sexta-feira, 10 de julho de 2026

Lana

 O relógio de parede na sala de Augusto não andava para a frente; parecia, em vez disso, escavar o chão. Cada tique-taque era uma pá cheia de terra que ele atirava sobre as suas próprias pernas, enterrando-se nas recordações de um tempo que já não existia. Augusto vivia rodeado de fantasmas de papel: fotografias a preto e branco, cartas de amor escritas a tinta de aparo por uma mulher que partira há uma década, e bilhetes de comboio de viagens cujos destinos já tinham mudado de nome.

Aos quarenta e cinco anos, o seu corpo habitava o presente, mas a sua mente era uma inquilina permanente do passado. Passava os dias a tentar decifrar onde é que o rumo das coisas se tinha alterado. Se não tivesse aceitado aquele emprego, se tivesse dito aquela palavra no momento certo, se o inverno de 2016 não tivesse sido tão rigoroso… O "se" era a sua moeda corrente, uma moeda que não comprava nada no mercado da vida real.
Por outro lado, quando a melancolia do que foi lhe dava tréguas, Augusto era assaltado por uma ansiedade febril em relação ao amanhã. Engenheiro por formação, passava noites em claro a desenhar folhas de cálculo com projeções financeiras para a sua reforma, planos de contingência para crises económicas globais e listas de check-ups médicos que deveria fazer nos próximos vinte anos. Calculava a inflação, o desgaste dos materiais da casa e a probabilidade de escassez de água potável no continente.
Assim, a vida de Augusto era um balancé trágico entre a nostalgia e o pânico. O ontem era um porto seguro que se desfazia em fumo; o amanhã, uma tempestade que ele tentava prever com barómetros avariados. No meio de tudo isto, o hoje era um espaço vazio, uma ponte estreita que ele atravessava a correr, de olhos fechados, sem reparar no rio que corria por baixo.
Tudo mudou numa terça-feira de nevoeiro, quando a sua máquina de café avariou. Privado do seu ritual matinal, Augusto foi obrigado a sair de casa dez minutos mais cedo para ir à confeitaria da esquina, um lugar que ignorava há anos.
Ao entrar, o cheiro a pão quente e a canela atingiu-o como um embate físico. Sentou-se numa mesa ao canto, junto à janela. Enquanto esperava, o seu instinto imediato foi puxar pelo caderno para planear a rota de trabalho da semana seguinte, mas percebeu que se esquecera da caneta. Sem o seu escudo de futuro, e recusando-se a abrir a galeria de fotos do telemóvel para não cair no passado, Augusto olhou em volta.
Atrás do balcão, uma mulher de cabelos apanhados e avental enfarinhado sorria enquanto entregava um bolo a uma criança. A criança não pensava na digestão do açúcar, nem no dia em que seria adulta; simplesmente mordia o doce com uma entrega absoluta, fechando os olhos. Na mesa ao lado, um velho lia o jornal, saboreando o café aos golos, tão pequenos que pareciam eternos.
"O seu abatanado e a torrada, senhor", disse uma voz suave.
Augusto olhou para cima. Era a mulher do avental. O prato que ela pousou exalava um vapor denso. O pão estava tostado no ponto certo, com a manteiga a derreter-se lentamente, criando pequenas poças douradas no miolo alveolado.
"Obrigado", murmurou Augusto.
Ele pegou na faca e cortou a torrada. O som do crocante da crosta a quebrar-se ecoou nos seus ouvidos com uma nitidez invulgar. Levou o pão à boca. O calor do vapor, o sal da manteiga, a textura estaladiça por fora e macia por dentro... Por um segundo, o relógio na sua mente parou. Não havia memórias de como as torradas da sua mãe eram melhores, nem preocupações sobre as calorias ou o preço do trigo no próximo trimestre. Havia apenas o sabor. O presente exigi-lo-ia por inteiro, e ele, pela primeira vez em anos, cedeu.
Olhou pela janela. O nevoeiro começava a dissipar-se, rasgado por raios de sol que faziam brilhar as gotas de orvalho nas folhas de uma jovem figueira plantada no passeio. Augusto percebeu que a árvore não tentava crescer dez metros num dia, nem chorava as folhas que perdera no outono anterior. Ela apenas esticava as suas ramagens para a luz daquela manhã específica.
Ao sair da confeitaria, Augusto tomou uma decisão. Em vez de caminhar a passos largos com os olhos colados ao relógio, reduziu o ritmo. Sentiu o impacto dos seus sapatos no pavimento. Reparou na arquitetura dos prédios pelos quais passava todos os dias, descobrindo azulejos azuis e janelas de ferro forjado que nunca vira. O ar fresco da manhã entrou-lhe nos pulmões, e ele sentiu o peito expandir-se.
Ao chegar a casa, no final do dia, olhou para a sua sala com novos olhos. O espaço parecia um museu poeirento. Pegou numa caixa de cartão grande e, com uma determinação que desconhecia em si mesmo, começou a guardar as cartas antigas, os bilhetes de comboio e as fotografias dos tempos idos. Não os deitou fora — o passado fazia parte da sua história —, mas fechou a caixa e guardou-a no topo do roupeiro. O passado já não tinha permissão para mobilar a sua sala de estar.
Depois, abriu o computador e apagou as folhas de cálculo com as projeções obsessivas para as décadas seguintes. Deixou apenas um orçamento simples para o mês corrente. O futuro, compreendeu finalmente, não era um monstro a ser domado com gráficos, mas uma consequência natural do que plantava agora. Se cuidasse do dia de hoje, o amanhã saberia cuidar de si mesmo.
Augusto sentou-se na poltrona vazia. Pela primeira vez, não ligou a televisão para abafar o silêncio, nem abriu um livro para fugir da realidade. Ficou apenas ali, a ouvir o som da sua própria respiração e o tic-tac compassado do relógio, que agora já não cavava o chão, mas simplesmente marcava o ritmo da dança do agora. Estava vivo, inteiro, e o mundo acontecia exatamente naquele segundo.
Na manhã seguinte, a máquina de café de Augusto continuava avariada, mas, na verdade, ele já não tinha qualquer intenção de a consertar. O pretexto do eletrodoméstico estragado era a desculpa perfeita que a sua mente precisava para regressar àquela confeitaria da esquina. Vestiu-se sem a pressa habitual, escolhendo uma camisa lavada com um cuidado que já não dedicava a si mesmo há anos.
Ao empurrar a porta de vidro, o som do sino de metal anunciou a sua entrada. O espaço estava mais calmo do que no dia anterior. Atrás do balcão, a mesma mulher limpava a bancada de mármore com um pano de flanela. Quando olhou para cima e os seus olhos se cruzaram com os de Augusto, um sorriso aberto e genuíno iluminou-lhe o rosto, como se o reconhecesse e, mais do que isso, esperasse por ele.
"Bom dia", disse ela, antes mesmo de ele se aproximar. "O senhor do abatanado e da torrada perfeita, acertei?"
"Bom dia. Sim, acertou em cheio", respondeu Augusto, sentindo um calor invulgar subir-lhe pelas faces. "Parece que ganhei o hábito."
"Os bons hábitos são para se manter", retorquiu ela, com um brilho divertido no olhar. "O meu nome é Lana." Mas se nao quiseres esquecer é so soletrar ao contràrio! se é que me entende...
"Augusto." ah... é o meu nome! nao vou esquecer o teu nome - disse sorrindo:
Lana  indicou a mesa junto à janela, a mesma onde ele se sentara na véspera. Enquanto ela preparava o pedido, Augusto observou-a discretamente. Havia uma leveza magnética na forma como Lana se movia. Ela não parecia correr contra o tempo; parecia, antes, caminhar ao ritmo da música suave que ecoava discretamente pelas colunas da confeitaria. Quando trouxe a bandeja, não se limitou a pousar o prato. Reparando que Augusto não trazia cadernos, nem telemóvel na mão, ela hesitou por um segundo antes de falar.
"Hoje não trouxe o seu plano de recolha de dados?", perguntou Lana, apontando com o queixo para as mãos vazias dele. "Ontem parecia um homem prestes a resolver a equação do fim do mundo."
Augusto soltou uma gargalhada sincera, um som que há muito não saía da sua garganta. "Decidi deixar as equações em casa. Descobri que o pão sabe melhor quando não estou a calcular o preço do trigo para 2045."
Lana sorriu, os olhos semi-cerrados com uma empatia profunda. "É um bom começo. A maioria das pessoas entra por aquela porta a viver no ontem ou no amanhã. Quase ninguém saboreia o café enquanto ele está quente."
A conversa, que começou como uma troca de palavras casual, transformou-se nos dias seguintes no centro gravitacional da vida de Augusto. Todas as manhãs, ele sentava-se à mesma mesa. Nos momentos em que a confeitaria abrandava, Lana juntava-se a ele por cinco ou dez minutos.
Augusto descobriu que Lana tinha trinta e oito anos e uma filosofia de vida que o fascinava. Ela não carregava o peso de arrependimentos, nem sofria por antecipação. Quando Augusto, num momento de partilha mais íntimo, lhe confessou o medo que tinha de envelhecer sozinho ou de ter tomado os rumos errados na juventude, Lana pousou a mão suavemente sobre a dele. O toque foi breve, mas eletrizante.
"O passado é apenas uma história que nos contamos a nós próprios, Augusto", disse ela, olhando-o nos olhos. "E o futuro é um guião que ainda não foi escrito. A única coisa real que temos para oferecer a alguém... é este exato momento."
Aquelas palavras plantaram uma semente no peito de Augusto. O romantismo que começava a desenhar-se entre os dois não nascia de promessas grandiosas de amor eterno ou de juras sobre o amanhã. Era um romance feito de miudezas, edificado estritamente no presente. Era o toque acidental dos dedos ao partilharem um queque de canela, o brilho do sol de fim de tarde que refletia nos cabelos castanhos de Lana quando decidiram fechar a loja juntos, e o som partilhado do silêncio enquanto caminhavam pela rua.
Cerca de um mês após o primeiro encontro, numa sexta-feira à noite, Augusto ganhou coragem e esperou que Lana terminasse o turno. O céu estava limpo, pintado num tom de azul-escuro salpicado pelas primeiras estrelas da noite.
"Não tenho nenhum restaurante luxuoso reservado, nem nenhum itinerário planeado", disse ele, quando ela saiu e trancou a porta de madeira da confeitaria. "Mas a noite está bonita. Queres dar um passeio sem destino?"
Lana sorriu, entrelaçando os seus dedos nos dele. A mão dela era macia e quente, contrastando com a brisa fresca da noite. "É o melhor convite que já recebi."
Caminharam lado a lado pela cidade iluminada. Augusto já não sentia a urgência de olhar para o relógio de pulso. Não pensava na ex-namorada que o deixara, nem na solidão da sua reforma. Cada passo era uma afirmação de presença. Sentia a textura da mão de Lana, ouvia o eco dos passos de ambos no empedrado e respirava o aroma a jasmim que vinha dos jardins da zona histórica.
Pararam numa ponte pedonal sobre o rio. A água refletia as luzes amarelas dos candeeiros da cidade, criando um rasto dourado e trémulo que subia e descia ao ritmo da corrente. Lana encostou-se ao varandim de ferro e Augusto ficou a olhá-la. O vento desalinhava-lhe algumas mechas de cabelo, e ela parecia perfeitamente em paz, simplesmente observando o fluir da água.
"O que estás a pensar?", perguntou ele, a voz num sussurro.
Lana voltou-se para ele, encurtando a distância entre os dois. "Estou a pensar que este momento é perfeito. Nem antes, nem depois. Exatamente agora."
Augusto aproximou-se. Com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Lana , sentindo a pele suave da sua face. O coração dele batia com força, mas já não era a pulsação acelerada da ansiedade; era o ritmo vigoroso de um homem que se sentia, finalmente, vivo.
Quando os seus lábios se encontraram, o beijo foi calmo, profundo e pleno. Não trazia o peso da nostalgia de amores antigos, nem a exigência de promessas futuras sobre o que seriam um para o outro no dia seguinte. Era um compromisso com o agora. Naquele abraço, no meio da noite, Augusto compreendeu que o amor verdadeiro não precisa de garantias temporais para existir. Ele apenas precisa de duas pessoas inteiras, dispostas a habitar o mesmo segundo.


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