de uma maneira de o levar à pura loucura.

— Helena... vais levar-nos ao limite... — murmurou ele, com a voz embargada pela emoção e pelo prazer de um momento tão proibido quanto memorável.

Eduardo sentia-se vivo como há muito não se sentia. Ao chegarem ao destino, o olhar que trocaram era uma promessa silenciosa. Ele sorriu, um sorriso carregado de intenção, e avisou-a de que aquele desafio teria uma resposta à altura.

No dia seguinte, o cenário mudou para a varanda do apartamento de Helena. Sob a luz vibrante da noite da cidade e do som do movimento da cidade, a promessa de Eduardo ganhou forma. Enquanto ela observava a paisagem, sentiu a presença súbita e arrebatadora dele atrás de si.

Eduardo envolveu-a com uma urgência que não escondia o seu desejo de retribuir a audácia da noite anterior. O reencontro foi marcado por uma paixão crua, onde o romantismo se fundia com a sede de aventura. Ele aproximou-se, sussurrando palavras de conquista ao seu ouvido, reivindicando aquele momento com uma energia contagiante.

— Eu disse que o dia da vingança chegaria — disse ele, com um tom de voz que misturava ternura e determinação.

A conexão entre os dois era inegável. Mesmo com a maturidade de quem já viveu muito, comportavam-se com a entrega e a falta de juízo de quem acaba de descobrir o amor. Naquela varanda, entre beijos apaixonados e abraços apertados, celebraram a liberdade de se amarem sem reservas, transformando a rotina numa explosión de sensações que os fazia sentir eternamente jovens.

O calor ardente da varanda deu lugar à aragem fresca que soprava sobre a cidade, enquanto o trânsito da hora de ponta continuava a fluir lá em baixo, alheio à loucura que acabara de acontecer. Eduardo e Helena deixaram-se escorregar até ao chão de madeira da varanda, ainda ofegantes, com os corpos colados e suados, rindo como dois adolescentes que tinham acabado de quebrar todas as regras possíveis.

Helena ajeitou o cabelo desalinhado, encostando a cabeça no peito de Eduardo, ouvindo o coração dele ainda a bater acelerado. A adrenalina começava a baixar, dando espaço a uma cumplicidade profunda, onde a intimidade física se transformava num carinho imenso.

— Eduardo... — começou ela, com um sorriso malicioso e os olhos a brilharem de satisfação. — Eu amo isto. Gosto tanto, mas tanto, de foder contigo. Tu dás-me uma vida que mais ninguém consegue.

Eduardo sorriu de canto, puxando-a ainda mais para si e depositando um beijo demorado na sua testa, antes de lhe segurar o queixo para que ela olhasse diretamente para ele. O olhar dele misturava uma ternura imensa com o mesmo desejo devorador de sempre.

— E tu não imaginas o poder que tens sobre mim — respondeu ele, com a voz rouca e baixa, num sussurro cúmplice. — Por mim, perdia-me durante horas na tua ratinha deliciosa, todos os dias. Tu deixas-me completamente louco, Helena. Parece que temos outra vez 20 anos e o mundo é todo nosso.

Helena riu-se, mordendo o lábio inferior, e abraçou-o pelo pescoço, sentindo a segurança daquele abraço. Aquela conversa, despida de pudores e carregada de uma paixão crua, era o verdadeiro motor da relação deles. Aos cinquenta e poucos anos, sabiam perfeitamente o que queriam, não perdiam tempo com rodeios e entregavam-se um ao outro com uma liberdade e uma intensidade que muitos jovens invejariam. Ficarem ali, abraçados no chão após a loucura da hora de ponta, era o equilíbrio perfeito entre o romance mais puro e o erotismo mais selvagem.

— É incrível como conseguimos ir do limite da loucura para esta paz tão nossa — sussurrou Helena, desenhando círculos imaginários no peito dele. — Adoro a nossa adrenalina, mas este teu abraço é o meu lugar favorito no mundo.

Eduardo sorriu, beijando-lhe o topo da cabeça com uma ternura imensa. O olhar que partilhavam agora já não era de provocação, mas sim de uma gratidão profunda por tudo o que tinham construído juntos.

— O segredo é exatamente esse, Helena — respondeu ele, com a voz suave e reconfortante. — Com o nosso fogo, sentimos que temos sempre 20 anos. Mas com esta paz, sei que temos a maturidade certa para valorizar cada segundo disto. Amo-te em todas as tuas versões.

Ficaram ali esquecidos do tempo, namorando com a calma que só a experiência de vida permite, sabendo que no dia seguinte a chama do desejo estaria pronta para ser acesa novamente em qualquer canto inesperado.

— Estava aqui a pensar... — começou Helena, a voz quase num sussurro, os olhos fixos nas chamas das velas. — No meio de todas estas nossas loucuras de agora, parece impossível que tenhamos estado tanto tempo afastados. Lembras-te de quando tínhamos mesmo 20 anos? Éramos tão orgulhosos.

Eduardo soltou um suspiro longo, o polegar acariciando o ombro nu dela. A mente dele viajou imediatamente para trás no tempo, resgatando as imagens de uma juventude turbulenta.

— Éramos dois miúdos cheios de certezas e sem juízo nenhum — respondeu Eduardo, com um sorriso nostálgico. — Nós não sabíamos amar com calma, Helena. Era tudo ou nada. As nossas quezílias... meu Deus, nós incendiávamos a casa só com discussões por causa de ciúmes ou de orgulho parvo. Sabíamos perfeitamente como magoar o outro.

— E magoámos — relembrou ela, com uma pontada de seriedade na voz. — Aquela separação... quando decidimos que já não dava mais. Lembro-me de ver as tuas malas à porta e de sentir que o mundo tinha desabado, mas o meu orgulho era tão grande que preferi deixar-te ir a pedir para ficares. Passámos anos separados, Eduardo. Anos em que tentei procurar este teu toque noutras pessoas e nunca, mas nunca, encontrei nada que se parecesse.

Eduardo virou-se ligeiramente, obrigando-a a olhar para ele. O olhar que partilharam carregava o peso dos anos perdidos, mas também a redenção do presente.

— Eu também procurei, Helena. Mas a verdade é que tu estragaste-me para qualquer outra mulher. Quando nos reencontrámos naquela esplanada, passados quase dez anos, e os nossos olhares se cruzaram... eu soube no mesmo segundo. O meu corpo reconheceu o teu antes mesmo de trocarmos uma palavra. Foi aí que percebemos: a nossa ligação não era apenas pele, era algo de outra vida.

Helena sorriu, os olhos ligeiramente humedecidos, e selou os lábios dele com um beijo demorado e terno, um agradecimento silencioso por terem sobrevivido ao tempo. Ela mudou de posição, recostando-se nas pernas dele, e o tom da conversa tornou-se mais denso, tocando numa ferida antiga que ambos guardavam no fundo do peito.

— Sabes... — disse ela, desviando o olhar por um instante. — Há uma coisa em que penso às vezes. Especialmente quando nos vejo assim, a viver com esta intensidade toda. O filho... ou a filha, que nós nunca chegámos a ter. Se tivéssemos ficado juntos desde novos, se não tivéssemos sido tão putos e estúpidos... achas que teríamos sido bons pais?

Eduardo guardou silêncio por alguns segundos. Aquela era a grande ausência na vida deles, o eco de um futuro que o destino, ou os erros do passado, não permitiram construir.

— Acho que teríamos sido uns pais completamente loucos — respondeu ele, com a voz embargada pela emoção, puxando-a para que ela se sentasse no seu colo, de frente para ele. — Imagina uma miúda com a tua coragem e o teu nariz empinado, ou um rapaz com a minha teimosia. Teríamos feito o melhor que sabíamos. Às vezes também sinto essa falta, esse vazio de não ver os nossos traços misturados numa nova vida. Gostaria muito de ter tido esse fruto do nosso amor.

Helena abraçou-o com força, escondendo o rosto no pescoço dele. A maturidade dos seus 52 e 53 anos trazia essa clareza: a aceitação das cicatrizes e das oportunidades perdidas, mas também uma fome redobrada pelo presente.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Lana

 O relógio de parede na sala de Augusto não andava para a frente; parecia, em vez disso, escavar o chão. Cada tique-taque era uma pá cheia de terra que ele atirava sobre as suas próprias pernas, enterrando-se nas recordações de um tempo que já não existia. Augusto vivia rodeado de fantasmas de papel: fotografias a preto e branco, cartas de amor escritas a tinta de aparo por uma mulher que partira há uma década, e bilhetes de comboio de viagens cujos destinos já tinham mudado de nome.

Aos quarenta e cinco anos, o seu corpo habitava o presente, mas a sua mente era uma inquilina permanente do passado. Passava os dias a tentar decifrar onde é que o rumo das coisas se tinha alterado. Se não tivesse aceitado aquele emprego, se tivesse dito aquela palavra no momento certo, se o inverno de 2016 não tivesse sido tão rigoroso… O "se" era a sua moeda corrente, uma moeda que não comprava nada no mercado da vida real.
Por outro lado, quando a melancolia do que foi lhe dava tréguas, Augusto era assaltado por uma ansiedade febril em relação ao amanhã. Engenheiro por formação, passava noites em claro a desenhar folhas de cálculo com projeções financeiras para a sua reforma, planos de contingência para crises económicas globais e listas de check-ups médicos que deveria fazer nos próximos vinte anos. Calculava a inflação, o desgaste dos materiais da casa e a probabilidade de escassez de água potável no continente.
Assim, a vida de Augusto era um balancé trágico entre a nostalgia e o pânico. O ontem era um porto seguro que se desfazia em fumo; o amanhã, uma tempestade que ele tentava prever com barómetros avariados. No meio de tudo isto, o hoje era um espaço vazio, uma ponte estreita que ele atravessava a correr, de olhos fechados, sem reparar no rio que corria por baixo.
Tudo mudou numa terça-feira de nevoeiro, quando a sua máquina de café avariou. Privado do seu ritual matinal, Augusto foi obrigado a sair de casa dez minutos mais cedo para ir à confeitaria da esquina, um lugar que ignorava há anos.
Ao entrar, o cheiro a pão quente e a canela atingiu-o como um embate físico. Sentou-se numa mesa ao canto, junto à janela. Enquanto esperava, o seu instinto imediato foi puxar pelo caderno para planear a rota de trabalho da semana seguinte, mas percebeu que se esquecera da caneta. Sem o seu escudo de futuro, e recusando-se a abrir a galeria de fotos do telemóvel para não cair no passado, Augusto olhou em volta.
Atrás do balcão, uma mulher de cabelos apanhados e avental enfarinhado sorria enquanto entregava um bolo a uma criança. A criança não pensava na digestão do açúcar, nem no dia em que seria adulta; simplesmente mordia o doce com uma entrega absoluta, fechando os olhos. Na mesa ao lado, um velho lia o jornal, saboreando o café aos golos, tão pequenos que pareciam eternos.
"O seu abatanado e a torrada, senhor", disse uma voz suave.
Augusto olhou para cima. Era a mulher do avental. O prato que ela pousou exalava um vapor denso. O pão estava tostado no ponto certo, com a manteiga a derreter-se lentamente, criando pequenas poças douradas no miolo alveolado.
"Obrigado", murmurou Augusto.
Ele pegou na faca e cortou a torrada. O som do crocante da crosta a quebrar-se ecoou nos seus ouvidos com uma nitidez invulgar. Levou o pão à boca. O calor do vapor, o sal da manteiga, a textura estaladiça por fora e macia por dentro... Por um segundo, o relógio na sua mente parou. Não havia memórias de como as torradas da sua mãe eram melhores, nem preocupações sobre as calorias ou o preço do trigo no próximo trimestre. Havia apenas o sabor. O presente exigi-lo-ia por inteiro, e ele, pela primeira vez em anos, cedeu.
Olhou pela janela. O nevoeiro começava a dissipar-se, rasgado por raios de sol que faziam brilhar as gotas de orvalho nas folhas de uma jovem figueira plantada no passeio. Augusto percebeu que a árvore não tentava crescer dez metros num dia, nem chorava as folhas que perdera no outono anterior. Ela apenas esticava as suas ramagens para a luz daquela manhã específica.
Ao sair da confeitaria, Augusto tomou uma decisão. Em vez de caminhar a passos largos com os olhos colados ao relógio, reduziu o ritmo. Sentiu o impacto dos seus sapatos no pavimento. Reparou na arquitetura dos prédios pelos quais passava todos os dias, descobrindo azulejos azuis e janelas de ferro forjado que nunca vira. O ar fresco da manhã entrou-lhe nos pulmões, e ele sentiu o peito expandir-se.
Ao chegar a casa, no final do dia, olhou para a sua sala com novos olhos. O espaço parecia um museu poeirento. Pegou numa caixa de cartão grande e, com uma determinação que desconhecia em si mesmo, começou a guardar as cartas antigas, os bilhetes de comboio e as fotografias dos tempos idos. Não os deitou fora — o passado fazia parte da sua história —, mas fechou a caixa e guardou-a no topo do roupeiro. O passado já não tinha permissão para mobilar a sua sala de estar.
Depois, abriu o computador e apagou as folhas de cálculo com as projeções obsessivas para as décadas seguintes. Deixou apenas um orçamento simples para o mês corrente. O futuro, compreendeu finalmente, não era um monstro a ser domado com gráficos, mas uma consequência natural do que plantava agora. Se cuidasse do dia de hoje, o amanhã saberia cuidar de si mesmo.
Augusto sentou-se na poltrona vazia. Pela primeira vez, não ligou a televisão para abafar o silêncio, nem abriu um livro para fugir da realidade. Ficou apenas ali, a ouvir o som da sua própria respiração e o tic-tac compassado do relógio, que agora já não cavava o chão, mas simplesmente marcava o ritmo da dança do agora. Estava vivo, inteiro, e o mundo acontecia exatamente naquele segundo.
Na manhã seguinte, a máquina de café de Augusto continuava avariada, mas, na verdade, ele já não tinha qualquer intenção de a consertar. O pretexto do eletrodoméstico estragado era a desculpa perfeita que a sua mente precisava para regressar àquela confeitaria da esquina. Vestiu-se sem a pressa habitual, escolhendo uma camisa lavada com um cuidado que já não dedicava a si mesmo há anos.
Ao empurrar a porta de vidro, o som do sino de metal anunciou a sua entrada. O espaço estava mais calmo do que no dia anterior. Atrás do balcão, a mesma mulher limpava a bancada de mármore com um pano de flanela. Quando olhou para cima e os seus olhos se cruzaram com os de Augusto, um sorriso aberto e genuíno iluminou-lhe o rosto, como se o reconhecesse e, mais do que isso, esperasse por ele.
"Bom dia", disse ela, antes mesmo de ele se aproximar. "O senhor do abatanado e da torrada perfeita, acertei?"
"Bom dia. Sim, acertou em cheio", respondeu Augusto, sentindo um calor invulgar subir-lhe pelas faces. "Parece que ganhei o hábito."
"Os bons hábitos são para se manter", retorquiu ela, com um brilho divertido no olhar. "O meu nome é Lana." Mas se nao quiseres esquecer é so soletrar ao contràrio! se é que me entende...
"Augusto." ah... é o meu nome! nao vou esquecer o teu nome - disse sorrindo:
Lana  indicou a mesa junto à janela, a mesma onde ele se sentara na véspera. Enquanto ela preparava o pedido, Augusto observou-a discretamente. Havia uma leveza magnética na forma como Lana se movia. Ela não parecia correr contra o tempo; parecia, antes, caminhar ao ritmo da música suave que ecoava discretamente pelas colunas da confeitaria. Quando trouxe a bandeja, não se limitou a pousar o prato. Reparando que Augusto não trazia cadernos, nem telemóvel na mão, ela hesitou por um segundo antes de falar.
"Hoje não trouxe o seu plano de recolha de dados?", perguntou Lana, apontando com o queixo para as mãos vazias dele. "Ontem parecia um homem prestes a resolver a equação do fim do mundo."
Augusto soltou uma gargalhada sincera, um som que há muito não saía da sua garganta. "Decidi deixar as equações em casa. Descobri que o pão sabe melhor quando não estou a calcular o preço do trigo para 2045."
Lana sorriu, os olhos semi-cerrados com uma empatia profunda. "É um bom começo. A maioria das pessoas entra por aquela porta a viver no ontem ou no amanhã. Quase ninguém saboreia o café enquanto ele está quente."
A conversa, que começou como uma troca de palavras casual, transformou-se nos dias seguintes no centro gravitacional da vida de Augusto. Todas as manhãs, ele sentava-se à mesma mesa. Nos momentos em que a confeitaria abrandava, Lana juntava-se a ele por cinco ou dez minutos.
Augusto descobriu que Lana tinha trinta e oito anos e uma filosofia de vida que o fascinava. Ela não carregava o peso de arrependimentos, nem sofria por antecipação. Quando Augusto, num momento de partilha mais íntimo, lhe confessou o medo que tinha de envelhecer sozinho ou de ter tomado os rumos errados na juventude, Lana pousou a mão suavemente sobre a dele. O toque foi breve, mas eletrizante.
"O passado é apenas uma história que nos contamos a nós próprios, Augusto", disse ela, olhando-o nos olhos. "E o futuro é um guião que ainda não foi escrito. A única coisa real que temos para oferecer a alguém... é este exato momento."
Aquelas palavras plantaram uma semente no peito de Augusto. O romantismo que começava a desenhar-se entre os dois não nascia de promessas grandiosas de amor eterno ou de juras sobre o amanhã. Era um romance feito de miudezas, edificado estritamente no presente. Era o toque acidental dos dedos ao partilharem um queque de canela, o brilho do sol de fim de tarde que refletia nos cabelos castanhos de Lana quando decidiram fechar a loja juntos, e o som partilhado do silêncio enquanto caminhavam pela rua.
Cerca de um mês após o primeiro encontro, numa sexta-feira à noite, Augusto ganhou coragem e esperou que Lana terminasse o turno. O céu estava limpo, pintado num tom de azul-escuro salpicado pelas primeiras estrelas da noite.
"Não tenho nenhum restaurante luxuoso reservado, nem nenhum itinerário planeado", disse ele, quando ela saiu e trancou a porta de madeira da confeitaria. "Mas a noite está bonita. Queres dar um passeio sem destino?"
Lana sorriu, entrelaçando os seus dedos nos dele. A mão dela era macia e quente, contrastando com a brisa fresca da noite. "É o melhor convite que já recebi."
Caminharam lado a lado pela cidade iluminada. Augusto já não sentia a urgência de olhar para o relógio de pulso. Não pensava na ex-namorada que o deixara, nem na solidão da sua reforma. Cada passo era uma afirmação de presença. Sentia a textura da mão de Lana, ouvia o eco dos passos de ambos no empedrado e respirava o aroma a jasmim que vinha dos jardins da zona histórica.
Pararam numa ponte pedonal sobre o rio. A água refletia as luzes amarelas dos candeeiros da cidade, criando um rasto dourado e trémulo que subia e descia ao ritmo da corrente. Lana encostou-se ao varandim de ferro e Augusto ficou a olhá-la. O vento desalinhava-lhe algumas mechas de cabelo, e ela parecia perfeitamente em paz, simplesmente observando o fluir da água.
"O que estás a pensar?", perguntou ele, a voz num sussurro.
Lana voltou-se para ele, encurtando a distância entre os dois. "Estou a pensar que este momento é perfeito. Nem antes, nem depois. Exatamente agora."
Augusto aproximou-se. Com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Lana , sentindo a pele suave da sua face. O coração dele batia com força, mas já não era a pulsação acelerada da ansiedade; era o ritmo vigoroso de um homem que se sentia, finalmente, vivo.
Quando os seus lábios se encontraram, o beijo foi calmo, profundo e pleno. Não trazia o peso da nostalgia de amores antigos, nem a exigência de promessas futuras sobre o que seriam um para o outro no dia seguinte. Era um compromisso com o agora. Naquele abraço, no meio da noite, Augusto compreendeu que o amor verdadeiro não precisa de garantias temporais para existir. Ele apenas precisa de duas pessoas inteiras, dispostas a habitar o mesmo segundo.