quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

tão natural como nascer


O último abraço de António Lobo Antunes ao irmão João

Não  precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amor vou-me embora.
eu
– Sabes onde é a porta.
Mas não voltámos a falar de amor. Para quê? Estava ali todo. Depois quis ver os livros
– Para aí vinte mil, não?
eu
– Mais ou menos, incluindo os muitos que encontrei numa livraria de segunda mão, assinados por ti.
Silêncio. Eu
– Não podia suportar a ideia de que outras pessoas tivessem em casa os livros do meu irmão.
Gesto vago. Depois ele
– António
e silêncio, depois eu
– João
e silêncio. Ou seja um diálogo de amor compridíssimo. Depois
– Se os pais cá estivessem
e esta frase fez-me compreender melhor a sua imensa dor. A mãe para quem a inteligência, num homem, era a forma suprema de sensualidade. E um rabo grande a coisa mais feia deste mundo. Um homem inteligente, na sua opinião, era atraentíssimo.
– Um homem bonito e estúpido ao fim de um quarto de hora não existe
e ainda bem porque, assim, talvez tenhamos algumas chances com ela. A mãe, ainda
– Desafio qualquer mulher no mundo a ter filhos tão inteligentes como os meus.
E ele continuou a falar:
– Depois eu fui para Nova Iorque e tu para África.
Numa altura, depois de África, em que ele estava a sofrer muito meti-me num avião e fui para casa dele. Durante o dia ele trabalhava no hospital e eu ficava às voltas com o Fado Alexandrino. Depois jantávamos juntos e comíamos uns gelados enormes que ele trazia a vermos os play-offs do basquete.
Um de nós
– E jogam com humor
o que é tão raro no desporto. Aos sábados um bocado numa discoteca. Camisas cheias de baton. A certa altura olhou, do sofá, para a estante mais próxima: Um livro de Marcel Pagnol. Ele
– A nossa infância toda.
E eu com vontade de tocar-lhe. Claro que não toquei. As suas mãos, que conhecia tão bem, poisadas nos joelhos. Embora impassíveis estávamos demasiado emocionados.
Ele
– De qualquer modo não nos perdemos um ao outro
eu, depois de um silêncio compridíssimo
– Nunca nos perdemos, não é agora que isso vai acontecer.
Ele
– Vou chamar um taxi.
Silêncio.
Ele
– Acompanhas-me lá abaixo?
Entre a casa e a rua uma distância grande. Era o fim do dia, já não estava muito sol. O taxi à espera no passeio. O chofer, a quem ele operara a mãe, veio abrir-lhe a porta do carro. Ele voltou-se para mim e disse o meu nome. Eu aproximei-me dele e disse o seu. Abraçámo-nos com muita força e, de repente, começou a chorar. Só sentia ossos nas minhas mãos. Mas nada de mariquices, claro, sobretudo nada de mariquices.
Ele
– Não digas a ninguém que chorei.
E sentou-se no banco ao lado do chofer, sem olhar para mim. Não olhámos um para o outro, aliás, mas nunca nos vimos tão bem. O carro foi-se embora. Fiquei na borda do passeio até que desapareceu. E então, de mãos nos bolsos, voltei para casa. Nunca houve um abraço assim no mundo.


domingo, 8 de janeiro de 2017

gosto de esquecer...às vezes faz-me bem




Já revisitei mais o meu passado que agora. Os tempos são outros, são mais anos, e isso pesa.
Há coisas que eu não esqueço, por mais que eu peça a Deus, para, que lá de cima ele atire uma marreta de pedreiro bem pesada na minha cabeça...para definitivamente esquecer certas coisas.
Se as coisas estão lá é porque tem algum significado para continuarem a chagar-me quase, quase todos os dias.
Eu já não sou fácil, estou duro de coração, não sou tolerante a certas coisas, irrito-me com facilidade...eu era tão calmo e pacífico que por vezes até irritava.
Agora estou menos vulnerável, mais pragmático, estou duro de roer...só entra quem eu quiser!!!
O meu passeio de hoje à tarde com um frio de rachar aos -12º não me incomodaram nada, às vezes faz bem, alivia a tensão, a dor de qualquer coisa...e tudo passa por momentos, então, aí eu sou livre de tudo, sou mais eu, sorrio a quem passa, um estrangeiro que ainda só sabe dizer poucas palavras.
Tudo é mais fácil, tudo flui com menos rigor ao que estou habituado.
Começo habituar à ideia de que a minha vida vai ser isto, hoje aqui, amanhã noutro lado, não há volta a dar.
Gosto de esquecer quem sou por breves e finitos momentos...às vezes faz-me bem.
São 19: 54 de Domingo, e faz um frio de rachar...

dito assim 2


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

dito assim...em Milão.



Eu considero-me um homem moderno, vivido, experienciado, enfim...foi a vida que me fez desta maneira e não de outra.
Ouvi isto, ontem, num bar aqui perto do Hotel onde estou instalado. Lindo por sinal...
O tema é sobre o Swing , e é abordado por dois ingleses, pelo menos falavam inglês.
Segundo um, tinha sido espectacular! a sua mulher estava encantada, e já falava em fazer de novo...e ele também. O outro homem falava da sua experiência swinguer no sul de França, e de fazer férias de Verão naquela zona só para fazer Swing.
Confesso,  e estranhamente penso, que algo me falha aqui  algures no meu processamento cognitivo...como sou curioso e ávido de saber sempre mais fui dar uma vista de olhos à wikipédia , pelo meu telemóvel, mesmo ali onde bebia o meu distinto e saboroso Lavazza. 
A informação e o significado que se dá a este acto é o seguinte : Swing ou troca de casais, é um relacionamento sexual entre dois casais estáveis que praticam sexo grupal como uma atividade recreativa ou social(...)
Não li mais, bastou-me aquele paragrafo...
Percebi que estou a salvo desta coisa de trocas de casais, uma vez que para ser swinger o casal deve ser estável!? bolas...!!! já me safei desta!!! não sou casado e não estou estável!!! se estivesse?!
E a segunda, e segundo a nossa Wikipédia é uma actividade recreativa e ou social!!! lembro-me de andar num rancho folclórico e isso era considerado uma actividade recreativa e social...!!! agora não, é tira daqui e mete dacolá!!! ora enfias aqui para depois enfiares acolá!!!
Estas coisa fazem-me confusão e as pessoas acham normal...sim é natural!!! olha toma lá a minha mulher e diverte-te na boa, e eu fico com a tua...pode ser na minha casa.
Fico confuso, a minha vida, a minha terra por vezes não é esta...tudo acontece!!! Serei eu que estou errado?! será mesmo assim...como é?!
Fiquei por ali, esvaziei a cabeça daquela conversa, estava de costas e eles nem me viram...
Por vezes penso nas minhas filhas, que futuro lhes reserva, como irão ver o mundo.
Subi para o quarto e fui dormir.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

um passeio (a pé) pela cidade




































e agora que passou o Natal, 2017.


Eu não tenho uma barreira para saltar ou pular, eu não tenho uma meta no horizonte, eu não faço planos, eu não corro atrás de ninguém...eu não tenho expectativas claras e evidentes do que quer que seja.
O ano de 2016 foi miseravelmente bom para mim, tive trabalho, consegui por pão na mesa, comprei o que tinha de comprar, vagueei por aí, visitei, descobri, passeei...Acho que olhando para trás até que não foi mau, tirando um ou outro ponto. Tive 3 empregos, os ultimos dois qual deles o pior, mas ao mesmo tempo aprendi algo, sim porque aprendemos sempre algo - as pessoas não são o que são, não existe moral como antigamente, é o salve-se quem puder, e não existe amigos no trabalho!!!
Apesar de tudo , e o bom mesmo, foi ter vivido em regiões do país muito bonitas, tive o privilégio de viver junto ao Zezere o "meu" rio por excelência, com tudo aquilo que ele tem para mostrar.
Viajei em trabalho, viajei em lazer, li muito, escrevi muito, tirei imensas fotos, falei com estranhos e entrei em suas casas, comi coisas que repugnariam muita gente, mas comi, deambulei por aí...
Estou neste momento a trabalhar numa das maiores consultoras do mundo...e tenho visto coisas fantásticas, coisas perigosas, coisas que dantes eram impossiveis e agora são concretisáveis. Tenho visto o mundo em movimento como nunca tinha visto, e este trabalho deu-me essa possibilidade: Quem são essas "pessoas" ditas grandes, quem são os "moovers", quem são os "playmakers" do mundo que criam oportunidades e geram conflitos mundiais. E eu , homem simples, neutro, mas de olhos bem abertos, observo e estou nesse mundo...coisa estranha para mim.
A vida e os anos vão passando lentamente e normalmente como eu gosto, não tenho pressa, não tenho casa própria, não tenho carro, nem esposa, namorada ou amante - tenho sim duas mulheres lindas, essas sim são a minha única preocupação, o meu unico bem físico.
Se eu estou diferente?! sim estou, vejo a realidade de um modo diferente...o que os outros pensam de mim, isso já nem ligo, não interessa. Eu hoje trabalho de John Phillips, com um toque de hugoboss no pescoço amanhã se for preciso posso estar de galhochas numa traineira em alto mar e a cheirar a cavalo. Sou feliz assim, à minha maneira, e muitos não compreendem esta minha posição sobre a vida, sobre a minha maneira de estar.
O resto entrego à vontade de DEUS, só ele sabe, só ele pode, só ele quer...que seja sempre feito à sua vontade. O que tiver de acontecer vai acontecer.
O próximo ano?! não sei nem quero saber...
Se eu como as tradicionais 12 passas à meia noite?! sim já o fiz...agora não.
Que seja um bom ano e muito feliz ...seja bem vindo 2017.