O silêncio do quarto era interrompido apenas pelo som abafado dos vídeos curtos que passavam rapidamente no ecrã do telemóvel. Sentados no sofá de pele desgastada, o casal de cinquenta e poucos anos partilhava o mesmo espaço, mas habitava mundos completamente distintos. Ela, com os óculos de leitura na ponta do nariz, estava submersa nas páginas densas e absurdas de Samuel Beckett, procurando uma quietude intelectual. Ele, por sua vez, saltava freneticamente entre golos de futebol, receitas de bifes suculentos e imagens de praias desertas em tons de azul-turquesa no TikTok.
De repente, ele bloqueou o ecrã, olhou para o teto e quebrou o ambiente com uma pergunta direta, sem qualquer filtro:
— Porque é que as brasileiras são tão naturais e dão o cu com tanta facilidade?
Ela não desviou os olhos do livro imediatamente. Marcou a página com o indicador, respirou fundo e tirou os óculos devagar. O choque com a crueza da frase deu lugar a uma expressão de cansaço misturada com ironia.
— Tu passas de receitas de culinária para a sociologia barata de vão de escada num segundo, não é? — respondeu ela, com uma voz calma, mas cortante. — Estavas a ver o quê no telemóvel para te lembrares disso?
— Nada, quer dizer, apareceu um podcast com um gajo a falar sobre as diferenças culturais nos relacionamentos — justificou ele, ajeitando-se no sofá. — Mas a questão é real. Há toda uma narrativa, que se ouve desde sempre, sobre a mulher brasileira ter uma relação muito mais aberta, livre e desinibida com o corpo do que as europeias. Parece que para elas o sexo não carrega aquela culpa católica ou o peso do tabu que nós temos aqui. É tudo mais... natural.
Ela pousou o livro no colo, cruzando os braços. A perspetiva de discutir a sexualidade alheia com base em estereótipos de internet não a entusiasmava, mas a análise do comportamento humano sempre a atraía.
— Tu estás a confundir liberdade e naturalidade com hipersexualização e fetiche — começou ela, desconstruindo o argumento. — O que tu chamas de "facilidade" ou "libertinagem bem conhecida" é o resultado de séculos de um olhar colonial e machista sobre o corpo da mulher latina, especialmente a brasileira. Desde a literatura até ao turismo sexual, vendeu-se ao mundo a ideia de que a mulher daquela geografia está sempre disponível, alegre e sem barreiras morais. Isso não é necessariamente a realidade delas; é a fantasia de quem olha de fora.
— Eu percebo a parte histórica — insistiu ele, sem querer dar o braço a torcer. — Mas não podes negar que há uma diferença cultural na forma como o corpo é vivido. Na praia, no Carnaval, na forma de falar. Há uma sensualidade que parece intrínseca. Se uma mulher cresce num ambiente onde o corpo não é pecado, a intimidade e certas práticas sexuais deixam de ser um bicho-de-sete-cabeças ou um tabu intransponível. Torna-se apenas sexo, prazer mútuo.
— Há uma nuance aí — contrapôs ela. — Uma coisa é a celebração do corpo e a descontração estética, que de facto existe devido ao clima e à cultura de praia. Outra coisa é a intimidade entre quatro paredes. O Brasil é um país profundamente religioso, conservador e, infelizmente, com taxas altíssimas de violência doméstica. Essa imagem de libertinagem total é uma generalização perigosa. Muitas vezes, o que parece "facilidade" para o homem estrangeiro é apenas a simpatia natural de um povo, que é imediatamente mal interpretada por quem foi educado na repressão.
Ele ficou em silêncio por uns instantes, processando as palavras da mulher. Voltou a olhar para o telemóvel desligado e depois para o livro de Beckett no colo dela.
— Talvez tenhas razão em parte — admitiu ele, o tom agora mais reflexivo. — Mas a verdade é que o mito urbano ganhou vida própria. E no imaginário masculino, essa ideia de uma mulher que vive a sexualidade sem travas, sem joguinhos e de forma direta, é quase um éden. É o oposto daquela rigidez que muitas vezes destrói o desejo.
— O desejo alimenta-se do que é exótico e proibido — concluiu ela, recolocando os óculos. — Mas o éden que tu vês no ecrã é apenas um algoritmo a vender-te o que tu queres consumir. A vida real, tanto cá como lá, dá muito mais trabalho do que um vídeo de trinta segundos.
Ela reabriu o livro na página marcada, devolvendo a sala ao silêncio. Ele permaneceu a olhar para o vazio, a questionar se a sua curiosidade era apenas fruto da cultura digital ou de uma nostalgia silenciosa pela espontaneidade que a rotina de meia-idade lhes tinha roubado.
Ele mexeu-se na cama, o som do lençol roçando no colchão quebrando novamente o silêncio que ela tentava restabelecer. Aproximou-se mais, apoiando-se no cotovelo para conseguir olhar de cima para as páginas do livro que ela segurava. O calor do corpo dele quebrou a distância fria que a discussão teórica tinha criado.
— E entre nós? — perguntou ele, a voz agora num tom mais baixo, quase um sussurro, despida daquela pose de debate de internet. — Também há um algoritmo a ditar as regras ou fomos nós que criámos os nossos próprios tabus?
Ela não se mexeu imediatamente. Os olhos continuaram fixos na mesma frase de Beckett, mas a respiração mudou de ritmo. Devagar, baixou o livro até ao peito, mantendo-o como uma barreira defensiva.
— O que é que queres dizer com isso? — perguntou ela, virando ligeiramente o rosto para o encarar.
— Quero dizer que passámos a última meia hora a intelectualizar a sexualidade dos outros, a falar de colónias, de história e de redes sociais — disse ele, estendendo a mão livre para tocar de leve no ombro dela, deslizando os dedos pela alça da camisa de noite. — Mas a verdade é que estamos aqui deitados, na mesma cama, há anos. E quando foi a última vez que fomos espontâneos? Sem guiões, sem pensar no que é correto ou no que é suposto ser?
Ela sentiu o toque dele, um contraste físico com a rigidez das ideias que defendia segundos antes. Tirou os óculos de leitura e pousou-os, juntamente com o livro, na mesa de cabeceira. O quarto parecia subitamente mais pequeno, e a iluminação suave do candeeiro criava sombras longas nas paredes.
— Estás a tentar usar uma fantasia masculina do TikTok para justificar uma cobrança na nossa cama? — questionou ela, embora o tom já não fosse de censura, mas sim de uma curiosidade genuína e ligeiramente desafiadora.
— Não é uma cobrança — respondeu ele, aproximando o rosto do pescoço dela, sentindo o aroma familiar do creme que ela usava antes de dormir. — É uma provocação. Fiquei a pensar no que disseste sobre a rigidez que destrói o desejo. Se calhar, nós deixámo-nos prender demasiado pelas convenções que criticamos. Essa "naturalidade" que eu estava a questionar... não achas que nos faz falta aqui? Deixar as barreiras de lado.
Ela soltou um leve suspiro, sentindo a proximidade dele. A conversa, que começara com um comentário cru e quase vulgar, tinha-se transformado numa linha ténue entre o confronto e o convite. Ela olhou-o nos olhos, avaliando a seriedade daquela aproximação.
— Tens noção de que a vida real não se resolve com a ousadia artificial de um ecrã, pois não? — disse ela, embora a sua mão se tenha movido timidamente para o peito dele, sentindo o bater do seu coração. — Despir os tabus dá mais trabalho do que simplesmente falar sobre eles.
— Eu sei — sussurrou ele, reduzindo a distância entre os dois até que os lábios quase se tocassem. — Mas estamos aqui deitados. E temos a noite toda para começar a tentar.
Ela olhou-o nos olhos, mantendo a mão pousada no peito dele, mas sem recuar. O jogo psicológico que sempre tinha feito parte da dinâmica deles — aquela mistura de inteligência e provocação — estava agora no auge. Ela deixou pairar um sorriso enigmático nos lábios antes de quebrar o silêncio com uma sinceridade desarmante.
— Nós fizemos tanta coisa boa sexual em jovens, em idade madura... E hoje fazemos o que podemos — disse ela, a voz firme, mas carregada de uma sensualidade madura. — Eu já não tenho vinte anos, mas tu podes atacar-me à vontade! Isso nunca te proibi. E eu sou também muito liberta em relação às mulheres da minha idade. Alem disso se bem me lembro num fim de semana no bungalow da nossa praia tu puseste-me de quatro inclinada à frente e fizeste-me um oral Anal o qual eu nao gostei! nao gosto mesmo!!! o resto sempre dei tudo de mim para ti, nao te podes queixar...
Ele fixou o olhar nela, surpreendido pela resposta. A crueza inicial da pergunta dele tinha encontrado não uma barreira de puritanismo, mas sim um espelho de honestidade. O desafio dela subiu o tom do jogo. Ele percebeu que ela não estava a fugir do desejo; estava a exigir que ele passasse das palavras da internet à ação real, despindo-se de desculpas.
— Tu sabes perfeitamente que nunca foi uma questão de proibição — retorquiu ele, a voz um pouco mais densa, enquanto a mão dele subia pelo braço dela, exercendo uma pressão suave, mas firme. — Foi a rotina que nos anestesiou. Ouvir-te falar assim... lembra-me exatamente do porquê de nos termos escolhido. Tu sempre foste mais livre do que queres parecer com esse livro de Beckett na mão.
— A liberdade não se exibe, vive-se — respondeu ela, inclinando ligeiramente a cabeça, expondo a linha do pescoço à luz difusa do quarto. — Eu não preciso de dançar na televisão nem de seguir guiões de podcasts para saber o que gosto ou o que sou capaz de fazer aqui contigo. A questão aqui, meu querido, nunca foi a minha falta de liberdade. A questão é se tu tens estofo para aguentar o que uma mulher da minha idade, com a minha experiência, te pode dar quando decide esquecer as regras.
O comentário caiu como uma luva no ego dele, acendendo uma faísca que há muito estava adormecida. O contraste entre a mente analítica dela e a entrega física que ela acabara de autorizar — e provocar — eliminou qualquer rasto de distração digital. O telemóvel na mesa de cabeceira estava esquecido; o foco era total e absoluto um no outro.
— Estás a desafiar-me? — perguntou ele, aproximando-se ainda mais, até sentir o calor da respiração dela.
— Estou a dizer-te que o campo está aberto — sussurrou ela, os olhos semicerrados, sustentando o olhar dele com uma confiança implacável. — Agora, deixa de falar sobre o que lês nos ecrãs e mostra-me o que queres fazer com essa tua curiosidade toda.
Em vez de esperar pela reação dele, ela moveu-se com uma agilidade que desarmou qualquer intenção de domínio que ele pudesse planear. Com um movimento fluido, ela sentou-se na cama, deixando cair o lençol até à cintura. Ficou por cima dele, as pernas contornando os seus quadris, invertendo instantaneamente a hierarquia física e psicológica daquele momento.
Ele, apanhado de surpresa, deixou-se cair de costas nas almofadas, olhando para ela de baixo para cima. A luz do candeeiro de cabeceira iluminava agora os contornos do corpo dela, conferindo-lhe uma autoridade incontestável no quarto.
— Falas muito sobre a "facilidade" das outras — sussurrou ela, inclinando-se para a frente, apoiando as mãos no peito dele, sentindo os seus batimentos cardíacos acelerarem. — Mas a verdade é que tu queres que te facilitem o trabalho. Queres a fantasia mastigada que o ecrã te dá. Diz-me: aguentas a complexidade de uma mulher inteira, ou o teu fôlego só dura os trinta segundos do teu vídeo?
Ele engoliu em seco, sentindo o peso e o calor dela sobre o seu corpo. O tom provocador dela atingia-o diretamente no ego, mas, ao mesmo tempo, acendia um desejo que ele já não sentia há anos com aquela intensidade.
— Tu sabes perfeitamente que eu aguento — respondeu ele, a voz um pouco mais rouca, tentando subir as mãos para as coxas dela para recuperar alguma iniciativa.
Ela, no entanto, segurou-lhe os pulsos com firmeza, mantendo-os colados ao colchão. O sorriso dela era puramente vitorioso.
— Não te mexas. Tu querias ver naturalidade e libertinagem, não era? Pois bem, vais ver a minha — disse ela, aproximando os lábios do ouvido dele, deixando que a sua respiração quente lhe arrepiasse a pele. — Vamos ver se essa tua obsessão pelo que as mulheres fazem na internet se aguenta quando eu decidir fazer exatamente o que me apetecer contigo hoje. Sem te pedir licença. Sem te dar o guião que estás habituado a controlar.
— Estás a abusar do teu poder — murmurou ele, embora o seu corpo respondesse de forma óbvia à submissão forçada que ela lhe impunha.
— Estou a exercer o meu direito — retorquiu ela, fitando-o com um olhar felino e implacável. — Tu disseste que eu te podia atacar à vontade, mas esqueceste-te de que eu prefiro ditar as regras do ataque. Se queres o éden, meu querido, vais ter de passar pelo meu purgatório primeiro.
Ela soltou os pulsos dele devagar, mas não recuou. Deslizou as mãos pelo peito dele até à linha da cintura, mantendo o controlo absoluto de cada centímetro de distância entre os dois, desafiando-o a tentar quebrar aquela tensão com um simples olhar.
Ela não tinha pressa. Cada movimento era calculado para estender a submissão dele e saborear o poder que detinha naquele momento. Mantendo os olhos fixos nos dele, ela levou as mãos à alça da camisa de noite. Com um gesto lento e deliberado, despiu-a por completo, deixando o tecido escorregar pelo corpo até se perder no emaranhado dos lençóis.
Ela ficou ali, inteiramente nua sobre ele, sob a luz âmbar do quarto. O tempo parecia ter parado.
Ele prendeu a respiração. O cinismo que trouxera das redes sociais dissolveu-se num segundo. Olhar para a sua esposa daquela forma, despida de defesas e de convenções, foi como sofrer um embate de realidade. Os contornos da maturidade na pele dela, longe das imagens filtradas e artificiais do telemóvel, traziam uma beleza real, palpável e avassaladora. Ele rendeu-se por completo. Era como se tivesse esquecido, ao longo dos anos e da rotina, a força da mulher com quem partilhava a vida.
— Tu estavas a olhar para um ecrã à procura de paraísos na terra — sussurrou ela, com a voz carregada de uma ironia sensual, enquanto deslizava as mãos pelas coxas dele, sublinhando o seu domínio. — Diz-me: o teu algoritmo consegue recriar isto?
— Não... — conseguiu ele dizer, a voz falha, os olhos colados às formas dela, fascinado pela segurança que ela emanava. — Eu esqueci-me... Esqueci-me de como és bonita quando queres.
— Esqueceste-te porque te deixaste anestesiar — ripostou ela, inclinando-se ligeiramente, aproximando os seios do peito dele, mas sem se entregar por completo. Mantinha-o à distância ideal para o testar. — Tu queres a facilidade das fantasias porque tens preguiça de conquistar o que está ao teu lado. Achas que as brasileiras ou quaisquer outras mulheres são libertas por magia? Não, meu querido. A liberdade conquista-se. E eu acabei de conquistar esta cama.
— Tu ganhaste — murmurou ele, as mãos a tremer de desejo, implorando silenciosamente com o olhar para lhe poder tocar. — Faz o que quiseres comigo. Já não há telemóvel, já não há mais nada. Só tu.
— É bom que saibas disso — concluiu ela, com um sorriso vitorioso e felino, aproximando o rosto do dele até que as suas respirações se misturassem. — Porque hoje tu não vais ver vídeos. Hoje tu vais ter de aguentar o ritmo de uma mulher de verdade.
Ela inclinou-se lentamente, eliminando finalmente o espaço entre os dois. O beijo começou como o resto do jogo: dominador, profundo e carregado daquela audácia que a rotina lhes tinha roubado. Ele envolveu-lhe a cintura com as mãos, rendido ao calor e à pele da esposa, deixando-se guiar pelo ritmo que ela impunha. O quarto, antes frio e silencioso, transformou-se no palco de uma entrega absoluta. Já não havia trinta segundos de vídeo, nem fetiches de internet, nem a distância dos cinquenta anos; havia apenas o reencontro físico de dois corpos que sabiam exatamente como dar prazer um ao outro. Foram livres, intensos e cúmplices, redescobrindo que a maturidade trazia uma crueza muito mais interessante do que as fantasias da juventude.
Passado algum tempo, a respiração de ambos acalmou. O calor do ato deu lugar ao aconchego reconfortante dos lençóis puxados até ao peito. Ele abraçou-a de lado, com o braço pesado e relaxado sobre o corpo dela, sentindo uma paz e uma satisfação que já não experimentava há muito.
Inclinando-se, ele deu-lhe um beijo de boa noite terno na testa, fechando os olhos com um sorriso nos lábios.
Ela ajeitou-se no travesseiro, olhou de soslaio para o telemóvel dele que continuava apagado na mesa de cabeceira e, antes de se virar para o seu lado da cama, quebrou o silêncio final com uma última e implacável provocação:
— De mim tens tudo em termos de sexo, já o CU, e o meu, NÃO!!!
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