segunda-feira, 31 de agosto de 2026

podia acabar o mundo...

 A noite em que a Morte decidiu partilhar a mesa do jantar começou sem trovões ou presságios góticos. Não houve velas que se apagaram subitamente, nem o ladrar distante de cães assustados. Houve apenas o som metálico de um talher extra a poisar sobre a madeira da mesa e uma presença que preencheu o espaço vazio entre a cozinha e a sala.

Ela não vestia uma capa esfarrapada, nem carregava uma gadanha colossal. Apresentou-se com a discrição de quem pertence ao cenário, uma silhueta tecida com a textura do crepúsculo. Quando se sentou, o vapor da sopa de legumes pareceu hesitar no ar, congelado por um breve instante antes de continuar a sua ascensão vertical.
— Está na hora — disse Ela. A voz não era cavernosa; soava como o restolhar de folhas secas num jardim outonal, mansa e irrevogável.
Olhei para o prato, depois para o relógio na parede, cujos ponteiros continuavam o seu tique-taque indiferente, e finalmente para os olhos daquela visitante, que eram poços de uma escuridão tão densa que refletiam o próprio início do universo. A comida ainda fumegava. O pão estava partido a meio. A vida, na sua expressão mais quotidiana e banal, decorria ali.
— Agora? — perguntei, sem o pânico que esperaria sentir, mas com uma curiosidade genuína. — A meio do jantar? Pelo menos deixa-me terminar a sobremesa. Seria uma indelicadeza deixar a mesa posta sem o café.
A Morte não sorriu, porque as sombras não sorriem, mas a sua postura pareceu suavizar-se, adoptando a atitude de um convidado que, embora com pressa, aceita a hospitalidade do anfitrião.
— O tempo dos vivos é uma ilusão de contagem — respondeu. — Para mim, o teu nascimento e este jantar acontecem no mesmo sopro. Mas aceito o diálogo. Os humanos raramente conversam comigo; normalmente, gritam ou negoceiam.
Nesse momento, a sala de jantar pareceu expandir-se. As paredes de betão dilataram-se até se transformarem numa vasta abóbada celeste, onde as estrelas cadentes riscavam o teto e o chão se cobria de um tapete de relva luminescente que brilhava a cada batimento cardíaco. A mesa de jantar permaneceu no centro, um altar de normalidade num oceano de infinitude cósmica.
Sentado diante do fim, percebi que a minha mente não se agarrava aos arrependimentos ou aos planos não concretizados. A minha mente focava-se no mistério absoluto daquela transição. Olhei para a Morte e formulei a primeira grande questão que a humanidade murmura desde que aprendeu a erguer os olhos para o céu.
— Passámos milénios a tentar decifrar-te — comecei, servindo um pouco de água no copo daquela entidade, que a aceitou, observando o líquido como se visse a história de todos os rios do mundo. — Criámos mitos, fomos para a guerra em teu nome, escrevemos enciclopédias de medicina e filosofia para te adiar. E, no entanto, manténs-te como a única certeza absoluta e, simultaneamente, o maior deserto de conhecimento. O que é o ato de morrer? É uma queda, uma travessia ou simplesmente o apagar de uma lâmpada?
A Morte olhou para o copo de água. Na superfície cristalina, pequenas galáxias espiralavam e extinguiam-se num piscar de olhos.
— O vosso erro é conceptual — explicou a Morte, com uma paciência pedagógica. — Vocês conceptualizam o morrer como um evento, uma rutura violenta. Vêem a vida como uma linha e a morte como o ponto final que a destrói. Mas a verdade é que vocês passam a vida inteira a morrer. Cada segundo que expiram é um fragmento de existência que me entregam. O ato final, aquele que temes, não é o fim da vida, mas a sua conclusão. É a última pincelada numa tela. Ninguém diz que a última pincelada destrói a pintura; diz-se que a termina.
— Mas a pintura não sabe o que acontece depois de estar pronta — argumentei, sentindo o peso da ignorância humana. — Nós não sabemos se a tela é arrumada num sótão escuro ou pendurada numa galeria de luz. A falta de conhecimento sobre o que vem a seguir é o que nos aterroriza. Criámos fadas, anjos, reencarnações e valhallas para preencher o vazio da nossa ignorância. Temos medo de ti porque és a única porta trancada para a qual a ciência nunca conseguiu moldar uma chave.
A Morte estendeu a mão sobre a mesa. Os seus dedos eram feitos de poeira cósmica e fios de esquecimento. Onde a sua pele tocava a madeira, pequenos veios de ouro vegetal cresciam e floresciam em frações de segundo, mostrando que até no toque do fim residia uma estranha e indomável fertilidade.
— A ignorância é o maior presente que a vida vos deu — disse Ela, e o tom subiu como uma sinfonia invisível de violoncelos. — Se soubesses exatamente o que está do outro lado, a tua vida perderia a gravidade. Imagina que o Além era uma certeza matemática, um destino turístico documentado. O valor de cada escolha tua desvanecer-se-ia. A beleza do amor, a urgência da arte, o sabor deste pão que partilhas comigo... tudo isso só brilha com tanta intensidade porque existe o pano de fundo da minha escuridão. O desconhecido é o oxigénio do livre-arbítrio.
Pensei nas suas palavras enquanto mastigava o último pedaço de pão. A filosofia da Morte era reconfortante, mas o instinto humano de autopreservação e a sede de experienciar o mundo continuavam a pulsar nas minhas veias. Olhei em redor e vi que a fantasia daquela noite estava a atingir o seu zénite. Da sopa no meu prato emanavam agora pequenas fadas de vapor que dançavam coreografias complexas antes de se dissiparem no ar. O relógio de parede tinha deixado de ter números; agora mostrava as fases da lua e o ciclo de vida das estrelas.
— Se a ignorância nos liberta, então aceito-a — disse, recostando-me na cadeira. — Mas diz-me, antes de partirmos: porque escolheste a hora de jantar? Podias ter vindo no meio de um sonho, ou num momento de solidão. Porque interromper o ato mais sagrado de comunhão humana, que é a partilha do alimento?
A Morte recolheu a mão, e as flores de ouro na mesa fecharam-se, transformando-se em sementes cintilantes.
— Porque o jantar é o momento em que os humanos celebram a sua sobrevivência ao longo do dia — respondeu com uma suavidade quase terna. — É o momento em que dizem uns aos outros, implícita ou explicitamente: "Vejam, conseguimos mais um dia". Vir aqui é lembrar-te de que a sobrevivência é um empréstimo diário, não uma propriedade. Além disso... queria ver se a tua postura perante o inevitável seria de desespero ou de filosofia.
— E qual é o veredicto? — perguntei, levantando-me da cadeira e limpando os lábios com o guardanapo, aceitando que o banquete da minha existência física chegara ao fim.
A Morte levantou-se também. A sala ao nosso redor começou a recolher-se, transformando-se num túnel de espelhos onde cada reflexo mostrava uma idade diferente da minha vida: eu a aprender a andar, a chorar por um desgosto amoroso, a rir à gargalhada com amigos, a ler um livro num domingo de chuva. Todos os momentos coexistiam ali, brilhando como pirilampos numa floresta noturna.
— O veredicto é que estás pronto — disse a Morte, oferecendo-me o braço como um velho amigo que nos acompanha numa caminhada noturna. — Não porque não tenhas mais nada para viver, mas porque compreendeste que o valor da vida não se mede pela quantidade de páginas, mas pela profundidade do texto.
Olhei uma última vez para a mesa de jantar. O copo de água estava vazio, o prato limpo. O mistério do que estava além daquele túnel de espelhos permanecia intacto, mas o medo tinha sido substituído por uma imensa e fantástica curiosidade. Dei o primeiro passo em direção ao desconhecido, lado a lado com a minha última convidada.
Vamos là então...!




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