quinta-feira, 20 de abril de 2017

a consulta nº 2

O que mais me impressionou, não foi o estado das pessoas que em breve nos vão deixar, mas sim, a expressão, o olhar, e o modo de estar dos familiares, filhos e amigos.
Antes eu não sabia interpretar um olhar, não me interessava, o verbo era o suficiente.
Hoje, eu sei interpretar os silêncios, os olhares vazios, os cheios, os distantes. O olhar diz tudo.
Não vi aqui nenhum cristalino , que brilhasse, que radiasse vida.
Custou-me (horrores) olhar um filho de dez anos agarrado à mão do pai. A sua ausência em casa deve ser notada pelo pequeno. A esposa evita o máximo a sua presença e vai para o corredor.
Outra, a mulher do futebolista trás os amigos, e a amena cavaqueira ilude o silêncio e algumas conversas menos próprias.
Chegar uma pessoa e cumprimentar um morto vivo com um: Então?! tás bom?! é de uma falta de coerência absoluta. As pessoas que estão bem não sabem o que é estar mal. Eles já nem estão aí para certas coisas, certas conversas, certos comportamentos. Apenas esperam pelo seu momento.
Eu saí pelo próprio pé, até ao pseudo jardim, vejo o que eu quero, o que não quero, e imagino aquela menina sem cabelo de novo com tranças louras até ao fundo das costas.
Na semana seguinte perguntei pela Alice, a menina das tranças louras , o assistente abanou a cabeça e seguiu cabisbaixo. Não precisei de mais nada...
Nisto perco-me, deambulo pelos caminhos , sem saber para onde vou, e porque vou, penso naquilo que eu fiz até hoje, aquilo que me aconteceu até hoje. Eu tenho razão em não fazer planos, hoje sim, é o meu plano, e tenho que fazer. Amanhã, sei lá...é outro dia.
Deixei a sala dos "injetados" , despedi-me de cada um deles decentemente, saí pelo próprio pé, esperavam-me no automóvel e segui para casa. Amanhã é outro dia.
Afinal, é bom estar vivo, para contar, fazer, sentir, e dizer verdades...todas, antes que não haja mais tempo nenhum.
Não falei da minha consulta, nem precisei, passar receitas de medicamentos e mais medicamentos.
Aos 45 anos sou um drogado em pleno...Raio de vida esta.

terça-feira, 18 de abril de 2017

a consulta nº 1

Eu guardo tudo para o fim. Tenho pavor a hospitais, não gosto de tomar medicamentos. Mas a dor intensa obrigou-me a ir a um especialista. Um conhecido da família, daqueles que se tratam por TU.
Estando no estrangeiro, esta foi provavelmente a melhor alternativa. Não há filas, não há listas de espera, os testes são feitos na hora...e a conta no final também é grande.
Lembro-me dos primeiros sintomas, pensava que era normal, mas a minha performence foi das melhores que eu tive. Foi mesmo. Por isso pensei mesmo que seria normal.
Os anos foram passando, e de vez em quando tinha dores horríveis, lembro-me de um dia em plena formação profissional, onde era monitor, tive de finalizar a acção e mandar os meus formandos para casa. Rebolei pela sala dentro, parecia que tinha o demónio no corpo.
Chegou o dia da primeira consulta, e lá fui eu ao sitio do costume, já conheço infelizmente os cantos à casa.
Dias antes tinha feito análises a tudo, uma bateria de testes como eu nunca tinha sido sujeito.
Quando cheguei ao gabinete médico, os meus exames já tinham sido analisados.
Eu estava sentado e olhámos um para o outro de frente, ele perguntou a minha idade, eu disse, 45.
Perguntou-me se eu era casado, eu disse que não. Perguntou-me se tinha companheira , eu disse que não. Depois fez uma pergunta relacionada, para mim foi estranha, mas hoje percebo a razão da qual. Não interessa muito para esta parte.
- Tens aqui uma coisita...
Eu não gosto de meias palavras, principalmente neste tipo de consulta. E fui directo à questão. É grave? sim ou não?
Ao que ele respondeu que era grave, tratável, mas, eu teria que fazer um esforço para vencer aquilo que eu não sabia o que era.
O médico explicou-me como seriam as minhas próximas horas, os meus próximos dias. Eu não achei muita piada aquilo...e estivemos mais de duas horas dentro do gabinete.
Fiz um tratamento rápido de duas semanas no IPO, e só tinha mais uma semana de férias. Seriam decisivas para a minha viagem de regresso ou não. O meu trabalho estava em risco, mas na altura pouco pensava em trabalho.
Ia e vinha duas vezes por dia fazer tratamento, fiz acupuntura, e fiz uma dieta diabólica, perdi algum peso, normal,nestas situações. O meu corpo mesmo assim parecia uma bola, os corticóides, e a HPB fizeram de mim o mais belo e mais perfeito boneco da Michelin.
(...)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

a vida que te vê partir

É provavelmente uma das maiores epidemias do mundo atual, e,  muito provavelmente terá concerteza uma dimensão muito maior neste novo século. O Cancro.
A besta como alguns especialistas a tratam, não escolhe género, raça, rico ou pobre...vem de mansinho sem dor, a sua principal característica, depois instala-se onde quer, e depois faz-nos apodrecer por dentro até ao ultimo suspiro. A vida torna-se numa contagem decrescente, num cronómetro de qual atleta olímpico...um segundo é um segundo, e um minuto de vida vale mais do que um copo de água de alguém com muita sede.
Inventaram-se medicamentos tão potentes que para atenuar a nossa dor, ainda conduzem à nossa morte ainda com mais avidez. Os psicotrópicos, a morfina, e um cocktail em forma de liquido, injectável intravenosa , mais conhecida por quimioterapia são os inibidores da dor que persiste em não sair, às vezes cura outras não...até à hora da morte.
Uma sala, com seis pessoas semi deitadas aguardam pela sua "dose" uns fazem rádio outros quimio.
Esperam, olham-se uns aos outros, calculam quem vai primeiro.
Há momentos de conversas, sobre tudo, come se fosse uma família num jantar de Natal, interessante ouvir temas que normalmente não se discute nos dias de hoje, e urge pensar, porque não se fez enquanto se tinha saúde. Dizem-se verdades, chamam-se os "bois" pelos nomes...interessante e triste ao mesmo tempo. Ninguém vai preso por dizer a verdade- diz um homem, totalmente acabado, tem um tumor maligno no Pancreas. Deve ter meses de vida, dois ou três no máximo.
A violência como a "besta" vai comendo as pessoas é um segredo ainda não descoberto.
Era um atleta, jogador de futebol, da segunda divisão. Começou por ter dores nas costas, era normal,segundo o médico da equipa onde jogava, que seria o cansaço normal depois de 90 minutos a correr. Era ponta de lança, e marcava muitos golos. Disse-nos uma vez. Depois vieram os vómitos durante o jogo, sangue quando urinava e depois de um exame de rotina veio a noticia. Estava a prazo.
Outro homem, da Guarda, serrano de gema, sem papas na língua, é o mais falador. O tabaco foi a sua companhia durante quarenta e sete anos, chegava a fumar aos três maços por dia. Foi um suicídio lento, eram a sua companhia de viajem, foi camionista.
Começou com uma simples rouquidão, depois uma tosse muito seca, respiração limitada, ausência de sono, e a dificuldade em engolir alimentos levou-o às urgências para ser diagnosticado um tumor maligno nos pulmões. Já estava à espera, disse ele, como se fosse uma"coisa" normal.
E depois há os outros, coisas simples, como um sinal que aparece, numa perna, e que não é nada demais, e um mês depois brota uma espécie de pus amarelo. Não se sabe se foi sol a mais na praia, ou outra coisa qualquer...aquilo simplesmente aparece.
Sentados, ali, à espera que a vida os veja partir, para que outros os substituam nos seus lugares.

domingo, 12 de março de 2017

mutações


Esta foto é da "nação" Anonymous France e nela é revelada a verdadeira condição de um povo em democracia, na actualidade, neste mundo em que vivemos.
A tradução deste texto pode ser lida da seguinte forma : Façamos antes amor do que ir votar! Porque se é para levar no cú, mais vale ter prazer!!

sábado, 11 de março de 2017

o valor das coisas, que não as pessoas

Acabei de ler um artigo interessante na Time.
O titulo é : Que fotografias as pessoas colocam sobre as suas vidas no Face e no Istagram.
90 % é a casa, que geralmente é muito grande;
80 % são fotos dos automóveis - viaturas de luxo;
75 % São as jóias, e valores como quadros de autores/artistas conhecidos;
60% Fotos de corpos esbeltos trabalhados em ginásios;
50% Viagens exóticas;
40 % Compras.
Eu não quero fazer aqui nenhum julgamento sumário, mas dá-me a impressão que a vida correu-me mesmo mal!!!
Então vejamos, não tenho carro, não tenho uma casa própria, não tenho luxos, não viajo em lazer/ferias, não sou casado, eh pá...isto faz de mim o quê? se a maioria das pessoas é assim!?
Ou sou eu que continuo errado ou são as pessoas que estão certas.
Mas o que eu retirei deste estudo é que o mundo está mais "virado" para a coisa palpável para o "ter" do que para a importância das "pessoas", do Homem/mulher.
Eu, não me espantei com isto, acho natural, mas tudo isto tem um final, e o final não é lá muito feliz.
Bem, pelo menos que eu seja feliz, e à minha maneira!

a minha saúde

0,0009 % de pessoas sabem que eu não ando bem, em termos de saúde.
Não sou mais do que os outros, e também as apanho.
Tenho escondido "isto" às pessoas que eu gosto mais, para não terem que engolirem a seco, pode ser uma má atitude ou falha da minha parte.
Apesar de tudo, e bem pensado, prefiro vê-los(as) com os seus sorrisos. É melhor assim...
Do meu sofrimento posso muito bem com ele, houve outro muito maior do que este e tive de sobreviver também...como eu costumo dizer: vicissitudes da vida.
Também costumo dizer que nos últimos 5 anos da minha vida tudo o que me acontece tem uma razão de ser, um significado, um propósito - seja ele qual seja, bom ou mau não interessa.
Esta também...
"Acordou" de novo, e as minhas bem-ditas férias afinal vão resultar em consultas rápidas de urgência, outra vez, e mais viagens daqui para ali.
Lá se vão as minhas férias...pelo menos ainda estou vivo, espero!
:(