segunda-feira, 17 de abril de 2017

a vida que te vê partir

É provavelmente uma das maiores epidemias do mundo atual, e,  muito provavelmente terá concerteza uma dimensão muito maior neste novo século. O Cancro.
A besta como alguns especialistas a tratam, não escolhe género, raça, rico ou pobre...vem de mansinho sem dor, a sua principal característica, depois instala-se onde quer, e depois faz-nos apodrecer por dentro até ao ultimo suspiro. A vida torna-se numa contagem decrescente, num cronómetro de qual atleta olímpico...um segundo é um segundo, e um minuto de vida vale mais do que um copo de água de alguém com muita sede.
Inventaram-se medicamentos tão potentes que para atenuar a nossa dor, ainda conduzem à nossa morte ainda com mais avidez. Os psicotrópicos, a morfina, e um cocktail em forma de liquido, injectável intravenosa , mais conhecida por quimioterapia são os inibidores da dor que persiste em não sair, às vezes cura outras não...até à hora da morte.
Uma sala, com seis pessoas semi deitadas aguardam pela sua "dose" uns fazem rádio outros quimio.
Esperam, olham-se uns aos outros, calculam quem vai primeiro.
Há momentos de conversas, sobre tudo, come se fosse uma família num jantar de Natal, interessante ouvir temas que normalmente não se discute nos dias de hoje, e urge pensar, porque não se fez enquanto se tinha saúde. Dizem-se verdades, chamam-se os "bois" pelos nomes...interessante e triste ao mesmo tempo. Ninguém vai preso por dizer a verdade- diz um homem, totalmente acabado, tem um tumor maligno no Pancreas. Deve ter meses de vida, dois ou três no máximo.
A violência como a "besta" vai comendo as pessoas é um segredo ainda não descoberto.
Era um atleta, jogador de futebol, da segunda divisão. Começou por ter dores nas costas, era normal,segundo o médico da equipa onde jogava, que seria o cansaço normal depois de 90 minutos a correr. Era ponta de lança, e marcava muitos golos. Disse-nos uma vez. Depois vieram os vómitos durante o jogo, sangue quando urinava e depois de um exame de rotina veio a noticia. Estava a prazo.
Outro homem, da Guarda, serrano de gema, sem papas na língua, é o mais falador. O tabaco foi a sua companhia durante quarenta e sete anos, chegava a fumar aos três maços por dia. Foi um suicídio lento, eram a sua companhia de viajem, foi camionista.
Começou com uma simples rouquidão, depois uma tosse muito seca, respiração limitada, ausência de sono, e a dificuldade em engolir alimentos levou-o às urgências para ser diagnosticado um tumor maligno nos pulmões. Já estava à espera, disse ele, como se fosse uma"coisa" normal.
E depois há os outros, coisas simples, como um sinal que aparece, numa perna, e que não é nada demais, e um mês depois brota uma espécie de pus amarelo. Não se sabe se foi sol a mais na praia, ou outra coisa qualquer...aquilo simplesmente aparece.
Sentados, ali, à espera que a vida os veja partir, para que outros os substituam nos seus lugares.

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