segunda-feira, 4 de maio de 2026

o mundo dos outros


O sol de agosto não tinha misericórdia. O alcatrão do parque parecia querer derreter sob as rodas da cadeira, que subitamente parecia pesar o triplo. Maria parou. As palmas das mãos, vermelhas e suadas, ardiam pelo esforço de manobrar o metal por entre as calçadas irregulares.

Ela encostou-se a um carvalho antigo, procurando a única nesga de sombra disponível. À sua frente, o parque transbordava de uma vitalidade que lhe parecia agressiva. Crianças "normais" corriam em ziguezague, os gritos agudos de alegria cortando o ar como lâminas. As outras mães, sentadas nos bancos, partilhavam risos e conversas triviais sobre a escola ou o futebol, enquanto os seus filhos testavam os limites da gravidade nos baloiços.
Maria olhou para baixo. No assento da cadeira de rodas, o seu pequeno permanecia imóvel, a cabeça levemente inclinada, os olhos perdidos num ponto que só ele alcançava. Ela ajeitou-lhe a manta, embora estivessem trinta graus; era um gesto reflexo, uma tentativa de o proteger de um mundo que ele não podia habitar plenamente.
A exaustão de Maria não era apenas muscular. Estava escrita nos sulcos profundos em redor dos seus olhos e na rigidez dos seus ombros. Era um cansaço de alma, de quem luta contra uma corrente que nunca abranda
Lentamente, ela levantou o rosto para o céu azul, límpido e indiferente. Fechou os olhos.
Naquele escuro momentâneo, o silêncio instalou-se. Sabemos o que ela pensa. Não é raiva, é uma saudade de algo que nunca teve. Ela imagina, por um segundo, o som de passos a correr na sua direção e uma voz a gritar "Mãe, olha para mim!". Ela sente o peso do futuro — uma nuvem cinzenta que paira sobre a luz do sol.
Daqui a vinte anos? Daqui a trinta?
A pergunta ecoa sem resposta. Quem segurará estas pegas quando os braços dela falharem? Quem lerá o brilho nos olhos dele quando ela já não estiver lá para o traduzir? O tempo, para Maria, não é uma linha de progresso, mas um relógio de areia onde cada grão pesa como chumbo.
Um grito mais alto de uma criança próxima fê-la abrir os olhos. O clarão do sol cegou-a por um instante. Ela respirou fundo, engoliu o nó que se formava na garganta e limpou o suor da testa com as costas da mão.
Não houve milagre, nem o peso diminuiu. Mas, ao olhar de novo para o filho, viu que ele esboçava um reflexo de sorriso ao sentir a brisa no rosto. Maria voltou a colocar as mãos nas pegas da cadeira. O cansaço continuava lá, mas o amor, esse gigante silencioso, deu-lhe o empurrão necessário para continuar a caminhar.
Maria apertou as pegas de borracha da cadeira com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos, uma extensão da rigidez que lhe dominava o corpo. O seu aspeto físico era o mapa de uma guerra silenciosa e sem tréguas. Aos trinta e poucos anos, o espelho devolvia-lhe a imagem de uma mulher que parecia ter vivido o dobro; o cabelo, outrora brilhante, estava agora preso num nó descuidado, com fios prematuramente grisalhos a escaparem pelas têmporas.
O seu rosto era um deserto de vivacidade. A pele, baça e marcada por olheiras profundas que nenhum descanso conseguia apagar, parecia esticada sobre as maçãs do rosto salientes. Não era apenas cansaço; era uma erosão. Cada vez que tinha de levantar o filho — o peso morto e dependente de um corpo que crescia, mas não obedecia — sentia uma pontada aguda na zona lombar, uma dor crónica que se tornara a sua companhia mais fiel.
Ela olhou para as próprias mãos: calejadas, com as unhas curtas e a pele gretada pelo uso constante de desinfetantes e pelo manuseio de metais frios. Aquelas mãos não eram feitas para carícias leves; eram ferramentas de suporte, de higiene, de sobrevivência.
A infelicidade não era um grito, era um suspiro contínuo. Ao ver os outros meninos a saltarem, sentiu uma pontada de inveja tão amarga que lhe subiu à garganta. O filho, ali, era um contraste cruel com a natureza vibrante do parque. Os membros dele, ora rígidos, ora flácidos, presos por cintos de segurança para que o tronco não tombasse, eram o lembrete constante da sua "sentença" de cuidadora eterna.
O ar sofredor de Maria emanava de cada poro. Ela não caminhava, arrastava-se sob o peso de um destino que a isolava das outras mães. Enquanto elas falavam de sonhos e planos, o horizonte de Maria terminava na próxima consulta, na próxima crise, na próxima noite sem dormir. A sua postura era curvada, como se carregasse o mundo inteiro nas costas, e o seu olhar, quando se cruzava com o de algum estranho, era rapidamente desviado; ela não queria piedade, mas também já não tinha forças para sustentar a máscara de "mãe coragem".
Ali, sob o sol implacável, ela era a imagem viva da exaustão humana — uma mulher que amava o filho acima de tudo, mas que odiava, com todas as fibras do seu ser, a cadeira de rodas que os acorrentava a ambos a uma vida de limitações e dor física.
Olho para aquelas mãos a segurar gelados e a apertar atacadores de sapatilhas que correm, e depois olho para as minhas. Estas mãos já não servem para mim; são polias, são alavancas, são o motor de um corpo que não se move. Sinto-me um fantasma a carregar uma âncora, e o mais cruel é que amo a minha âncora mais do que a minha própria vida.
O que acontece em 20 ou 30 anos? Quando os meus braços forem fios secos e as minhas costas cederem de vez? Quem vai saber que ele gosta da manta assim, nem muito alta nem muito baixa? Quem vai ler o silêncio dele? O mundo não tem lugar para homens que não caminham se não houver uma mãe a empurrar. Eu sou o seu chão, mas o meu chão está a desfazer-se.
Quando Maria abriu os olhos, o mundo voltou com a sua indiferença cortante. Ela sentiu o peso dos olhares das outras mães — não eram olhares de ódio, mas de algo pior: uma piedade rápida que se desviava logo de seguida, como se a deficiência do seu filho fosse contagiosa ou um lembrete demasiado vívido da fragilidade da vida.
As conversas sobre o futuro escolar ou as férias de verão pareciam vir de outra galáxia. Para Maria, a "maternidade atípica" transformara o parque num palco de contrastes. Enquanto as outras crianças eram promessas de independência, o seu filho era uma promessa de permanência.
Ela ajeitou a postura, sentindo a compressão nas vértebras. O ar sofredor não era uma escolha; era o resultado de anos a atuar como "mãe-máquina". A pele baça, as olheiras que pareciam tatuagens de insónia e a expressão de quem espera sempre pelo próximo desastre eram agora a sua identidade.
Ela olhou para o filho. Ele continuava ali, com aquele ar de quem habita um segredo. Maria suspirou, um som carregado de toda a exaustão do mundo, e voltou a empurrar. O metal da cadeira rangeu, um protesto seco que ecoava a dor nos seus próprios ossos. Ela não esperava mais que o dia acabasse; esperava apenas ter forças para o recomeçar amanhã.
O caminho de volta foi um exercício de repetição mecânica. O sol começava a baixar, mas o calor permanecia retido no cimento, subindo pelas solas gastas dos sapatos de Maria. Ela não olhava mais para os lados; o seu mundo tinha agora a largura exata da cadeira de rodas.
Ao chegar ao prédio, o ritual de sempre. A luta contra o pequeno degrau da entrada, o esforço de suspender as rodas dianteiras enquanto sentia a coluna protestar com um estalido surdo. O elevador, estreito e com cheiro a claustrofobia, subiu lentamente. No espelho baço da cabine, Maria viu o seu reflexo: os ombros descaídos, o rosto cinzento de fadiga e aquele olhar vazio de quem já chorou tudo o que tinha para chorar.
A porta de casa abriu-se para um silêncio pesado. Não havia o barulho de brinquedos a serem atirados ao chão, nem o som de pés descalços a correr pelo corredor. Havia apenas o som metálico dos travões da cadeira a serem acionados.
Ela retirou o filho do assento com a perícia de quem já o fez milhares de vezes, mas com a agonia de sentir que ele estava cada vez mais pesado e ela cada vez mais frágil. Deitou-o no sofá. O vazio do quotidiano instalou-se na sala, misturado com o cheiro a desinfetante e medicamentos.
Maria foi até à cozinha e serviu-se de um copo de água. Ficou ali, de pé, a olhar para a parede descascada. Não havia planos para o jantar que envolvessem conversas sobre o dia de escola; não havia o caos vibrante de uma casa cheia. Havia apenas a próxima muda de fralda, a próxima colher de comida passada, a próxima hora de vigília.
Olhou pela janela para a rua que escurecia. Lá fora, o mundo continuava a girar, apressado e ruidoso. Dentro daquelas quatro paredes, o tempo parecia ter coagulado. Ela sabia que, em 20 ou 30 anos, aquele mesmo silêncio seria o seu único legado, e a solidão do regresso a casa era apenas um ensaio para o vazio maior que o futuro lhe reservava.
Maria pousou o copo, limpou uma lágrima solitária que não chegou a cair e voltou para junto do filho. A noite estava a chegar, e com ela, a mesma escuridão que ela carregava no peito.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

SOS

 Boa noite meu caos bonito!

Que tenhas bons sonhos!

Que um raio de sol seja so teu quando acordares!

Que cada passo seja uma aventura grande;

Uma lufada de ar fresco!

Ama a vida...

E eu... amo-te a ti.


quarta-feira, 19 de março de 2025

sobre o dia da mulher

 Eu penso que é o dia mais estupido do ano!

Celebrar o dia da Mulher!!! a mulher merece ter um dia em que se pense nela no calendàrio judaico cristao!!!Ena.... oh miséria franciscana!

Ouço e vejo de tudo, pequenos grupinhos organizados à ultima da hora para um jantarinho e depois uma ida a um daqueles clubes de gajos musculados em fio dental para que a aberraçao deste dia fique completo!

Ouvi dizer que existem mulheres inglesas, muitas delas casadas, outras sem estatuto deslocam-se ao sul de Espanha, para momentos "ludicos" se é que me entendem! O que eu questiono nao sao as kekas , nao hà homens em UK!? Por os cornos nos maridos tanto vale no sul de Espanha como em UK ou outro lado qualquer!

Entre outas e tantas festas e absurdos momentos proporcionados, que vale tamanho dia? que vale tamanho momento? vale o que?!

Contentes, nao muito sobrias irao regressar aos respectivos maridos, ao habitual correrio do dia a dia e nada de valor acrescentado adicionou-se a este dia, o dia da Mulher!

Ao contràrio, eu penso naquela mulher que tem uma catrefada de filhos, que se tem de levantar cedo, que tem de preparar os pequenos almoços em sua casa, enquanto o marido està na casa de banho a fazer a barba, tomar banho e arranjar-se para ir para o escritorio ou para a empresa!

Muito antes, a sua mulher jà arranjou duas marmitas, e 4 lanches para os filhos para o dia seguinte! Deita-se à noite, estoirada com mais um dia pesado de trabalho, nao hà tempo para uma keka! o marido ronca! e ela jà so tem 5 horas para descansar! e isto repete-se por mais de 5 dias da semana...e depois hà o fim de semana! sim, porque o fim de semana para esta mulher nao é dia de descanso! aquela familia continua a existir, e hà roupa para lavar, roupa para passar a ferro, e depois hà a casa para limpar, o jardim esquecido na semana passada porque o marido foi à bola com os amigos e depois em vez de vir para casa ficou num bar com os amigos para mais uma cerveja! Na semana que vem um dos filhos vai fazer aniversario e o trabalho vai ser a dobrar! 

Quando é que estas mulheres celebram o seu dia ?! as verdadeiras mulheres com um M grande, às esquecidas destes grupos de seres irracionais.

Era bom pensarmos nisto outra vez no proximo ano!



segunda-feira, 17 de março de 2025

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Lembra de mim

https://www.youtube.com/watch?v=yEKhRQHwXVM&list=PL1nql9qUW9J3UMTtvKTCX2GYWUS_l0GXE&index=9

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

tempo

 O sal nunca recebe elogios quando nao està na comida, porem basta faltar para que todos simtam a sua ausencia.

Assim é a vida!

O esforço silencioso quase nunca é reconhecido, mas quando partimos os outros deixam de ter o que voçe oferecia, por isso nao viva esperando aplausos! Faça o bem, de o seu melhor nao pelos olhos dos outros mas por quem voçe é, e um dia quem nao o valorizou vai perceber, so que talvez jà seja tarde demais!