"Voar é e será
sempre a eterna inveja e frustração que o homem carrega na sua alma e aperta no
seu peito quando vê um pássaro a planar ao sabor do vento.
Aprendemos a
fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a “vida” não nos deixou. Talvez por
saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas.
E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a
tentação de ir e a necessidade de ficar.
Muito bem. Aí
o homem foi lá e criou a roda. A Kombi. A Trotinete motorizada. A Harley. O
Boeing 747. E nós descobrimos que, mesmo sem asas, poderíamos voar. Mas a grande complicação foi
quando nós percebemos que poderíamos ir sem data de regresso.
E assim
começaram a surgir os corajosos que
deixaram suas cidades de fome e
miséria para tentar alimentar a família noutras capitais, cheias de
oportunidades e monstros. Os corajosos que deixaram o aconchego do lar para
estudar e sonhar com o futuro incrível e hipotético que os espera. Os corajosos
que deixaram as cidades da pátria para viver oportunidades que não aparecem
duas vezes. Os corajosos que deixaram, enfim, a vida que tinham nas mãos, para voar para vidas que decidiram encarar de
peito aberto.
A vida de
quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É
chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o
inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É orgulhar-se da escolha
que te ofereceu mil tesouros e odiar-se pela mesma escolha que te subtraiu
outras mil pedras preciosas, os pais, os filhos, os amigos, esta ou aquela pessoa, o cheiro da nossa terra, do nosso lare. E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na
cama, pensar no antigo-eterno lar, nos quilómetros de distância, pensar nas
pessoas que amamos, o que elas estão fazer sem nós por perto, nos risos que nós
não rimos com elas. É tentar, sem sucesso, conter um breve choro no canto do olho, e
suspirar sabendo que nós somos os únicos responsáveis pelas nossas próprias
escolhas. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta
a fazer sentido. Mas, sabemos bem, muito bem, que outras noites como essa
virão."
Comentário/Texto de colunista brasileira.











