Despedi-me uma vez mais de ti, mas tu não estavas lá. O dia também não era perfeito, tal como eu, mas na minha paciente percepção senti que o vento tinha trazido uma vez mais o teu cheiro e isso, bastou-me, eu contento-me com muito pouco, fui-me habituando pouco a pouco, na lentidão dos dias a esquecer-te.
Não me resta nada de ti, apenas umas fotos, um desenho a carvão feito em desespero, o meu ultimo desabafo de amor, um desvario, uma coisa qualquer, que geralmente se denomina por nada.
Os anos vão passando, e tão rápidos que são, as minhas memórias apenas servem para contar aquilo que foi provavelmente a minha mais bela história de amor. Mas vou contar a quem, se isto hoje não é nada mais que um bocejo, alguém vai interessar-se pela minha história ?! Não...penso que não.
Fui por aí acima, pelas tuas bandas, aliviar-me das minhas feridas por dentro, entrei em casas velhas como nós fazia-mos, subi montes, desci vales, apanhei uma pedra, atirei-a ao rio, apanhei uma folha seca, guardei-a no meu caderninho de contos de cor azul, é como eu lhe chamo.
Depois respirei fundo, nas árvores que já não existem, uma metamorfose maldita que vai demorar anos.
Depois foi aquela pedra atirada ao lago, ali mesmo, onde eu em tempos estendi uma manta de retalhos, e lá fizemos o nosso primeiro piquenique, depois demos as mãos, olhámos um para o outro, e tu , atrevida, mais do que eu, deste-me um longo beijo. Eu gosto do teu beijo.
Atirei mais uma pedra, e depois outra...não sei quantas foram, e continuei a minha viagem. É sempre assim, os dias vão passando e tu não estás.
Entro naquele nosso restaurante e a empregada não pergunta por mim, como é que eu vou, porque não tenho aparecido, ou o que é feito desta alma...pergunta apenas, então ?! falta aquela menina, não veio?!
Eu fico sem jeito, e digo-lhe que desta vez não lhe apeteceu vir comigo, mas é mentira, e a mentira tem a perna curta, bastou para isso olhar para o meus olhos...e ali, sentado eu disse tudo, sem abrir a boca.
Paro na fonte, está seca, há muito tempo, diz-me uma velhota, este ano não choveu nada, diz-me assim, como se me conhecesse toda a vida. Eu fico triste por um momento e entro no carro e sigo a minha viagem, afinal o tempo continua a correr, passo por aqui e por ali, estivemos aqui, não estivemos acolá, por vezes penso, que isto foi tão bonito, tão verdadeiro, por tudo, penso ainda que não mereci esse amor.
Começou a chover, ainda bem.
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