O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo clique compassado do rato e pelo roçar suave das páginas de papel acetinado. Deitados lado a lado, sob a luz morna dos candeeiros de mesa-de-cabeceira, formavam dois mundos paralelos partilhando o mesmo espaço.
domingo, 27 de setembro de 2026
candeeiro de muita luz
domingo, 13 de setembro de 2026
paginas de um livro
Dizem os antigos sábios gregos que existem duas formas distintas de compreender o tempo. A primeira é Chronos, o tempo sequencial, mecânico, aquele que devora os dias com os ponteiros indiferentes de um relógio comum. A segunda, contudo, carrega um peso divino: Kairós, o momento oportuno, o instante exato em que o eterno cruza com o efêmero. Kairós não se mede em minutos, mas in intensidade. É a definição exata de uma oportunidade de uma vida.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
hà 4 anos...
A Sala de Espera
e o Silêncio Inicial...
O relógio de
parede da sala de espera emitia um som compassado, quase hipnótico. Cada
tique-taque parecia dilatar o tempo, transformando minutos em horas. Sentado na
cadeira de estofos gastos, olhava para as minhas próprias mãos, procurando
nelas uma resposta para a inquietação que me trouxera até ali. A porta de
madeira maciça abriu-se com um rangido suave. A minha psicóloga surgiu à
entrada, com o habitual olhar sereno que, de alguma forma, conseguia desarmar
as minhas defesas antes mesmo de eu me sentar no divã. Ela cumprimentou-me com
um aceno subtil e indicou-me o caminho para a sala. O ambiente era acolhedor,
iluminado por uma luz quente que contrastava com o cinzento dos meus
pensamentos. Sentia o peso dos dias acumulados nos ombros, uma bagagem
invisível mas esmagadora que finalmente teria de abrir e examinar.
Ela sentou-se na
sua cadeira de pele, abriu o bloco de notas sobre os joelhos e segurou a
caneta. Olhou-me nos olhos, não de forma inquisitória, mas com uma curiosidade
genuína e compassiva. O silêncio instalou-se entre nós durante alguns segundos,
um espaço seguro onde as palavras não precisavam de ser apressadas. Eu sabia
que aquele era o momento de começar, mas a minha garganta parecia travada por
um nó de emoções não ditas. Percebendo a minha hesitação, ela respirou fundo,
inclinou-se ligeiramente para a frente e quebrou o gelo com a primeira
pergunta, desfazendo a névoa que pairava na sala.
A voz dela era calma, uma âncora no meio da minha tempestade mental. A primeira questão não foi sobre os meus problemas diários ou sobre o cansaço do trabalho, mas sim algo que me obrigou a recuar no tempo e a escavar nas minhas memórias mais profundas. Ela perguntou:
— Quando foi a
última vez que te sentiste feliz?
A pergunta ecoou
nas paredes da sala e, mais ainda, na minha mente. Fiquei em silêncio, a tentar
encontrar um momento, um único instante em que a felicidade não tivesse sido
apenas a ausência de dor, mas sim uma presença real e vibrante. Lembrei-me de
sorrisos antigos, de tardes de sol que já pareciam pertencer a outra vida, e
percebi quão focado tinha estado na sobrevivência emocional, esquecendo-me do
que era realmente viver.
Antes que eu
pudesse formular uma resposta completa, ou talvez percebendo que a resposta à
felicidade estava intrinsecamente ligada às minhas relações mais profundas, ela
mudou o rumo da conversa. O seu olhar tornou-se ainda mais atento, captando a
vibração da minha postura. Com uma suavidade que não retirava o peso à
pergunta, ela questionou:
— Quando foi a
última vez que amaste uma mulher?
Senti o meu peito
apertar-se. Amar alguém exige uma vulnerabilidade que eu tinha tentado trancar
a sete chaves. Imagens de rostos do passado, de promessas feitas à meia-noite e
de despedidas dolorosas cruzaram-se no meu pensamento. Responder àquela pergunta
significava admitir se o meu coração ainda estava vivo ou se se tinha
transformado numa fortaleza de pedra para evitar novas feridas.
A psicóloga
anotou algo no seu bloco, o som da caneta contra o papel era o único ruído na
sala. Ela não demonstrou julgamento, apenas uma paciência infinita. Olhou para
mim novamente, percebendo o impacto das suas palavras anteriores, e continuou a
explorar o labirinto dos meus sentimentos, lançando novas perguntas que abriram
mais portas na minha mente:
— O que confundes
com amor no teu dia a dia? Será que confundes a necessidade de companhia com o
sentimento real? O que te impede de te entregares totalmente a outra pessoa
hoje em dia? É o medo da rejeição ou o medo de te perderes a ti mesmo no
processo?
As perguntas sucediam-se como espelhos colocados à minha frente, obrigando-me a olhar para ângulos mortos da minha personalidade que eu preferia ignorar.
A sessão avançava
e a atmosfera tornava-se mais densa, mas também mais libertadora. Era como se
estivéssemos a retirar camadas de uma armadura velha e ferrugenta. Ela
recostou-se na cadeira, pensativa, e abordou a forma como eu geria a minha
solidão e a minha dor, perguntando:
— Quando o
silêncio do teu quarto se torna insuportável, o que fazes para não sintonizares
os teus próprios pensamentos? Que distrações crias para evitar olhar para
dentro de ti? Quando foi a última vez que choraste sem sentires vergonha ou
necessidade de pedir desculpa por estares a sofrer?
Cada palavra dela tocava numa ferida aberta, mas não para causar dor, e sim para permitir que ela finalmente cicatrizasse.
Percebi que
muitas das minhas respostas iam dar ao mesmo lugar: ao ontem. Ao que ficou por
dizer, ao que ficou por resolver. A psicóloga, mestre em ler as entrelinhas do
meu discurso, apontou a caneta na minha direção de forma suave e questionou:
— Quem é a pessoa
no teu passado a quem ainda tentas provar o teu valor, mesmo que ela já não
faça parte da tua vida? Que conversas imaginárias continuas a ter na tua cabeça
quando estás sozinho no carro ou antes de adormecer? O que precisas de perdoar
em ti mesmo para deixares de carregar o peso dos erros dos outros?
O cansaço físico começou a manifestar-se; a catarse emocional consome energia real. Senti os meus olhos humedecerem, mas pela primeira vez em muito tempo, não tentei disfarçar.
Aproximando-se o
final do tempo estipulado, a abordagem dela mudou. Passámos do diagnóstico do
passado para a projeção do amanhã. Ela pousou o bloco de notas na mesa de
apoio, olhou-me com um sorriso encorajador e fez as últimas perguntas daquela
consulta:
— Se o medo
deixasse de ser o teu conselheiro principal a partir de amanhã, qual seria a
primeira decisão que tomarias? Como seria a tua vida se te permitisses ser
amado exatamente como és, com todas as tuas falhas e imperfeições? O que vais
fazer com o espaço que vai ficar livre quando finalmente decidires largar estas
mágoas?
As perguntas não exigiam respostas imediatas; eram sementes plantadas para os dias que se seguiriam.
O som suave do
alarme do relógio dela indicou o fim da sessão. Respirei fundo, sentindo um
alívio estranho, como se tivesse deixado uma tonelada de pedras naquela sala.
Levantei-me, os meus passos pareciam mais leves no tapete. Agradeci-lhe com um
aceno de cabeça. Ela retribuiu o gesto, sabendo que o verdadeiro trabalho
começava agora, fora daquelas quatro paredes. Ao abrir a porta e sair para a
rua, o ar fresco da tarde bateu-me no rosto. O mundo continuava igual, com o
seu trânsito e a sua pressa, mas eu já não era exatamente o mesmo. Levava
comigo um caderno cheio de perguntas invisíveis e a certeza de que, para voltar
a amar e a ser feliz, teria primeiro de aprender a responder a cada uma delas
sem mentir a mim próprio.